Escritor ainda comentou sobre o papel da ancestralidade e da representatividade amarela em seus livros
André Kondo é escritor, mas também é viajante. Após ter peregrinado por mais de 60 países, chegou à conclusão de que a leitura influenciou, um tanto, a maneira que enxergava os locais que visitava. Conhecer variados destinos também foi uma forma de inspiração para ele, que já escreveu 19 livros – entre poesias, contos e obras infantojuvenis.
“E aí vem a importância do olhar do escritor, que é um olhar de cronista: olhar para as coisas comuns do nosso cotidiano, coisas que parecem banais e que não nos trazem nada. Se você parar pra realmente olhar para essas pequenas coisas, com o olhar renovado, vai encontrar poesia em cada coisa no seu caminho – mesmo que seja da sua casa até a escola, até o trabalho e vice-versa”, explica André.
Em 2025, o autor de ascendência japonesa recebeu o seu primeiro Jabuti, na categoria Juvenil, com o livro O Silêncio de Kazuki. Aqui, Kondo constrói uma narrativa baseada na própria história da sua família, tecendo uma reflexão acerca dos silêncios entre um pai e filho. O pai, sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, muda-se para o Brasil, onde nasce seu filho. Este, procura pela identidade do pai por meio de pedaços da memória e do passado paterno. Além disso, o octogenário e cansado pai precisa lutar contra um câncer, enquanto busca pela reconciliação com o filho.
André Kondo é editor da Telucazu Edições e autor de títulos como Contos do Sol Nascente (2011), Origens (2019), O Pequeno Samurai (2021) e Turma da Mônica – Lendas Japonesas. Em entrevista ao Entretetizei, ele discorre sobre a sua trajetória como escritor, como suas viagens influenciaram no processo de escrita e a literatura como veículo de cura. Confira!
Entretetizei: Você sempre quis ser escritor? Como você começou a escrever?
André Kondo: Eu sempre quis ser escritor, porque desde criança me encantei com os livros. O primeiro livro de que me lembro foi o do Monteiro Lobato, Os 12 Trabalhos de Hércules, um livro sem capa. Tenho essa memória de folhear as páginas e tentar entender, embora eu ainda não soubesse ler. A partir daquele momento, procurei outros livros e também lia muito os gibis da Turma da Mônica. Esse universo da leitura começou a me encantar. Como eu era uma criança muito tímida, muito reclusa, encontrei nos livros um lugar seguro, um lugar bom pra se viver. E aí quis me tornar escritor justamente por isso: escrever livros para que outras crianças pudessem encontrar uma casa para elas também.

E: O Silêncio de Kazuki foi escrito a partir da sua própria relação com seu pai. Como foi essa construção?
AK: Isso, são memórias. Apesar de ser uma obra de literatura juvenil, foi composta em formato de crônicas. Uma coisa que eu acho interessante na minha escrita é algo que um editor descobriu. Na época, eu tinha escrito um livro de contos que não necessariamente era pra esse público infantojuvenil. Ao se deparar com os textos, ele falou: “você escreve de uma forma direta, simples, poética, que pode ser entendida por todas as idades. Então por que a gente não classifica essa tua obra como juvenil e tenta vender nas escolas? Acho que poderia dar certo.”
E deu tanto certo que saiu Contos do Sol Nascente, que até foi adotado por esse programa de livros nas escolas. A partir de então, percebi que uma característica minha é escrever textos que possam ser lidos por praticamente todas as idades.
Quando encontro crianças e adolescentes e eles comentam comigo algumas coisas sobre as minhas obras, percebo o quanto são profundos, o quanto compreendem – e, na verdade, até ultrapassam o significado do livro. Eles encontram outros significados. E é tão bonito isso.
E: Você mencionou o seu trabalho com crianças e jovens. Na sua opinião, qual o papel da literatura infanto juvenil para fomentar mais leitores?
AK: Essencial. Porque eu, por exemplo, comecei a ter contato com os livros muito cedo. Meu pai até incentivou, depois que percebeu esse gosto que eu tinha pela leitura, e adquiriu alguns livros para mim. Acho que isso é muito importante pros pais, porque a criança aprende pelo exemplo. Se uma criança vê o pai lendo um livro, ela vai se interessar também. Cria essa curiosidade e vai tomando gosto por isso.
Pra mim, na escola também é importante esse incentivo à leitura. Na época em que comecei a ler os livros da coleção Vaga-Lume, da editora Ática, tantos títulos me fizeram ter vontade de ler a série toda. Acredito que os livros não são importantes apenas para interpretação de texto ou fins de estudo. Ler um livro é ampliar os horizontes, criar um mundo muito mais amplo.
Quando viajei pelo mundo, tenho certeza de que, se eu não tivesse lido tantos livros, muito do que vi não teria sido tão aproveitado. Eu me encantei muito pela Grécia por conta dos 12 Trabalhos de Hércules; sempre me interessou a mitologia grega. Então, quando chego à Grécia, visitando templos e todo aquele ambiente histórico, a emoção é amplificada.
Havia uma praça em Atenas, a antiga praça do mercado ateniense, hoje completamente em ruínas, só pedras e escombros. Fiquei maravilhado, com a certeza de que estava no lugar em que nasceu a civilização ocidental como a conhecemos – obviamente um pouco eurocêntrica. Fiquei horas ali, observando.
Aí chega um turista e me pergunta se eu sabia onde ficava o antigo mercado ateniense. Eu digo: “a gente já está aqui no mercado”. E ele olha, decepcionado, e fala: “poxa, mas esse monte de pedras?” e vai embora, sem se deter nenhum segundo.
Isso me fez refletir muito sobre a importância do livro. Eles dão um conhecimento muito amplo, pra que você possa enxergar em um lugar como aquele algo além das pedras. Porque uma pessoa que não tem o hábito da leitura, que não tem esse conhecimento, acaba vendo apenas pedras no caminho, quando o significado real pode ser muito mais importante.
E: Você mencionou que viajou o mundo. Essa experiência alterou de alguma forma o seu olhar literário? Como?
AK: Com certeza. Há vários tipos de viagem: de turismo, de lazer e viagens mais profundas, religiosas. Quando a gente faz uma viagem com intuito turístico apenas e vai visitar, por exemplo, monumentos como a Torre Eiffel ou as Pirâmides do Egito só pra tirar uma selfie e ir embora, é um turismo que não me interessa muito. O que me interessa é saber o significado daquelas pedras, a biografia do construtor da torre, por exemplo, o entorno, as pessoas, como vivem, como se sentem naquele lugar. Enfim, procurei fazer viagens de uma forma muito mais profunda.
Uma coisa importante que percebi é que não adianta você conhecer novos lugares se mantiver o olhar antigo, o olhar das coisas que você já conhece – sobretudo quando vai a um lugar e talvez não aprecie a culinária local, ou o clima não te agrade, tantas coisas que podem tirar o verdadeiro objetivo da viagem, que é justamente renovar o seu olhar sobre as coisas.
Me interessa muito também a biografia dos grandes autores. Me inspiro nessas biografias pra ver o que aquelas pessoas viveram pra ter tanta inspiração pra escrever livros fantásticos. Me deparei com a biografia do Wallace Stevens, que era um poeta fantástico, e uma coisa que me chamou atenção foi o fato de ele ter uma biografia desinteressante do ponto de vista da aventura, da inspiração. Ele era vice-presidente de uma companhia de seguros e viveu praticamente toda a vida em Hartford. Ele saía da casa dele até a companhia de seguros, e essa era a vida dele. A princípio, achei a vida até um pouco chata.
Mas eu fui pra Hartford fazer esse caminho que ele percorria diariamente, da casa dele até a companhia de seguros. E fiquei encantado. Era época do outono, aquela mudança das folhas, das cores, o ambiente. Aquilo também me ensinou a escrever alguns poemas.
E aí vem a importância do olhar do escritor, que é um olhar de cronista: olhar para as coisas comuns do nosso cotidiano, coisas que parecem banais e que não nos trazem nada. Se você parar pra realmente olhar para essas pequenas coisas, com o olhar renovado, vai encontrar poesia em cada coisa no seu caminho – mesmo que seja da sua casa até a escola, até o trabalho e vice-versa.
E: Você acha que há uma resistência maior das pessoas em consumir poesia?
AK: É verdade. Mas o interessante é que, se a gente dá uma olhada no catálogo das editoras, há uma grande quantidade de poetas. Uma coisa que percebo muito é que as pessoas gostam de escrever poesia, mas não gostam de ler poesia dos outros. Então, comercialmente, se torna um pouco inviável para as grandes editoras.
Mas a poesia, pra mim, é um dos gêneros mais antigos e primordiais da literatura. O problema é que a gente tem muito esse aspecto utilitário das coisas. Então, quando a gente olha pra um poema: “pra que serve um poema?” A utilidade do poema é justamente não ter utilidade. Ele não precisa ter uma utilidade; ele já se sustenta por si só.
Houve uma época em que eu estava tentando me tornar escritor, e é uma tarefa muito difícil. Eu morava de favor numa parte desativada de um asilo e tentava ser escritor. Eu sempre gostei muito de viajar e escrever, mas não tinha dinheiro pra viajar. Então eu participava muito de concursos literários: recomendo muito isso pra quem quer começar a vida na literatura.
E um desses concursos tinha um prêmio: uma passagem de ida e volta para os Estados Unidos, para conhecer a Biblioteca do Congresso, a maior biblioteca do mundo. Era a minha chance. O prazo era de apenas 24 horas, porque eu tinha visto tardiamente o edital. Comecei a pensar em escrever poemas sobre o mundo, sobre as minhas viagens, mas não tinha muito tempo. Então passei a escrever poemas muito simples, olhando pras coisas do próprio quintal do asilo – coisas, objetos, insetos, qualquer coisa que estivesse ali ao alcance do meu olhar. E escrevi 100 pequenos poemas.
O livro venceu esse prêmio e eu fui aos Estados Unidos. Chegando lá, eu tinha pouco dinheiro, que também tinha ganhado em outro prêmio literário. Viajei por mais de 10 mil quilômetros nos Estados Unidos, costa a costa, visitando o túmulo de várias personalidades literárias, enfim. E, do dia a dia, acabo voltando com outro livro, que se chama Peregrinação das Folhas Caídas, um livro que fala sobre essa viagem pelos Estados Unidos.
Quando a gente fala em poesia, não vemos um aspecto prático. Mas, quando eu sinto esses dois livros, veja bem: é um livro que mostra uma viagem que foi feita paga totalmente com poesia, nenhum centavo de outra fonte. E esse livro recebeu uma bolsa no PROAC para ser escrito, então durante um ano eu recebi um salário, digamos assim, pra escrever essa obra – recebi, por um ano, o salário do poeta.
Eu falo isso porque muitas pessoas olham pras coisas e pensam apenas na utilidade delas: “se eu escrever um poema, o que isso vai me trazer? Vai me trazer dinheiro?” Mas não é assim que funciona a literatura, muito menos a poesia. A poesia simplesmente existe por si só. Ela existe dentro da gente, existe dentro de todas as pessoas — só que a maioria mantém essa poesia presa. Então ela fica ali, quieta, por toda a vida.

E: Como a literatura pode ser uma forma da gente superar traumas e dificuldades?
AK: Muitos livros me ajudaram em vários momentos da minha vida. Por exemplo, um livro que eu amo, que é Musashi, de Eiji Yoshikawa. É um livro que me ensinou muito em um momento que eu estava me questionando sobre as minhas escolhas. Nós temos dois personagens que estão derrotados depois da Batalha de Sekigahara, dois amigos, na mesma situação. A partir de então, eles vão divergir em algumas coisas e vão se separar. Um deles permanece naquela postura de culpar sempre as outras coisas e circunstâncias, a vida, enfim, todas as outras pessoas são culpadas pelos importunos desse personagem. E o outro não. O outro vai aprendendo de diversas formas, aceitando as coisas como elas chegam a ele.
Aquilo me mostrou claramente como nós encaramos a nossa própria vida, a nossa própria jornada. Se eu parar e ficar reclamando apenas e acusando as outras pessoas da minha própria infelicidade, eu vou ficar estagnado, parado. Se, por outro lado, eu ver o lado positivo das coisas, lutar por aquilo em que acredito, mantiver a minha determinação, talvez eu possa alcançar aquilo que sonhei. E o exemplo disso é o Jabuti que chegou esse ano.
E uma coisa que eu tenho que deixar muito clara é que eu não conquistei isso sozinho. Assim como o personagem, é uma série de pessoas que chegam na vida dele e o ajudam, auxiliam, ensinam, engrandecem. Quando você recebe essas pessoas, quando valoriza essas pessoas, você consegue seu objetivo. E o contrário também ocorre: quando você culpa apenas as outras pessoas, quando acusa, quando reclama, quando coloca todas as suas frustrações em quem está ali pra te ajudar, você acaba não chegando a lugar algum.
E: Receber o prêmio Jabuti é um grande reconhecimento para um escritor. Como foi para você quando recebeu a notícia?
