Professora de literatura e influenciadora literária, Bruna Martiolli fala sobre os bastidores da escrita de seu primeiro livro
“A boa literatura não é feita para nos agradar de imediato, assim como os vínculos verdadeiros não nascem da pressa”, observa a professora de literatura Bruna Martiolli em seu livro de estreia, É Tempo de Morangos, que chegou às livrarias em março pela Intrínseca. Na obra, Martiolli se propõe a realizar um manifesto de amor aos livros e aos autores que tanto admira, mas também constrói pontes entre a literatura e outras formas de arte. Além disso, faz reflexões que unem as narrativas literárias a aspectos inerentes à experiência humana.
Doutoranda em Estudos de Cultura e Interartes pela Universidade do Porto, em Portugal, a autora se dedica a falar sobre a importância da literatura nas redes sociais e em seu podcast – que leva o mesmo nome do livro. Nas páginas que compõem a publicação, a influenciadora ainda se utiliza das memórias pessoais para ilustrar como os livros podem nos acolher nos momentos de dificuldade. Em textos curtos, É Tempo de Morangos revela como a leitura mudou a vida da escritora e como tantas histórias moldaram a sua formação e amadurecimento.
Bruna Martiolli adentrou no universo da literatura aos oito anos. Para ela, os livros eram objeto de afeto, não apenas obrigações escolares. Na adolescência, pendurava em seu quarto as imagens de seus maiores ídolos: Lygia Fagundes Telles e Eça de Queiroz. Quando conheceu Macabéa, protagonista de A Hora da Estrela de Clarice Lispector, passou a temer uma vida em que se sentisse anulada; tal fato seria o farol de muitas das suas escolhas futuras.
De autor em autor, a escritora reflete as formas nas quais aquelas palavras foram abrigo em situações desafiadoras. Ler Saramago, por exemplo, fez com que ela percebesse seu apego a relações destrutivas e, assim, conseguisse se libertar delas. Já Elena Ferrante, na Tetralogia Napolitana, colocou o dedo na ferida após o enfraquecimento de uma grande amizade. “Quero os livros que me desorganizam”, afirma em determinada passagem do livro, em que discorre sobre como as obras menos palatáveis nos ensinam sobre paciência e presença.
Em entrevista ao Entretetizei, Bruna Martiolli comenta sobre o processo de escrita do livro, sua perspectiva sobre a docência no Brasil e como a literatura pode ser uma ferramenta de reflexão e superação. Confira.

Entretetizei: Você já tem uma trajetória acadêmica e de divulgação literária, mas em que momento surgiu essa vontade de publicar um livro? Você pensa em escrever alguma ficção?
Bruna Martiolli: É engraçado, acho que foi um “chá revelação” para mim, também, perceber que eu ia escrever um livro. Nunca foi algo que eu falasse abertamente; eu tinha uma certa resistência. Eu dizia: “Me deixem em paz, eu quero ser professora de literatura”. Achava que, se me tornasse escritora, deixaria de ser professora. Até que a equipe da Intrínseca sugeriu: “Bruna, e se você fizesse um livro sobre livros?” Eu comecei a gostar da ideia e logo nas primeiras páginas me empolguei, vendo que é preciso também que professores escrevam e medeiem a relação entre livros e leitores, ainda mais em um mundo tão midiático. Sobre escrever ficção, tenho até medo de responder e depois “cair na minha testa” de novo. Não sei.
E: E como surgiu a ideia de transformar a sua trajetória como leitora e professora no livro É Tempo de Morangos?
BM: Isso foi algo que todo mundo sabia, menos eu. Minhas amigas, meu pai e meus professores diziam: “Escreva exatamente do jeito que você apresenta os trabalhos, como você fala dos livros na mesa de bar, com as palavras que você usa na vida”. Eu achava estranho, perguntava como eu escreveria que o Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas, me ajudou a enxergar melhor minhas amizades. Ninguém iria entender essa relação. Quando comecei a colocar no papel, percebi que era uma possibilidade. É um livro que foi escrito por todo mundo, menos por mim, porque fui a última a saber.
E: Como os livros te ajudaram a atravessar momentos difíceis e a tomar decisões importantes na sua trajetória pessoal e profissional?
