Cultura e entretenimento num só lugar!

Foto: divulgação / LC Agência

Entrevista | Flavia Camargo transforma cartas aos filhos em livro

Em entrevista, a escritora relembrou o processo de escrita da obra lançada de forma independente

Existem atividades comuns à rotina de uma mãe – como dar banho, alimentar ou trocar – que, por serem tão frequentes, acabam sendo vistas como banais. No entanto, a escritora Flavia Camargo subverteu essa ideia ao transformar o cotidiano com os filhos em matéria literária. Em Enquanto Vocês Crescem, publicado em fevereiro de 2025, a autora atravessa dez anos de cartas escritas aos filhos – Igor, Lucas e Luisa –, intentando cristalizar o real da vida doméstica que muitas vezes passa despercebido. 

Mesmo antes da primeira gravidez, Camargo já desejava documentar sua experiência como mãe. Em 2014, passou a descrever os momentos mais importantes por meio de palavras. Seu objetivo? Um dia alcançar outras mulheres que, como ela, procuram sentido no caos cotidiano da maternidade. Desse modo, nessa obra epistolar, a escritora fala sobre perdas, recomeços e surpresas. Nas cartas, momentos domésticos se transformam em recordações afetivas. Passando pelo primeiro ultrassom, frases espontâneas ditas pelas crianças e peculiaridades que surgem na convivência entre os irmãos, o livro reflete sobre a necessidade de aceitar a vulnerabilidade e os erros. 

Flavia Camargo é também advogada e já publicou oito obras desde 2010, entre romances, biografias sobre maternidade, poesias e livros infantis. Segundo a autora, é no ordinário da vida comum que se escondem os momentos e as lembranças mais bonitas. Em entrevista ao Entretetizei, ela comenta sobre como foi escrever aos próprios filhos e as descobertas que isso trouxe. Confira: 

Foto: divulgação / LC Agência
Entretetizei: Ao longo de dez anos escrevendo cartas para seus filhos, o que mudou na sua forma de enxergar a maternidade e a si mesma?

Flavia Camargo: Nesse tempo, mudei minha compreensão sobre a maternidade, percebendo que não é um papel que eu desempenho, mas um processo de aprendizado e transformação contínuo. Comecei registrando os fatos e depois fui vendo como meus filhos revelavam as minhas fragilidades, me exigiam aceitar meus limites, e refinavam meu olhar para o que realmente importa. Deixei de buscar um ideal a ser cumprido para focar na escuta a fim de perceber o quanto eles podem me ensinar. 

Passei a entender que nosso vínculo depende menos de respostas prontas e mais da disponibilidade afetiva. Para escrever o que vivemos, treinei a seleção das palavras, a busca de sentidos, e isso também mudou minha relação com o tempo, vendo que crescer não é uma sequência linear, mas um movimento de reorganizações internas. Ao olhar para trás, reconheço que as cartas não foram apenas um presente que deixo para o futuro. Elas me tornaram uma pessoa mais consciente.

E: Como foi o processo de transformar experiências tão íntimas, originalmente pensadas para seus filhos, em um livro voltado também para outras mulheres?

FC: As cartas nasceram do desejo de deixar um registro da nossa história. No início era uma forma de eternizar sentimentos, pequenas cenas do cotidiano e reflexões que eu não queria esquecer. Com os anos, notei que essas vivências não eram só minhas. Elas carregavam dúvidas, medos, culpas e encantamentos que são comuns a muitas mães. Transformar algo tão pessoal em um livro não foi abrir mão da intimidade, mas oferecer acolhimento, identificação, e dizer a outras pessoas que elas não estão sozinhas.

E: Em Enquanto Vocês Crescem, o cotidiano doméstico aparece como matéria-prima literária. O que te chama atenção nesses momentos aparentemente simples?

FC: O que mais me chama atenção no cotidiano é que ele é feito de pequenos momentos que não costumamos valorizar por serem repetitivos, mas possuem uma grande importância. Dar comida, dar banho, deitar juntos, são atividades que parecem triviais do ponto de vista do extraordinário, mas constituem os tijolinhos que constroem o vínculo. Escrever sobre o ordinário foi uma forma de desacelerar e reparar que a beleza não está reservada aos acontecimentos raros. Ela mora na rotina que cria intimidade e pertencimento. 

E: Você aborda temas como perdas, recomeços e surpresas. De que maneira essas experiências apareceram em sua escrita ao longo do tempo?