AK: Olha, a primeira vez que fui finalista do Prêmio Jabuti foi com o livro O Pequeno Samurai. Na época, o livro estava concorrendo com o Ziraldo, Stella Maris Rezende, Lúcia Hiratsuka, Luiz Ruffato – que foi o vencedor. Eu não fui à cerimônia porque olhei a lista e falei: “não é possível ganhar” (risos). Dez anos se passaram até a segunda indicação e, dessa vez, eu ainda não acreditava. Esse livro foi publicado por uma editora independente, pequena, mas com grandes autores. Eu sempre esperei que o meu primeiro Jabuti viesse como editor, porque eu tenho autoras e autores fantásticos. Só que quis o destino que viesse comigo como autor.
Eu vejo isso como resultado não apenas do meu trabalho, mas do trabalho de todas as pessoas que me ajudaram para que esse livro nascesse. Uma coisa curiosa é que, com esse livro, eu recebi muitos feedbacks positivos de pessoas que admiro muito, e aquilo foi me preparando um pouco para acreditar mais. Mas, de toda forma, quando eu via aquelas pessoas que admiro como autoras, eu sabia que o prêmio ficaria bem nas mãos de qualquer finalista. Eu torcia muito, claro, mas não posso dizer que cheguei lá com a certeza de que receberia o prêmio. Foi uma surpresa pra mim.
E: E para você como é a questão de ancestralidade e de identidade cultural nos seus livros?
AK: É muito forte. O ilustrador dessa obra, Alessandro Fonseca, é meu primeiro amigo. E ele sempre quis ser japonês, gostava dos seriados japoneses, aprendeu a falar japonês, o sonho dele era ir pro Japão. Eu, por outro lado, queria ser brasileiro. Óbvio que eu sou brasileiro, mas, na aparência, as pessoas olham pra mim e pensam que eu sou japonês. A gente até começou a brincar que podíamos trocar.
Quando era criança eu não tinha nome. Me chamavam de japonês, japa, japinha, qualquer coisa, mas ninguém me chamava de André. Então era uma falta de identidade, na verdade, você ser nipo-brasileiro. Era por isso que eu queria ter um nome, eu queria ter alguém, eu queria ser brasileiro como os outros amigos meus.
Isso só muda quando eu vou ao Japão pela primeira vez. Começo a me reconectar com as raízes, subo até o topo do Monte Fuji e vivo o Japão durante um tempo. É como se eu estivesse tendo saudades de um lugar em que eu nunca tinha estado antes. Começo a escrever isso nos meus livros, e muitas histórias minhas exploram essa ponte Brasil e Japão, falam da cultura japonesa.
É engraçado pensar no quanto eu não queria ser japonês quando criança, e o quanto isso me orgulha hoje. Eu gosto de ser essa ponte entre esses dois mundos. Gosto muito de ser brasileiro, mas gosto também de ter essa ancestralidade nipônica dentro de mim. Talvez eu não seja nem um, nem outro, mas uma mistura dos dois.
E: Na sua opinião, qual a importância da representatividade na literatura para crianças?
AK: Tem uma brincadeira no meu livro O Pequeno Samurai: o protagonista conhece pessoas de todas as partes do mundo, e percebe que as pessoas são diferentes por fora, mas todas possuem um sorriso igual. Participei de um livro chamado Origens, em que a gente fala sobre as nossas origens – da África, da Europa, da Ásia, no meu caso. É tão bonito como tudo isso conflui para o mesmo ponto, dessa nossa ancestralidade. As histórias podem parecer diferentes, mas, no fundo, contêm a mesma emoção da busca pelas nossas raízes. E, se a gente for cavar bem, somos todos conectados.
E: O que mais te motiva como escritor?
AK: A vida. Porque parece que eu não consigo mais dissociar a minha existência da literatura. Por exemplo, a minha amada Lili é escritora, uma escritora excelente, que emociona muito, uma poeta incrível. Inclusive, nesse final de semana ela recebeu dois prêmios. Não digo que as premiações são as coisas mais importantes para um escritor, mas o que é legal é alguém olhar para o seu trabalho, gostar e premiá-lo. O bonito é o olhar carinhoso que tiveram sobre a sua obra. Meus melhores amigos estão nesse universo da literatura, são pessoas que me apoiam. Eu não consigo mais pensar na minha vida sem a literatura.
E você, já conhecia os livros de André Kondo? Conta para a gente em nossas redes sociais — Instagram, Facebook e X. E, se você gosta de trocar experiências literárias, venha participar do Clube de Leitura do Entretê, para conversar sobre leituras incríveis!
Leia também:
Texto revisado por Larissa Couto @larscouto









