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Foto: reprodução/Rolling Stone Brasil

É viralatismo torcer pelo cinema brasileiro em premiações internacionais?

O reconhecimento do nosso audiovisual por instituições estrangeiras diz respeito a muito mais do que arte

Nos últimos anos, vimos o cinema brasileiro transbordar cada vez mais as fronteiras nacionais e levar as nossas histórias a públicos e críticos estrangeiros. Filmes como Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025) nos colocaram no centro do Oscar e do Globo de Ouro, assim como protagonizaram alguns dos festivais mais tradicionais do setor.

A princípio, poderia-se imaginar que esse reconhecimento seria fácil motivo de orgulho. Mas, em um cenário tão saturado por fake news que buscam o desmonte da categoria, é um receio quase irônico que mais se aproxima de frear a torcida nacional: não seria viralatismo querer a valorização do audiovisual brasileiro, que se diz soberano e regional, por organizações e instituições internacionais? É hipocrisia defender o nosso cinema enquanto torcemos tanto por um prêmio estadunidense, como o Oscar?

Foto: reprodução/CNN Brasil

É preciso admitir que há, sim, muitos brasileiros que só dão atenção ao cinema produzido aqui mediante a chancela de premiações e festivais estrangeiros. No Brasil, suspeitamos da qualidade daquilo que é nosso e normalizamos o ceticismo como reação imediata ao elogio, sobretudo num momento em que a ideia de patriotismo está sendo associada a um movimento que rejeita tudo aquilo que é essencialmente brasileiro.

Mas a importância do reconhecimento do cinema nacional e, por consequência, da torcida por esse reconhecimento, ultrapassa qualquer discussão sobre viralatismo ou hipocrisia. Entenda por que uma pequena estatueta de um cavaleiro sobre um rolo de filme pode pesar tanto no ecossistema audiovisual.

Hegemonia cultural: quais são nossas referências?

Há alguns anos, a série Sex Education (2019 – 2023) se tornou pauta nas redes sociais quando algumas pessoas começaram a perceber que, apesar de se passar na Inglaterra, muito do design de produção era claramente estadunidense, desde a cultura escolar aos parques de trailer.

Foto: reprodução/A Gazeta

Laurie Nunn, criadora da série, nunca se esquivou desses apontamentos, inclusive afirmando que essa decisão era intencional, uma vez que “eu sempre fui muito influenciada por séries e filmes americanos; eles foram muito presentes na minha própria adolescência, então isso sempre foi algo a que eu queria retornar.

Se você fosse escrever uma série baseada no contexto e estrutura sociais do que você assistia na sua adolescência, o resultado seria diferente do de Sex Education? 

Apenas para termos uma ideia, segundo levantamento feito em março pelo aplicativo Letterboxd, que conta com cerca de 20 milhões de usuários ativos em mais de 190 países, esses são os 15 filmes com mais fãs (entende-se: que mais são escolhidos como favoritos) da plataforma:

  1. Interestelar (2014)
  2. Sociedade dos Poetas Mortos (1989)
  3. La La Land (2016)
  4. Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004)
  5. 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999)
  6. As Vantagens de Ser Invisível (2012)
  7. Whiplash: em Busca da Perfeição (2014)
  8. Clube da Luta (1999)
  9. Gênio Indomável (1997)
  10. Adoráveis Mulheres (2019)
  11. Orgulho e Preconceito (2005)
  12. Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022)
  13. Me Chame Pelo seu Nome (2017)
  14. Coraline (2009)
  15. Parasita (2019)

Dos 15 filmes mais queridos no aplicativo, apenas três não são situados nos Estados Unidos: Orgulho e Preconceito, Me Chame Pelo Seu Nome e Parasita.

Foto: reprodução/Ladylavinia1932’s Blog

Façamos aqui um exercício. Se eu te perguntar agora qual é o seu filme favorito, quais as chances da sua resposta ser um longa produzido nos Estados Unidos? Dos últimos dez filmes que você assistiu, quantos eram estadunidenses? Você já ouviu alguém ser visto como nichado por gostar do cinema nacional?

A nossa referência pertence aos Estados Unidos, e nós usamos essa referência para refletir a nossa própria realidade. A verdade é que, enquanto nosso senso comum for estadunidense, o Brasil invariavelmente se torna errado por não ser igual. 

Tudo isso diz respeito à hegemonia cultural, conceito que descreve a capacidade da classe dominante de manter o poder através da imposição da sua visão de mundo e ideologia de forma não coerciva e consensual. Segundo a pesquisadora Annabelle Sreberny, essa dominação se reproduz na “institucionalização de jeitos de viver, estruturas organizacionais, valores, relações interpessoais e língua”.

Foto: reprodução/Rolling Stone Brasil

A título de exemplo, no famoso ensaio O Perigo de uma História Única, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie explica que, quando era criança, os livros que lia eram todos britânicos e estadunidenses. Consequentemente, quando começou a escrever, “todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis, brincavam na neve, comiam maçãs e falavam muito sobre o tempo e sobre como era bom o sol ter saído.” 

Em outras palavras, se as bombas nucleares nos fazem temer os Estados Unidos, é sua dominação cultural que nos faz querer viver o Sonho Americano.