FC: Essas experiências atravessaram minha escrita de forma orgânica, acompanhando o modo como eu mesma fui sendo submetida a elas. No início, as palavras vinham impregnadas de expectativa. Quando a perda entrou na minha história, a escrita se tornou um lugar de sustentação. Os textos tentavam me fazer aceitar a vida, mesmo quando ela contrariava todos os planos. 

Mais tarde, os recomeços chegaram naturalmente. Eram pequenos movimentos de esperança. E as surpresas chegaram como lembretes de humildade, mostrando que nada é previsível, e muita coisa boa acontece fora do roteiro imaginado. Escrever foi uma maneira de caminhar junto com as experiências, sem tentar dominá-las, mas aprendendo a me adaptar ao que o destino exigia de mim.

E: A ideia de uma maternidade possível aparece no livro. Como você define esse conceito hoje?

FC: Hoje eu entendo a maternidade possível como aquela que cabe na vida real, e não na idealização. É a maternidade que se constrói com os recursos emocionais, físicos e circunstanciais que a mulher tem em cada fase. Ela nasce quando aceitamos que haverá dias de exaustão e falhas, sem que isso invalide o amor. 

Também é uma maternidade que reconhece que nem tudo ocorre como foi sonhado e ainda assim é possível seguir cuidando e agradecendo. Ao mesmo tempo, a mulher não precisa se apagar, nem se hierarquizar para ter respeito. Eu a definiria como uma maternidade humana, viável e honesta. Aquela que oferece alegrias sem ausência de dor. E que, por ser possível, é sustentável.

E: Suas cartas revelam vulnerabilidade e a aceitação da imperfeição. Como esse posicionamento conversa com as expectativas sociais sobre o ser mãe?

FC: As cartas dialogam com as expectativas sociais por não tentarem corresponder a elas. Há uma imagem de mãe como alguém sempre forte, disponível e plena. Quando me permito escrever a partir da vulnerabilidade, estou reconhecendo que essa imagem é inabitável. Mostrar fragilidade não é sinal de despreparo. 

Quando escrevo sobre erros e incertezas, estou falando da possibilidade de se corrigir, de aprender junto. A vulnerabilidade também devolve a humanidade. Reconhecer minhas imperfeições me permitem continuar sendo pessoa. Minhas cartas propõem uma maternidade que não busca aprovação externa, mas coerência interna. Uma maternidade em que errar não é fracasso e torna o amor mais verdadeiro.

E: Ao registrar a infância de seus filhos em palavras, o que você acredita que permanece para além do tempo, tanto para eles quanto para você?

FC: Acredito que permanece o vínculo. Para eles, fica o registro de que foram vistos, não apenas nos grandes marcos, mas nos detalhes. As cartas dizem: “eu te observei”, “sua existência foi percebida numa atmosfera de cuidado”. Para mim, fica uma forma de presença estendida. A escrita me permitiu habitar cada fase com mais densidade, atravessá-las com menos automatismo. As cartas são também um espelho de quem eu fui nesse caminho. No fim, acredito que permanece a certeza de que, mesmo quando tudo muda, há algo que não se perde: o amor que foi nomeado e transmitido.

E: Quais foram as principais influências literárias que acompanharam sua trajetória como escritora?

FC: Minhas principais influências literárias que acompanharam minha trajetória como escritora foram a Rafaela Carvalho, a Elisama Santos, o Valter Hugo Mãe, o João Anzanello Carrascoza e também os livros de Logosofia.

E: Como você começou a escrever? Que gêneros a atraem mais e por quê?

FC: Comecei a escrever por volta dos dez anos de idade. Mas só fui publicar meu primeiro livro aos vinte e sete anos. Escrevia seguindo minha intuição, a partir da minha observação de como eram os livros que eu já tinha lido. Os gêneros que mais me atraem são a biografia, o romance e os livros que possuem conteúdos que tratam de temas psicológicos e espirituais.

 

E você, ficou com vontade de ler Enquanto Vocês Crescem? Conta para a gente em nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X. E, se você gosta de trocar experiências literárias, venha participar do Clube de Leitura do Entretê para conversar sobre leituras incríveis!

Leia também: Entrevista | Carmen Stephan: Malária, autoficção e como enxergamos a nossa própria mortalidade

 

Texto revisado por Alexia Friedmann

plugins premium WordPress

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Acesse nossa política de privacidade atualizada e nossos termos de uso e qualquer dúvida fique à vontade para nos perguntar!