Referenciando a própria experiência, autora comenta sobre natureza, ciência e fragilidade humana
Em seu mais novo romance, a escritora alemã Carmen Stephan propõe uma reflexão sobre a relação entre humanidade e natureza. Também discute acerca do descaso médico em situações de emergência – mas tudo isso com a presença de um narrador inusitado. No livro Malária: Um Romance, o leitor será apresentado a Carmen, mulher internada no Rio de Janeiro com a doença que contraiu na Amazônia brasileira. Publicada no início de março pela editora Tinta-da-China Brasil, esta autoficção recebeu os prêmios Jürgen Ponto-Stiftung de Literatura e Buddenbrookhaus para romance de estreia, na Alemanha. No Brasil, recebeu tradução de Claudia Abeling com apoio do Goethe-Institut.
A obra Malária se define como um romance autobiográfico. Porém, quem narra a história é uma criatura inesperada: um mosquito. Em 2003, Carmen Stephan pegou malária. Todavia, por conta de uma avaliação médica descuidada, ela foi tratada como um caso de dengue já que, à época, havia uma epidemia no Brasil. É apenas dias depois que recebe o diagnóstico correto e, durante todo esse tempo, teve que suportar uma febre delirante e o abandono hospitalar. Anos após essa experiência de quase morte, a autora decidiu escrever sobre o ocorrido de uma forma diferente.
Isso porque Stephan, ao construir a narrativa, optou em colocar como narradora não a mulher doente, mas a fêmea anófeles que a picou. Atormentado pela culpa, o inseto é incapaz de deixar a vítima, começando a conhecer a humana de maneira profunda. Embora seja uma autoficção – história na qual o autor se utiliza da própria trajetória pessoal para compor o enredo – a Carmen do livro é uma outra Carmen, que tem um destino particular. A evolução da doença no corpo da personagem é retratada como um diário que não vai a lugar nenhum. O livro ainda traz um panorama da história da malária e como ela foi descoberta.
Carmen Stephan nasceu em Berching, na Alemanha, mas vive na Bahia e morou por muitos anos no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro, a coletânea de contos Brasília Stories, foi publicado em 2005. Ganhou uma bolsa de literatura da Baviera com a obra It’s All True (2017), que conta a história de quatro jangadeiros. Como jornalista, trabalhou para veículos como o SZ-Magazin e o Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung. Em entrevista ao Entretetizei, fala sobre as suas escolhas narrativas, a sua pesquisa sobre a malária ao longo dos anos e as reflexões que buscou trazer com o livro. Confira.

Entretetizei: Qual foi a sua principal motivação para a escrita do livro com tal temática?
Carmen Stephan: Queria contar uma história que foi crucial na minha vida e que mexeu muito comigo, queria ir atrás dos mistérios dela e encarar uma pergunta essencial: qual é a nossa postura em relação à nossa própria mortalidade?
E: De que forma você acredita que o corpo feminino pode ser percebido ou ignorado dentro da medicina?
CS: Não acho que isso tem algo a ver especificamente com o corpo feminino. Acho que é mais uma questão do olhar e do ouvir com atenção, sem respostas prontas, da ligação humana entre as pessoas. No entanto, coincidentemente a personagem é uma mulher, mas a mesma situação aconteceu há pouco tempo com um homem: um amigo de um amigo.
E: Por que você decidiu escrever uma autoficção, em vez de um relato autobiográfico ou jornalístico?
CS: Eu não queria apenas contar uma história de sofrimento; queria criar algo novo. E escrevendo o romance, descobri várias camadas que estavam escondidas nessa minha experiência.
E: Como surgiu a ideia de dar voz à fêmea do mosquito anoféles como narradora da história?
CS: Tentei escrever na primeira pessoa, mas não consegui. Em algum momento, surgiu a ideia do mosquito, mas, no começo, não a levei muito a sério. Só que a ideia não me largou mais, e, em certo momento, experimentando, ficou claro que eu só poderia contar essa história dessa forma. A fêmea de anófeles tornou-se minha companheira narrativa, minha parceira.
E: Para você, o que essa escolha narrativa permitiu explorar que talvez não fosse possível a partir de um narrador humano?
CS: Mudou a perspectiva completamente. É uma voz que vem da floresta, observando o ser humano.

E: O livro propõe um encontro entre duas protagonistas – a mulher que adoece e o mosquito que a pica. O que essa relação revela sobre o que entendemos por natureza, instinto e responsabilidade?
CS: Isso é algo que espero que o leitor descubra em si mesmo lendo o livro. São temas que estão entrelaçados na história e que são melhor sentidos. Há algum tempo, li o livro Escute as Feras, em que a antropóloga Nastassja Martin conta sobre seu encontro com um urso na floresta siberiana, no qual ela ficou gravemente ferida.
Fiquei surpresa com o quanto muitas de suas sensações se assemelhavam às minhas. Em determinado momento, ela diz algo assim: “Estou passando por isso porque houve um ‘nós´.” É essa complexidade da relação, no meu caso entre a mulher doente e o mosquito que a picou, que também é explorada em Malária.
E: Durante sua pesquisa, o que mais te surpreendeu sobre o papel da malária ao longo da história da humanidade?
CS: É uma história fascinante, cheia de mal-entendidos trágicos que tiveram grandes impactos na humanidade. Fiquei surpresa ao saber que o transmissor de uma das doenças mais antigas do mundo só foi descoberto na virada para o século 20, e que durante tanto tempo se acreditou que a doença era transmitida pelo “ar ruim”.
E: Como a literatura pode ajudar a tornar visível uma doença que ainda mata centenas de milhares de pessoas por ano, mas muitas vezes aparece apenas como estatística?
CS: Acho que a literatura tem o poder de criar uma ligação emocional – ajuda a imaginar melhor como é a sensação de ter essa doença e o impacto que pode ter.
E: De que forma o romance questiona a maneira como os humanos costumam enxergar a natureza?
CS: Muitas vezes a gente tem essa percepção: eu aqui, a natureza lá – como se ela fosse outra pessoa. Uma picada de mosquito torna absurda a nossa suposta separação da natureza – afinal, não há vínculo mais íntimo do que o do sangue.
E: Como sua relação com o Brasil – após viver no Rio de Janeiro e hoje na Bahia – influenciou sua forma de olhar para o país e de transformá-lo em matéria literária? De que maneiras essa experiência aparece nas paisagens, personagens e temas que estão nas suas páginas?
CS: A minha relação com o Brasil é forte. As experiências e os encontros marcantes que tive aqui despertaram em mim o desejo de escrever livros. A natureza, a intensidade, o calor humano que encontrei me inspiraram e transformaram, e certamente influenciam minha escrita.
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Revisado por Luana Chicol