BM: Sempre li literatura pensando em repertório, mesmo antes de conhecer essa palavra. Percebi que a literatura explicava melhor as minhas emoções: quando sentia raiva, lia Dostoiévski e percebia que a raiva é um sentimento genuíno; está tudo bem sentir ódio e amor; as emoções existem. A literatura foi essa emancipação do olhar para o mundo, para o outro e para mim mesma. Foi o processo de uma menina muito sozinha que encontrou recursos na literatura.
E: No momento atual, marcado pela pressa e excesso de informação, o que você acha que a leitura pode oferecer?
BM: Tempo. Acho que mais do que devolver tempo, ela devolve presença. Temos a sensação constante de um tempo corrido: não temos tempo de ficar em casa, de ficar com os amigos ou de estudar. Mas acho que é apenas uma forma errada de viver. “Errada” no sentido genuíno da palavra mesmo [vagar, andar sem destino] do grego. Byung-Chul Han fala sobre isso em seu livro Hiperculturalidade. Estamos em uma sociedade anestesiada o tempo todo, pelo TikTok, pelo Instagram, pelas pessoas. A gente quer aquele frenesi, aquela coisa bovaresca, sabe? A literatura é a ferramenta que nos coloca com o pé no chão e nos devolve a calma para conhecer os personagens e as pessoas. A gente está sem tempo para conhecer as pessoas, né? De olhar no olho, de bater papo.
E: No TikTok, há muita frustração quando as pessoas criam expectativas sobre um livro e ele não agrada de imediato. Na sinopse do seu livro, você menciona que a obra não precisa ser agradável no primeiro momento. O que você pensa sobre essa necessidade da literatura ter que agradar o tempo todo?
BM: Eu tenho uma máxima: prefiro os livros difíceis e as pessoas fáceis. Na vida, lidamos com pessoas leves, tranquilas, engraçadas. Mas a literatura é o choque com o mundo. Precisa ser difícil, densa, não no sentido acadêmico. Mas no sentido de nos desafiar. E a gente pode usar um Pequeno Príncipe para isso. Eu acho que a gente está caminhando para esse mundo de faz de conta mesmo. Como no livro Dom Quixote, em determinado momento o personagem não se lembra mais que é humano. E eu acho que estamos em um mundo quixotesco de novo.
A gente achou que a Madame Bovary acabou lá no século 19 com Flaubert, mas não. Eu acho que nós estamos repetindo as duas coisas: a síndrome do bovarismo e a síndrome de Dom Quixote. Queremos que a vida nos sirva sem nenhum movimento interno para isso. É claro que quem não tem nenhuma criticidade – não estou falando no sentido acadêmico, mas no sentido de perspectiva de vida –, vai olhar para um livro nas primeiras 20 páginas e achá-lo chato. A gente acaba tendo uma vida sem parâmetro nenhum. Então nada nos interessa porque nós não estamos interessados. E, mais uma vez, o problema é do homem, não é da literatura. Os livros vão continuar, imutáveis.
E: A sua experiência como professora influencia a maneira como você conversa com seu público nas redes sociais e no podcast?
BM: Com certeza. Eu não seria nada sem meus alunos; eles formaram a Bruna antes de formarem a professora. Trabalhei em colégios onde os alunos chegavam com fome e percebi que a vida era mais difícil do que eu imaginava. Como você ensina uma pessoa que está com fome a ler e escrever? Eles me ensinaram a ser professora. Você precisa construir o mundo antes de apresentar a literatura. Tudo foi um caminho para aprender a falar com as pessoas, aprender o que elas precisam. Porque o professor precisa primeiro entender o que o aluno precisa e depois se preocupar com o currículo.
Eu sei que é uma carga muito mais emocional do que a profissão exige, mas eu acho que ser professora é estender um pouco a mão, não em um ato heroico, mas em um ato de empatia. Eu acho muito difícil a docência sem empatia.
E: O que você espera que o leitor descubra ou sinta ao acompanhar sua jornada em É Tempo de Morangos?
BM: Espero que as pessoas parem de achar que a literatura não serve para nada. No Brasil, a arte salva muita gente! Desejo que os leitores saiam do livro acreditando que a literatura serve a nós.
E: Se você pudesse conversar com algum dos autores citados no livro, qual seria e por quê?
BM: Clarice [Lispector]. Acho que a gente tem muita coisa pra falar sobre felicidade. Queria saber como ela conseguia ser ela. Por exemplo, naquela entrevista famosa que tem no YouTube, as pessoas costumam dizer que ela estava depressiva. Eu acho que ela estava apenas em um dia ruim, mas, diferente de nós, não se achou na vontade de parecer ser algo que ela não era naquele momento. Gostaria muito de entender como uma pessoa consegue ser tão emancipada, porque muitas vezes eu estou chateada, mas dou um sorriso e, enfim, finjo. Como uma pessoa pode ser tão verdadeira ao ponto de não fingir?
E: Como você acha que a biografia de um autor influencia o jeito que olhamos para sua obra?
BM: Para mim é um laboratório. O Eça de Queiroz, por exemplo, nunca foi criado pelos pais. A mãe o teve em Póvoa de Varzim antes do casamento, mas ela chegou a se casar com o pai do autor, quatro anos depois. Esse menino a vida toda foi criado pelos empregados, depois foi para o Porto estudar em um colégio interno, depois foi para Coimbra, virou diplomata, enfim. Nunca viveu no seio familiar com os outros irmãos.
E eu não sabia disso, mesmo tendo lido o conjunto de obras publicadas por Eça de Queiroz. Quando eu descobri, a minha cabeça explodiu. Não é muito curioso que o maior escritor do realismo português critique justamente as aparências familiares? Apesar de que ele nunca mencione os pais ou os irmãos. Mas é óbvio que eu vou mudar a minha visão sabendo disso. Agora, é importante para quem quer estudar e compreender a totalidade da obra literária, saber separar as duas coisas.
E: Guimarães Rosa escreveu que “o que a vida quer da gente é coragem” e Clarice afirmou “sou mais forte do que eu“. Essas duas ideias se relacionam com a sua trajetória como leitora e com as escolhas que você narra em É Tempo de Morangos?
BM: Com certeza, até porque eu sou filha de Clarice Lispector com João Guimarães Rosa. Gosto dessas afirmações. Eu acho que a gente pode misturá-las, porque o que a vida quer da gente é coragem, e ser corajoso é ser mais forte do que eu. A gente precisa desse ato de encorajar mesmo, né?
E: No Brasil, ainda há um número baixo de leitores. Além disso, muitas pessoas se sentem intimidadas por clássicos como Machado de Assis. Como incentivar o hábito da leitura nesse contexto?
BM: É uma questão de experiência. É como quando a gente é criança e acha a água da praia muito gelada, até que um dia entramos e percebemos que está mais quente. Literatura. Não tem um jeito de mediar isso pras pessoas, de tirar o medo delas. O medo é uma coisa que é feita para ser combatida. A gente precisa deixar com que as pessoas se interessem genuinamente. E aí não é só pelo livro, não é só pelo clássico, é pela vida. Eu acho que a leitura sempre foi, sempre vai ser um reflexo da sociedade.
Se hoje as pessoas estão lendo mais, se hoje as pessoas estão lendo menos, é porque hoje estão pensando mais e se interessando mais pela vida ou porque estão se interessando menos pela vida. A literatura é matéria de vida. Então, quando as pessoas dizem que se lê pouco, será que o problema está em ler pouco? Ou será que o problema não é anterior? É no sujeito que está cada vez menos interior, que está cada vez mais narcisista, que está cada vez mais desinteressado, cada vez menos empático. Já está virando rotina para mim falar da Marisa Lajolo, que afirma: “a literatura vai bem, obrigada”.
E: Para encerrar, o que você pensa sobre a leitura dinâmica, que se tornou um debate frequente nas redes sociais?
BM: Leitura dinâmica não é leitura. Maryanne Wolf tem um livro chamado O Cérebro no Mundo Digital. Nesse livro, ela exemplifica como a leitura percorre dos nossos olhos até nosso sistema neuronal para obter significados e significantes. Ela fala que o mesmo córtex que usamos para a leitura é o que usamos para afetividade, curiosamente. Agora, a leitura dinâmica é uma leitura paulatina, você vai pulando as palavras, as sentenças, e vai, ao acaso, escolhendo aquilo que se lê. Você pára de ler aquilo que o ator queria te dizer e começa a ler aquilo que te interessa. É um direito das pessoas fazer a leitura dinâmica delas, mas eu acho que a gente está perdendo muita coisa nessa pressa toda.
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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura









