A autora bateu um papo com a gente e contou sobre como transformou a própria vivência em uma aventura cheia de magia, lendas ancestrais e, claro, a melhor comida do mundo!
Se você acha que a cultura japonesa e a Amazônia não têm nada a ver uma com a outra, prepare-se para mudar de ideia! Em Flauta de Bambu, a escritora Giu Yukari Murakami nos apresenta Aiko, uma adolescente nipo-brasileira que vive no Pará e precisa lidar com os dilemas clássicos da idade – tipo bullying e problemas em casa –, enquanto embarca em uma jornada mágica ligada ao passado de sua avó.
Nesta entrevista exclusiva, Giu abre o coração sobre como a sua própria identidade nipo-amazônica inspirou a criação desse universo incrível. Ela fala sobre a lenda do Akai Ito (o famoso fio vermelho do destino, mas com um twist!), a importância das avós como guardiãs de memórias e até dá uns spoilers dos seus próximos projetos, que incluem de tudo: desde criaturas folclóricas até uma vibe Sakura Card Captors em Belém. Vem conferir esse papo que é pura “pororoca” cultural:

Entretetizei: Giu, seu livro mistura elementos da Amazônia e da cultura japonesa. Em que momento você percebeu que essas duas partes da sua identidade podiam se encontrar na sua escrita?
Giu Yukari Murakami: Esse momento aconteceu de forma muito natural durante o próprio processo de escrita. Eu sempre tive um fascínio pela cultura japonesa porque em muitos aspectos ela fazia parte da minha rotina em casa: desde palavras usadas no dia a dia, festivais de que participava com minha família e, especialmente, a comida. Mas, ao mesmo tempo, sentia que faltava algo, que era justamente a minha cultura paraense, a minha vivência na Amazônia, que também era um tema que sentia falta de ver em histórias de aventura.
Por muito tempo, pensei que existia uma divisão entre essas bagagens culturais. Não via como podia ser alguém amazônida paraense e alguém nipo-descendente ao mesmo tempo. Mas percebi que não existe separação quando existe intersecção. Quando comecei a escrever Flauta de Bambu e criei a personagem Aiko, tudo fez sentido. Vi que escrever personagens nipo-brasileiros com uma vivência nortista casava perfeitamente comigo, porque eu estava incluída no grupo desses personagens. A própria estética do livro traz muito essa ideia do encontro das águas do rio amazônico, onde Aiko vive, com o mar, por onde vieram os seus avós. É uma metáfora para identidades que não se anulam, mas coexistem e criam algo novo a partir dessa intersecção.
A partir dessa sensação de encontrar meu lugar, o que transferi para Aiko em determinado momento da narrativa, eu notei que podia ser não só nipo-brasileira ou paraense, mas podia carregar uma bagagem cultural nipo-amazônica, que é muito singular. Ser nipo-amazônica é viver em um estado constante de “pororoca” cultural. Muitas vezes, a identidade nipo-brasileira é retratada sob uma ótica muito ligada ao Sudeste, mas a vivência no Norte tem uma identidade própria e também um rico contexto histórico, já que existiu uma forte influência da imigração. Por exemplo, algo que também retrato no livro: Tomé-Açu, uma cidade no interior do Pará, já foi a segunda maior colônia de japoneses no Brasil! A influência nikkei na cidade foi tão grande que ajudou a alavancar a economia local.
E: A Aiko é uma adolescente nipo-brasileira que enfrenta bullying e conflitos familiares. Como foi construir essa personagem? Tem algo de pessoal aí?
GYM: Sendo sincera, apesar de Aiko ter uma personalidade diferente da minha, eu me coloquei um pouco nela, sim. Eu gostaria de ser tão destemida e, por vezes, teimosa e impetuosa como ela. A impetuosidade e a teimosia nessa fase são comuns, e nem sempre é desrespeito. É um reflexo de como a criança e o adolescente estão desenvolvendo suas individualidades. Bem, Aiko é assim. Eu já era mais contida, então, vivências pessoais envolvendo bullying, racismo e conflitos familiares eram enfrentados de forma diferente por mim.
O bullying tem muita relação sobre como ela e o melhor amigo, Nilo, não se encaixam nos padrões de certos grupos de amizade. Eles não seguem uma moda específica, nem gostam necessariamente de esportes convencionais na escola. Aiko ama beisebol, o que era muito comum em nikkeis nortistas, enquanto Nilo é apaixonado por estudar cultura, religiões e curiosidades históricas. Mas o bacana disso é que apesar de não seguirem essas tendências, eles têm um ao outro.