E o que a indicação de filmes brasileiros em premiações estrangeiras tem a ver com isso? É certo que o Oscar não colocará fim à hegemonia cultural estadunidense, e a premiação tampouco pode ser considerada o termômetro mais confiável e incorruptível de talento e articulação artística, mas ela não deixa de ser um dos maiores palcos do entretenimento.

Quando Parasita começou a ser cotado para a premiação ainda no final de 2019, pessoas dos mais diversos países se deram a oportunidade de enxergar a realidade através de um pequeno e sujo porão em um bairro pobre de Seul. Após a vitória no Oscar de 2020, o filme teve um aumento de 234% na venda de ingressos em apenas um final de semana nos Estados Unidos.

Parasita desencadeou uma série de discussões, das mais regionais às mais universais, e reverberou no público de tal forma que, sete anos depois, ainda é uma das produções mais celebradas ao redor do mundo.

Foto: reprodução/UOL TAB

Se ano passado Ainda Estou Aqui fez estrangeiros (e até mesmo brasileiros) encararem pela primeira vez o nosso passado de violência com a ditadura, este ano O Agente Secreto soma a esse quebra-cabeça o nosso folclore, a nossa dor, o nosso carnaval e até os nossos orelhões. Isso se dá devido à acessibilidade e à projeção que esses circuitos internacionais concedem aos filmes, e não há artista que queira que sua obra não seja vista: toda história quer ser contada.

Perceba que a discussão não é sobre o valor ou a qualidade das produções, e não podemos esperar que dois filmes inseridos no contexto da ditadura sejam retratos perfeitos da realidade brasileira. O que está em jogo é a possibilidade de diferentes pessoas e experiências se tornarem referência, afinal, não é possível que alguém acredite que só os Estados Unidos têm histórias para contar. 

Foto: reprodução/Rolling Stone Brasil
Circularidade do mercado

A nossa torcida por prêmios internacionais também é importante para financiamento e mercado.

Quando um filme é produzido por leis públicas de fomento, sua bilheteria gera renda, empregos e retorno econômico ao país, garantindo que mais projetos recebam incentivos. De forma resumida: cinema nacional gera cinema nacional.

Eu sou fruto das leis de incentivo à cultura”, defendeu Wagner Moura em uma exibição de O Agente Secreto. “Eu existo porque na Bahia dos anos 90 houve leis que possibilitaram que atores do teatro baiano [pudessem] existir como artistas.

Dada essa estrutura, é lógico que, quando nossas histórias são selecionadas por grandes festivais e premiações, críticos, distribuidoras e produtoras dão mais valor e atenção ao que temos a dizer, o que abre novas oportunidades e caminhos de financiamento. Basta lembrar de como filmes já ganharam nossa curiosidade apenas por serem aplaudidos por mais de dez minutos em algum festival, ou olhar para números:

Foto: reprodução/Festival do Rio

No ano passado, Ainda Estou Aqui teve um aumento de quase 90% em bilheteria após a indicação ao Oscar, e estima-se que o sucesso do longa também tenha impactado no aumento de 197% na bilheteria de filmes nacionais em um ano. Dentre os oito indicados a Melhor Filme, O Agente Secreto é o mais visto em cinemas brasileiros, superando a bilheteria de filmes como Pecadores (2025), Marty Supreme (2025) e mesmo  F1 – O Filme (2025).

Seria maravilhoso que os filmes brasileiros sempre estivessem no topo das bilheterias nacionais, mas cenários como esse são incríveis em um país que até poucos anos rejeitava e desconhecia o próprio cinema

Também é importante ressaltar que, quando o audiovisual movimenta a economia, não é apenas a sala de cinema que se beneficia. Ir ao cinema envolve gastos com transporte, estacionamento e alimentação, sem contar que, quando o Brasil chega ao palco do Oscar e do Globo de Ouro, muitos bares, restaurantes e até cinemas organizam eventos de transmissão ao vivo. 

O cinema é de interesse artístico, cultural e político, mas também é de interesse econômico e deve ser assegurado e protegido por órgãos como o Ministério da Cultura. A necessidade de reafirmar isso e de rebater fake news sobre leis de fomento a cada ano é consequência de um discurso “patriota” que nega tudo o que aprofunda o entendimento da nossa realidade.

Foto: reprodução/Lance!

Para essas pessoas, a brasilidade é um bicho papão e sua celebração é um pesadelo. Discursos assim reforçam a necessidade de torcer, de combater a tentativa de desmonte e desmoralização, porque não há nada de hipocrisia ou viralatismo em desejar o sucesso e o reconhecimento das nossas histórias, em querer que elas alcancem cada vez mais pessoas.

Hipocrisia é se dizer patriota e odiar tudo que é produzido aqui. 

No domingo – seja numa mesa de bar, na sala de um amigo ou mesmo sozinhos –, muitos estarão grudados à TV ansiosos pelas cinco categorias com nomes brasileiros entre os indicados. Estaremos prontos para acompanhar as horas sem fim de humor estadunidense para chegar no momento que, talvez, possamos nos reconhecer em um dos maiores palcos de entretenimento no mundo. 

E vamos merecer cada segundo de orgulho.

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Leia também: Opinião | Cinema, viralatismo, Ainda Estou Aqui e representatividade

 

Texto revisado por Sabrina Borges de Moura

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