Publicado no início do século 19, livro continua suscitando debates sobre o amadurecer
Se fosse uma personagem escrita nos anos 2020, a protagonista homônima do livro Emma, de Jane Austen, seria rotulada de delusional ー aquela pessoa que acredita piamente em uma realidade fantasiosa, mesmo que todas as evidências apontem para a direção contrária.
Isso porque a jovem tem tantas crenças enraizadas e é tão segura de si, que acaba ignorando o mundo ao seu redor. Tal fato, adicionado ao tédio devido ao isolamento no qual ela se insere, faz com que Emma acabe criando muitas confusões e sofrimentos na vida das pessoas em seu entorno.
Publicado pela primeira vez em 1815, este clássico da literatura inglesa é considerado um romance de costumes, uma vez que retrata os meandros e hábitos da sociedade daquele período. No Brasil, recebeu uma nova edição pela Companhia das Letras em 2021, com tradução de Julia Romeu.
Ao narrar o cotidiano de Emma Woodhouse ー moça inteligente, rica e mimada ー Austen reflete, bem como em seus outros livros, sobre o provincianismo inglês à época. No entanto, aqui a autora constrói uma de suas personagens mais multifacetadas, repleta de contraditoriedades e subjetividades.
Ao falar sobre o romance que estava escrevendo, Jane Austen admitiu que aquela era uma personagem que “ninguém, exceto eu, gostará muito”. De fato, Emma é uma garota de personalidade um tanto quanto intragável num primeiro momento.
Arrogante, teimosa e petulante, ela tende a desmerecer os sentimentos e vontades alheias com frequência. No entanto, é bastante generosa e quer genuinamente ajudar quem ama. Ao longo da trama, passa por um enorme amadurecimento ao perceber que as suas atitudes podem machucar ou prejudicar os outros.
Emma, um romance de costumes

Neste livro de Jane Austen, o leitor é apresentado a Emma Woodhouse que, com 21 anos, mora com o pai e não pensa em se casar. No entanto, embora não tenha pretensões sobre a própria vida amorosa, ela acredita que tem o dom de saber exatamente o que se passa no coração das outras pessoas.
Emma vê a si mesma como um tipo de casamenteira. Essa crença fica ainda mais fortalecida quando o seu primeiro ato como “cupido” acaba por unir em matrimônio sua antiga governanta com um viúvo da região.
Agora, Emma deseja juntar sua amiga Harriet Smith ー amável, mas com poucos recursos ー com Sr. Elton, o pároco da vila. Na cabeça de Emma, os dois estão completamente apaixonados um pelo outro, só precisam de um empurrãozinho.
Porém, as artimanhas da jovem vão se mostrar infrutíferas, à medida em que ela começa a perceber que talvez não seja tão sábia e sensata quanto imaginava. Na verdade, Emma toma como verdades várias ilusões criadas por sua própria maneira de ver o mundo, ignorando que sempre esteve em uma bolha de proteção.
Sendo bonita, jovem e inteligente, Emma é amada e paparicada por todos à sua volta. Com exceção do Sr. Knightley, irmão mais velho de seu cunhado, que a conhece desde a infância. Nutrindo uma amizade que se divide entre farpas e afagos, Sr. Knightley é um dos únicos que aponta os erros de Emma.
Neste chamado romance de costumes, não há exatamente um plot bem definido. O que há, de fato, é o objetivo de retratar os valores morais, os rituais sociais, os hábitos e o cotidiano de alguma época ou classe social.
Uma heroína que amamos odiar
Sendo uma das personagens mais complexas do universo de austiniano, é difícil dizer que Emma Woodhouse agradará o leitor desde o primeiro momento. Ela é arrogante, esnobe, não enxerga além do próprio nariz e, mesmo bastante privilegiada, apresenta vários traços de inveja em seu caráter.
Mas, ao decorrer da narrativa, começamos a perceber que, acima de tudo, ela é extremamente solitária. Tudo o que Emma faz, mesmo que inconscientemente, é para manter aqueles que ama sempre por perto. E mais: quando a personagem começa a perceber que seus atos causaram alguns estragos, sente-se extremamente culpada.
A verdade é que Emma também é gentil, caridosa e disposta a admitir seus erros. Aquela heroína fácil de amar e odiar na mesma proporção. Com a avalanche de mocinhas “perfeitas”, comuns nos romances de época, é um alívio se deparar com uma personagem essencialmente humana.
A genialidade de Austen
Jane Austen sobrevive ao tempo, e não é difícil entender as razões. Com a sua prosa afiada e sem pontas soltas, tem o dom de representar temas complicados da condição humana e das relações sociais, por meio das situações mais simples do cotidiano.
A construção dos personagens também é digna de nota: parecem até que realmente existem, de tão palpáveis e reais. Muito mais do que contar a história de uma jovem rica, a autora reflete sobre amadurecimento, erros de julgamento e máscaras sociais.
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Revisado por Crystal Ribeiro