Na superfície, é isso: uma sensação de desencaixe em grupos sociais. Mas no fundo, também tem relação com o sentimento de Aiko de estar “entre mundos, entre-lugar”. O bullying e as brigas constantes dos pais são peças que só tornam ainda mais difícil para ela encontrar o melhor encaixe do quebra-cabeça que é a própria noção de pertencimento.
Ao escrever a Aiko, mergulhei nas minhas próprias memórias de crescer em Belém com o que considero a melhor comida do mundo!; de ter sido uma criança e adolescente um pouco deslocada, navegando pelas expectativas de ser nipo-brasileira e pela realidade de ser alguém no Norte do país. Cresci ouvindo que as pessoas de fora da nossa região não sabiam que andávamos vestidos, tínhamos celular e que não éramos devorados por jacarés aleatórios, por exemplo. Cresci com a ideia de que ninguém nos respeitava, que não tínhamos o direito de sonhar. Em paralelo, também já ouvi na infância piadas sobre “Xing-Ling”, sobre todo avião ser para me buscar e levar minha família para longe.
É curioso e gratificante pensar que hoje em dia estou tendo a oportunidade de falar abertamente sobre isso em uma entrevista e que existem pessoas sempre sensíveis e gentis que perguntam sobre essas peculiaridades. Não vejo nada invasivo nisso, pelo contrário. É o que entendo ser empatia mesmo.
Construir Aiko e escrevê-la foi como abraçar meu eu-chibi (pequena). Eu e Aiko encontramos e reencontramos juntas o significado de estar em um entre-lugar e, finalmente, se orgulhar muito disso!
E: A batchan Masumi tem um papel muito forte na história, especialmente como guardiã de memórias. Como você vê o papel das avós na construção da identidade dentro das famílias nipo-brasileiras?
GYM: Essa é uma das perguntas mais lindas que já recebi! Em quase todas as minhas histórias, vovôs e vovós têm um papel extremamente importante para a vida dos protagonistas. Eu tento colocá-los como pontes vivas entre mundos, entre tempos diferentes que, se não fosse por eles, seriam esquecidos. Noto que é uma tendência, inclusive, narrativa, colocar as batchans e jichans em papéis de exímios contadores de história ou de resgate ancestral. Noto muito mais no audiovisual, e não é coincidência.
Isso porque a geração dos pais (nisseis) muitas vezes está focada na adaptação e na sobrevivência prática em uma sociedade que tenta entender sua dualidade nikkei. Nesse compasso entre os pais e filhos (ou filhos e netos), existe um afastamento da cultura ancestral. Já os avós ocupam esse lugar da memória afetiva. A Masumi-san, em Flauta de Bambu, reflete muito isso: ela é quem detém o conhecimento que a Aiko ainda não sabe que precisa. Ela não entrega apenas uma missão ou um objeto mágico, ela entrega uma herança.
E: O conceito de Akai Ito, o fio vermelho do destino, aparece na narrativa. O que te fez trazer esse símbolo pra história?
GYM: Akai Ito sempre me fascinou. Escuto sobre essa lenda desde criança. Em Flauta de Bambu, porém, eu tento dar um significado diferente para o tradicional sentido romântico que é sempre divulgado em animes e k-dramas, j-dramas ou c-dramas. Eu trouxe esse símbolo para representar a persistência da memória e do afeto, apesar das rupturas causadas pelo tempo e pela distância.
Em Flauta de Bambu, o fio vermelho é o que conecta a batchan Masumi à sua amiga Kimiko, perdida durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Usei esse elemento para mostrar que, embora o oceano e as décadas pareçam separar as pessoas, existe uma ligação invisível que resiste e que se entrelaça com a história da própria Aiko, por isso ela tem vários sonhos com emaranhados de fios e com as próprias batchan e Kimiko.

E: A pororoca entra como uma inspiração importante no livro. Como esse fenômeno ajudou a construir o clima e o simbolismo da narrativa?
GYM: A pororoca realmente é um símbolo importantíssimo, não só o componente estético. Do tupi pororoka, o fenômeno remete ao estrondo entre as águas do rio e do mar, e, no livro, serve de metáfora perfeita para a experiência nikkei na Amazônia: o encontro do rio doce, que é a nossa vivência local, com a água salgada do oceano, que representa a nossa ancestralidade que veio por navios.
No livro, a pororoca mostra que esse encontro de identidades pode ser barulhento, impactante, mas sempre transformador. As águas não se anulam, mas passam a coexistir em um novo estado de movimento ou “pertencimento”.
SPOILER: Para a Aiko, a pororoca é o próprio caminho. Através da música da flauta de bambu, ela usa da pororoca como uma abertura de portais entre os dois mundos. A pororoca ajudou a construir um ambiente onde a natureza é viva e mágica.
E: A flauta de bambu é um elemento bem marcante na história. De onde veio a ideia desse objeto e o que ele representa pra você?
GYM: Confesso que não pensei muito racionalmente sobre a escolha. Eu queria que fosse um instrumento musical para ligar a batchan e sua melhor amiga de uma forma que ambas sentissem a presença da outra de maneira invisível. A flauta de bambu parecia o encaixe perfeito por ser um instrumento discreto, mas que tem notas muito doces. Poderia ser, de fato, uma flauta doce de plástico, mas o bambu me parecia ser o material que ligava as duas personagens ao Japão, terra natal delas, além de que Kimiko quem confeccionou as flautinhas. Não seria possível se fosse um instrumento de plástico ou metal.
Depois da escolha, passei a ouvir mais músicas com o instrumento e me apaixonei por Touching Heart do músico Eric Chiryoku. Foi a música que mais me inspirou em Flauta de Bambu, tanto que está na playlist que fiz do livro.
E: O livro trata de temas bem atuais, como bullying e conflitos familiares. Como foi equilibrar isso com os elementos mais simbólicos e históricos da história?
GYM: Equilibrar os temas mais sensíveis com os tropos de aventura nunca é fácil, especialmente quando escrevemos para o público infantojuvenil. Penso que os temas acabam sendo explorados com diferentes níveis de profundidade conforme a necessidade da cena.
Mas apesar de Flauta de Bambu explorar um pouco da rotina de Aiko e Nilo nessas questões mais sensíveis, ao mesmo tempo, não quis que a história deles fosse sobre isso. É uma aventura, que tem como propósito divertir. O ensinamento vem nas entrelinhas e espero que fique no subconsciente. É mostrar para Aiko que ela não é insuficiente e nem menos que ninguém e, ao mesmo tempo, mostrar que ela é capaz de enfrentar um dragão feroz no meio de sua missão para encontrar a melhor amiga de sua avó.
E: A narrativa também toca em acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, na história da Masumi e da Kimiko. Como foi construir essa parte mais histórica?
GYM: Foquei mais no tema da diáspora, do deslocamento e do trauma. Não quis focar na dor coletiva que é sempre frequente quando falamos de guerra, afinal, famílias e cidades inteiras são devastadas. Mas para dar a base emocional para a história, precisei realmente focar na dor individual da batchan Masumi e de Kimiko e, apesar desse trauma, também quis mostrar que há esperanças de que nossas conexões nunca se percam em momentos como esse, seja conexões entre pessoas ou entre a gente e nosso furusato, nossa terra natal.
E: Seus textos já foram publicados em inglês e japonês. Você sente que sua escrita muda dependendo do idioma ou do público?
GYM: Eu escrevo primeiramente em português e depois traduzo para o inglês. Não consigo deixar minha tendência a usar “égua”, “te arreda” e outras expressões paraenses. Também tenho dificuldade de traduzir alguns termos de koronia-go (língua da colônia), que é como se chama a adaptação da linguagem dos nikkeis.
A escrita em inglês direta poderia me fazer perder essa identidade que tanto preservo. Eu prefiro, nesse caso, ser traduzida, que foi o que ocorreu na maioria dos casos. Em alguns casos, eu mesma me traduzi e pedi revisão. Em outros, como no caso da revista japonesa Rikka Zine, escrevi em português, traduzi para o inglês e posteriormente os próprios editores traduziram para o japonês.
E: Esse livro traz muito da sua vivência amazônida e nipo-brasileira. O que você ainda tem vontade de explorar nas próximas histórias?
GYM: Eu tenho muitos projetos! (risos). A maioria se passa no Pará ou na Amazônia, trazendo referências nipo-brasileiras. Alguns dos meus projetos incluem ainda a mistura de encantarias e criaturas autorais amazônicas e a mitologia japonesa. Alguns incluem a mistura de encantarias e criaturas autorais amazônicas com a mitologia japonesa, geralmente no gênero de fantasia. Outros, de ficção científica, exploram o racismo amarelo e o pertencimento.
Não escrevo apenas sobre essas temáticas, mas são de fato a maioria dos meus projetos.
Para adiantar uns spoilers, tenho um middle-grade estilo Sakura Card Captors que se junta a Guerreiras do K-pop em Belém por causa de um tropeço. Esse projeto já está em fase final de escrita. Meu outro projeto pronto inclui uma adolescente mais velha, ansiosa pelo vestibular e que tem poderes extraordinários como boa parte de descendentes de imigrantes no Pará: ela sente demais o que os outros sentem e acaba sendo inclinada a fazer o que desejam. São projetos de públicos distintos, mas gosto de transitar entre eles.
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Texto revisado por Gabriela Fachin @gabrieladfachin










