Do humor das novelas infantis aos conflitos intensos do teatro contemporâneo, o artista fala sobre amadurecimento profissional e o desejo antigo de levar Oleanna aos palcos
Ao longo da carreira, Velson D’Souza construiu uma trajetória marcada pela versatilidade e pela capacidade de transitar entre diferentes linguagens sem perder a essência do trabalho artístico: a busca pela verdade em cena. Em entrevista ao Entretetizei, o ator relembra personagens que marcaram sua vida pessoal e profissional, como o apresentador Silvio Santos (1930 – 2024), papel que considera um divisor de águas pela responsabilidade de interpretar uma figura tão conhecida do imaginário popular. Outro destaque é Tommy DeVito, do musical Jersey Boys, trabalho que exigiu preparo físico, vocal e emocional intenso ao longo de uma montagem desafiadora.
Agora, Velson vive um dos momentos mais complexos da carreira ao interpretar John, protagonista da peça Oleanna. Segundo o ator, o personagem o obriga a lidar constantemente com ambiguidades e contradições, sem respostas fáceis ou zonas de conforto. O texto, que conheceu há mais de dez anos, permaneceu amadurecendo até que chegasse o momento certo de tirá-lo do papel. Mais do que um desafio de atuação, a montagem representa também um passo importante como produtor e alguém disposto a insistir no teatro mesmo diante das dificuldades estruturais do país.
Na conversa, o ator também reflete sobre as diferenças entre atuar na televisão e no palco, além da relação entre interpretação e ensino. Para ele, atuar e dar aulas partem do mesmo princípio. Seja em novelas infantis, produções bíblicas ou textos contemporâneos, o artista acredita que o público se conecta quando encontra identificação genuína nas histórias. E é justamente essa escuta constante, tanto do personagem quanto das pessoas, que segue guiando sua trajetória artística.
Entretetizei: Ao longo da sua trajetória, quais personagens mais te transformaram como ator e por quê?
Velson D’Souza: Alguns marcaram mais por momentos diferentes. O Silvio Santos, por exemplo, foi um divisor de águas. Pela responsabilidade de interpretar alguém tão conhecido e pelo desafio de humanizar uma figura que já existe muito no imaginário coletivo. O Tommy DeVito, em Jersey Boys, também foi muito importante. Talvez tenha sido o trabalho mais exigente até então, pela combinação de canto, dança e atuação ao longo de quase três horas, com uma estrutura muito precisa. E agora o John, em Oleanna, entra nesse lugar também, porque é um personagem que não se resolve fácil. Ele te obriga a sustentar contradições o tempo todo. Isso mexe muito com o ator.

E: Existe alguma diferença essencial na forma como você constrói um personagem para a televisão em comparação com o teatro?
V: Sim, principalmente no tempo e no tipo de construção. Na televisão, muitas vezes você vai construindo o personagem ao longo do processo, com menos ensaio e mais no dia a dia de gravação. Então exige uma resposta mais imediata. No teatro, você tem mais tempo de investigação, de aprofundamento. E a construção precisa se sustentar ao vivo, de forma contínua, do início ao fim. Mas, no fundo, o princípio é o mesmo: buscar verdade e entender como aquele personagem pensa e se relaciona.
E: Olhando para as novelas que você já fez, quais temas ou histórias você acredita que mais dialogaram com o público?
V: Acho que histórias que têm identificação direta. No caso das novelas infantis, tem um lugar de descoberta, de formação, que conecta muito com o público mais jovem. E o humor também ajuda a aproximar. Já nas produções bíblicas, tem um outro tipo de identificação, mais ligado a valores, fé, questões morais. São registros diferentes, mas todos tocam o público quando conseguem estabelecer uma conexão verdadeira com quem está assistindo.
E: No seu trabalho atual no teatro, em Oleanna, o que o John te desafia a explorar de novo ou diferente em cena?
V: É um personagem cheio de contradições, que escapa o tempo todo de uma definição clara. Então o trabalho é sustentar essa ambiguidade sem tentar resolver. E também me exige um nível de precisão e escuta muito grande. É um texto onde cada palavra importa, e não tem onde se esconder.
E: Você teve o primeiro encontro com o texto de Oleanna há mais de dez anos e só agora conseguiu tirá-lo do papel. Sabendo como é difícil fazer teatro no país, como foi pra você se manter firme nesse propósito?
V: Eu nunca tratei como algo imediato. Era um desejo que ficou ali, amadurecendo com o tempo. Eu sabia que, em algum momento, ia voltar para esse texto. E acho que tem também uma coisa de momento da vida. Hoje eu me sinto mais preparado para lidar com esse material, não só como ator, mas também como produtor. Fazer teatro no Brasil é desafiador, mas também passa por escolher o momento certo e reunir as condições para fazer acontecer.
E: Entre atuar no teatro, na televisão e dar aulas, o que você pode dizer que essas três vertentes carregam de você?
V: Acho que todas passam por investigação. Mesmo quando estou dando aula, não é só sobre ensinar, é sobre investigar junto. Entender o processo. Na televisão, no teatro, é a mesma coisa. O que me move é essa tentativa de entender melhor o comportamento humano, as relações. São linguagens diferentes, mas o interesse é o mesmo.
E: Você é um ator muito versátil, já atuou em novela infantil, bíblica e contemporânea, como fez para se preparar para cada uma delas?
V: No infantil, eu estava num núcleo cômico, então tinha um trabalho mais direto, mais aberto. No bíblico, é outro tempo, outro tipo de construção. E no contemporâneo, muitas vezes tem uma busca por um registro mais naturalista. A preparação passa por entender essas diferenças sem perder a verdade. Porque, no fim, o trabalho é sempre o mesmo: construir uma relação viva com aquilo que você está fazendo.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana









