Na entrevista, Janaina Tokitaka apresenta Cora Curiosa, seu novo livro infantojuvenil, e comenta a criação da protagonista, o valor da curiosidade e o processo de escrever para livros e séries
Cora Curiosa é o novo livro da escritora e roteirista Janaina Tokitaka, que chegou às livrarias em julho pela VR Editora. Na obra, o leitor conhecerá a jovem Cora que, prestes a completar dez anos, se envolve em uma trilha de aventuras e segredos. Voltada para o público infantil, a publicação se desdobra em uma narrativa sobre segredos, questionamentos sem resposta, amizades e descobertas. Além disso, reflete sobre o poder e a importância da curiosidade, principalmente nos mais jovens.
A protagonista, Cora, é descrita como a versão infantil e fofoqueira de Sherlock Holmes. Segundo a autora, a criação da personagem foi inspirada pela sua própria filha, uma criança observadora e questionadora. “É muito importante ter curiosidade sobre o mundo e coragem e desinibição para ir atrás de respostas: não acho que a gente tem que se contentar em não saber”, explica a Tokitaka.
No livro, Cora é filha de espiões e bastante esperta, passando a maior parte de seu tempo debruçada sobre enigmas e investigações improvisadas. Como uma tradição de família, a garotinha deve resolver um mistério, elaborado pelos pais, para encontrar seu presente de aniversário. É nesse momento que ela se envolve em teorias sobre galinhas desaparecidas, códigos secretos e clones extraterrestres.
O lado visual de Cora Curiosa ficou a cargo do ilustrador Arthur Ortega, que se inspirou na cultura pop japonesa para criar os desenhos. Com traços coloridos em aquarela, as ilustrações instigam ainda mais a imaginação dos pequenos leitores.
Com dezenas de livros publicados, Janaina Tokitaka já foi finalista do Prêmio Jabuti e tem exemplares difundidos por todo o Brasil por meio do programa Itaú Social. No audiovisual, ela assina a adaptação da série De Volta aos 15 (2022-2024), da Netflix, além de ser criadora e chefe de roteiro da série sci-fi teen, original Disney+, Mila no Multiverso (2023). Em entrevista ao Entretetizei, Janaina comenta sobre a sua criação literária mais recente, sua trajetória no mundo dos livros e ainda reflete sobre os méritos de sermos interessados e curiosos. Confira:

Entretetizei: Qual a sua trajetória com livros e com a literatura? Quando percebeu que queria, de fato, trabalhar contando histórias?
Janaina Tokitaka: Escrevo profissionalmente há 20 anos. Eu era uma criança leitora arquetípica: passava os recreios na biblioteca e tinha um pouco de medo das pessoas. Sempre entendi o mundo pela lente das histórias. É como se uma sequência randômica de acontecimentos, agrupados como uma narrativa, subitamente pudesse ganhar uma forma mais reconhecível. É assim que a vida faz sentido para mim. Também é um pouco como brincar de lego: como encaixar uma peça na outra até construir um foguete a partir de paralelepípedos coloridos?
E: Qual foi a pergunta mais estranha ou engraçada que você fazia quando era criança?
JT: Minha curiosidade sempre foi maior do que meu tato social, então sempre perguntei tudo que queria saber sem o menor constrangimento, para quem quer que fosse: por que não tem ninguém na sua festa? Por que temos que pagar para beber água? Por que nenhuma criança nunca viu o papai noel ao vivo? Na verdade, sou um pouco assim até hoje, para desespero dos meus amigos e família.
E: A Cora lembra um pouco uma versão infantil de Sherlock Holmes, mas também tem um lado bem “fofoqueiro do bem”, que adora observar tudo. Como nasceu essa personagem?
JT: Minha filha é exatamente assim e, em parte, eu também sou. Acredito que toda criança saudável seja. É muito importante ter curiosidade sobre o mundo e coragem e desinibição para ir atrás de respostas: não acho que a gente tem que se contentar em não saber. Acredito que o mundo é tão grande ou pequeno quanto a nossa vontade de entendê-lo.
E: Você já escondeu algum presente de aniversário ou participou de alguma caça ao tesouro parecida com a da Cora? Tem alguma lembrança que inspirou o livro?
JT: Eu adoro histórias de caça ao tesouro! Acho maravilhosa a sensação de encontrar um prêmio depois de uma investigação difícil. Sinto essa mesma dopamina quando, por exemplo, garimpo uma peça de roupa especial em um bazar de igreja do bairro, ou uma edição rara em um sebo. Meus pais eram particularmente bons em esconder ovos de páscoa, faziam pegadas, criavam charadas, acho que foi o que inspirou essa mecânica do livro!
E: Você escreve livros e também roteiros para séries como De Volta aos 15. O que muda quando você cria uma história para a TV e quando escreve para um livro? E o que continua igual?
JT: A liberdade criativa proporcionada pelo livro é uma delícia, mas o roteiro me ensinou a estruturar uma história, prender o leitor nela e a importância de humor e ritmo na escrita. Acredito também que uma boa história é uma boa história, seja em papel ou na tela. Um protagonista carismático, com boas motivações e uma premissa instigante funcionam bem em ambas as mídias.

E: As ilustrações do Arthur Ortega têm inspiração na cultura pop japonesa. Como foi trabalhar em parceria para construir a identidade visual da Cora? Teve alguma ilustração que surpreendeu você?
JT: Fiquei muito feliz quando Arthur topou o convite porque acho que o universo visual dele tem tudo a ver com o de Cora: as casinhas que ele cria dão vontade de investigar, geram curiosidade no leitor. Ele entendeu a personagem e seu universo super rápido. A capa me surpreendeu pela união de elementos japoneses com um jeitinho de casa de avó, bem brasileira. Achei que ficou linda.
E: Hoje, muitos jovens passam horas investigando tudo nas redes sociais. Você acha que existe diferença entre ser curioso e apenas consumir informações sem questioná-las?
JT: Acho que há uma grande diferença na intencionalidade de quem busca. Uma coisa é receber um rio de informações passivamente, e outra é ir atrás de informações específicas, entrar em um buraco na Wikipédia e terminar com três novas obsessões para fazer companhia à primeira.
E: Se pudesse convidar qualquer detetive da ficção para ajudar a Cora em uma investigação, quem seria e por quê?
JT: Adoraria parear Cora com Miss Marple, a detetive idosa aparentemente frágil criada por Agatha Christie, que resolve crimes complexos usando apenas a observação da natureza humana. Por trás do tricô e dos chás da tarde, esconde-se uma mente brilhante. Acho que ela e Cora seriam uma dupla intergeracional imbatível.
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Texto revisado por Kalylle Isse









