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Foto: divulgação / editora Alfaguara

Resenha | Senhor das Moscas: por que o clássico de William Golding ainda choca

Quase 72 anos após sua publicação, a obra continua atual ao discutir poder, violência e perda da inocência

Publicado em 1954, Senhor das Moscas é o primeiro e mais conhecido romance do escritor britânico William Golding – que, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1983. Misturando fantasia e realidade, o autor faz uma alegoria chocante e reflete sobre os limites da civilidade, os frágeis alicerces do poder e a perda da inocência. No Brasil, em 2021 recebeu uma edição atualizada pela editora Alfaguara com tradução de Sergio Flaksman

No início da década de 1950, o mundo passava por um extremo sentimento de pessimismo e mal-estar após os eventos da Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945. E é exatamente essa sensação de falta de esperança na humanidade, capaz de cometer tantas atrocidades, o motor da narrativa de William Golding. 

O livro, ambientado durante a Segunda Guerra Mundial, conta a história de um bando de meninos ingleses que são os únicos que sobrevivem a um acidente de avião. Agora, sozinhas em uma ilha deserta, as crianças precisam aprender a se organizar até que o resgate apareça. 

Ralph, um garoto esperto e enérgico, logo toma as rédeas da situação e começa a liderar os meninos. Por mais que se encontre em uma situação desesperadora, o rapaz não se preocupa a princípio. Ele tem plena convicção de que será resgatado pelo pai, que é um oficial militar, além de acreditar firmemente na ordem e nas instituições. O oposto desse símbolo de esperança é Porquinho, menino inseguro, mas inteligente, que parece ser o único a perceber verdadeiramente a fragilidade daquela sociedade construída pelas crianças. 

Aos poucos, os meninos, antes inocentes, passam a ter atitudes violentas e vão sendo levados a atos irracionais. Assim, Golding leva os personagens e o leitor a uma jornada visceral em torno da degradação e da maldade humana. 

O que Senhor das Moscas diz sobre poder, medo e violência

O que acontece quando uma sociedade supostamente organizada se vê em situações extremas de fome, frio ou calor? Será que os princípios democráticos valem para manter a paz ou será que a lei do mais forte sobressai? Tais questionamentos estão no subtexto de Senhor das Moscas, que ilustra como é fácil perder a humanidade em situações extremas. 

Os personagens, no momento em que são tomados pelo medo, vão se dirigindo cada vez mais a um estado animalesco. O que os faz essencialmente humanos vai se perdendo até chegar a um ponto irreversível. A narrativa, por meio da história dos meninos perdidos, discorre sobre como as bases do poder são superficiais e podem ser derrubadas a qualquer momento. Além disso, o medo sentido pelas crianças é que as levará inevitavelmente a uma espiral de barbárie e violência. 

Por que a leitura de Senhor das Moscas ainda é pungente 

A obra de Golding continua atualíssima, mesmo após tantos anos da sua publicação, justamente por descrever emoções básicas do ser humano e por questionar a ideia que temos de civilidade. 

Isso porque, ao serem colocados em situações desesperadoras e forçados a sobreviver, os meninos perdem as características que os fazem humanos. Além disso, a violência e a barbárie presentes no romance são bem próximas a eventos que, infelizmente, ainda são correntes no mundo atual. Genocídios, guerras e a busca desenfreada pelo poder: foi isso o que Golding denunciou com tanta maestria. 

Adaptação em quadrinhos de Senhor das Moscas amplia a força visual do clássico
Foto: divulgação / editora Suma

Em 2024, o clássico recebeu uma adaptação em quadrinhos pelas mãos da quadrinista holandesa Aimée de Jongh, que chegou ao Brasil pela editora Suma. A versão é um excelente complemento visual à obra original, captando a essência das palavras de Golding e oferecendo uma verdadeira imersão na história. 

Jongh estabelece um traço único com ilustrações ricas em detalhes. A narrativa, que já é magistral, recebe um aspecto colorido e vibrante. Tais aspectos contribuem para que o leitor se conecte ainda mais com os personagens, com a ambientação e com a atmosfera densa – essenciais para o enredo. 

Foto: divulgação / editora Suma

É importante destacar que o quadrinho não traz o texto original na íntegra, mas o cerne dele está maravilhosamente representado. Desse modo, é uma boa adaptação tanto para quem já conhece o livro de William Golding quanto para quem deseja ter o seu primeiro contato com Senhor das Moscas. 

Minissérie de Senhor das Moscas

O clássico de William Golding foi adaptado para a TV em 2025, sendo muito bem recebido pela crítica. Com quatro episódios, a minissérie britânica produzida pela BBC tem o roteiro assinado por Jack Thorne, também conhecido pelo seu trabalho em His Dark Materials (2019), Enola Holmes (2020) e Adolescência (2025). Ainda não há previsão de estreia no Brasil. 

Confira o trailer:

Vale a leitura? Sim – e o desconforto é parte da experiência

Senhor das Moscas é de fato uma leitura desconfortável e visceral. Ao longo da história, o leitor vai sendo confrontado pela degradação humana, pelo ódio, pelo medo e pela sede de sangue. Temas que ficam ainda mais densos considerando que todos os personagens são jovens em idade escolar. Com isso, refletimos sobre a perda da inocência e as consequências de optar pela violência como forma de sobreviver. 

 

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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz

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