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Rebobinando Memórias: Videolocadora Charada
Foto: reprodução/murmur filmes

Crítica | Rebobinando Memórias: Videolocadora Charada transforma resistência cultural em memória viva da periferia paulistana

Dirigido por Jefferson Mendes, documentário registra a trajetória de Gilberto Petruche, dono de uma das últimas videolocadoras em atividade no Brasil, e mostra como cinema, comunidade e paixão ainda resistem em tempos de streaming

O documentário Rebobinando Memórias: Videolocadora Charada (2026), dirigido e roteirizado por Jefferson Mendes e produzido pela equipe da Murmur Filmes ao lado de Pedro Freitas, vai muito além de apenas contar a história de uma das últimas videolocadoras ainda em funcionamento no país. O longa constrói um registro importante sobre memória, resistência cultural e sobrevivência em tempos dominados pelo streaming.

No centro da narrativa está Gilberto Petruche, figura que praticamente se confunde com a própria Charada. Aos 69 anos, ele mantém há mais de três décadas um sonho que parecia impossível de sobreviver. Entre dificuldades financeiras, mudanças no mercado e transformações no consumo audiovisual, a locadora continua aberta “aos trancos e barrancos”, como o próprio documentário deixa claro, mas segue viva.

Entre as lembranças mais marcantes retratadas pelo documentário está o fenômeno Titanic. Gilberto comenta sobre a enorme procura pelo filme e a quantidade de cópias que precisou adquirir para atender a demanda absurda da época, mostrando o tamanho que a Charada alcançou em seus anos de maior movimento. São memórias que ajudam a reconstruir uma era em que ir à locadora fazia parte da rotina das pessoas e o lançamento de um filme movimentava bairros inteiros.

A narrativa também acompanha como Petruche  atravessou diferentes gerações da mídia física. Ele viveu o auge do VHS, acompanhou a chegada do DVD e hoje encara o desafio de manter a locadora viva em plena era do streaming. O filme entende bem essa transformação e mostra como a Charada precisou se adaptar sem abandonar sua essência.

Rebobinando Memórias: Videolocadora Charada
Foto: reprodulçao/FOLHA

Mais do que registrar uma videolocadora em funcionamento, o documentário mostra que Gilberto não mantém apenas um comércio. A Charada virou ponto de encontro, espaço de convivência e memória afetiva da periferia de São Paulo. O documentário retrata bem as conversas de balcão, as amizades criadas ao longo dos anos e até histórias curiosas de assaltantes que acabaram virando clientes da locadora. São detalhes que ajudam a entender como aquele espaço ultrapassa o simples ato de alugar filmes.

Ao acompanhar a sobrevivência da Charada em tempos de streaming, Jefferson Mendes mostra o processo de reinvenção do espaço. Para continuar existindo, a locadora passou a funcionar também como centro cultural, recebendo shows, encontros e eventos. Ainda assim, Gilberto faz questão de reforçar que aquilo continua sendo, acima de tudo, uma videolocadora, e o documentário entende a importância dessa afirmação. Existe um valor simbólico em manter viva uma experiência física ligada ao cinema, ao contato humano e à troca de recomendações cara a cara.

Rebobinando Memórias: Videolocadora Charada
Foto: reprodução/murmur filmes

E talvez um dos pontos mais interessantes do documentário seja justamente a forma honesta como Petruche enxerga as transformações sociais ao redor da própria locadora. Em determinado momento, o filme aborda a pirataria, que durante muitos anos foi vista como uma das grandes inimigas das videolocadoras.

Mas Gilberto não trata o assunto de forma simplista. Estando localizado na periferia de São Paulo, ele entende que, para muitas pessoas, a mídia pirata acabou sendo uma das únicas formas acessíveis de consumir cinema

É um olhar humano e consciente sobre a realidade social do país. Mesmo enfrentando esse cenário, a Charada continuou existindo e mantendo sua clientela fiel, sustentada muito mais pela relação construída com as pessoas do que apenas pelo aluguel dos filmes.

Além da paixão pelo cinema, o documentário revela outro lado muito importante da história de Gilberto: o futebol. Antes mesmo do cinema, o esporte já ocupava espaço central na sua vida. Ele joga bola desde os quatro anos de idade, sempre como goleiro, e trata o futebol como seu primeiro grande amor. 

O documentário utiliza isso de maneira simples e muito humana, especialmente em uma cena na qual  ele aparece defendendo duas bolas no gol, revelando um lado leve e apaixonado de alguém que dedicou a vida inteira às coisas que ama.

Rebobinando Memórias: Videolocadora Charada
Foto: reprodução/murmur filmes

A presença da família de Gilberto surge como peça fundamental nessa trajetória. Sua esposa e seus dois filhos sempre estiveram presentes apoiando a manutenção da Charada ao longo dos anos. Mesmo diante das dificuldades financeiras e dos momentos em que parecia impossível continuar, sua família permaneceu ao lado dele. 

O filme mostra inclusive que, apesar de sua esposa já ter sugerido algumas vezes que talvez fosse hora de fechar as portas, ela também entende a importância daquele espaço e do legado construído pela família ao longo de décadas.

Para ampliar essa discussão sobre mídia física e preservação cultural, o documentário reúne depoimentos importantes de pessoas ligadas ao universo das videolocadoras e da mídia física, como William Busa, Valmir Fernandes, Luiz Sene, Ricardo Luperi e Alan Oliveira, além de colecionadores, clientes antigos e frequentadores do espaço cultural. Todos ajudam a construir um panorama sobre a importância histórica e cultural desses espaços.

Com uma abordagem organizada, afetiva e direta, a equipe da Murmur Filmes entrega um documentário que funciona tanto como homenagem quanto como registro histórico. 

Rebobinando Memórias: Videolocadora Charada não fala apenas sobre fitas, DVDs ou nostalgia. Fala sobre permanência, comunidade e resistência cultural. Enquanto existir Gilberto Petruche, existirá também uma resistência contra o desaparecimento desses espaços físicos de convivência e troca humana. A Charada sobrevive porque existe alguém disposto a acreditar nela todos os dias, mesmo quando o mundo inteiro parece ter seguido em outra direção.

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Texto revisado por Kalylle Isse 

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