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Belchior: viver é melhor que sonhar

Conheça vida e obra de um dos maiores gênios da música brasileira, desde o sucesso de Alucinação aos anos de reclusão que intrigaram o Brasil

Metamorfosear inquietações existenciais, angústias e desventuras em canções universais não é para qualquer um e Antônio Carlos Belchior nunca foi um qualquer. Cantor, filósofo, compositor, poeta, produtor musical, desenhista, artista plástico e até professor de biologia, o cearense conseguiu dar vida à arte através de uma obra que ultrapassa gerações ao falar sobre as questões da juventude, identidade, amor, política e as incertezas da vida. Mesmo quase uma década após sua morte, suas músicas continuam mais atuais do que nunca, provando que suas reflexões são imortais.

Nascido em 26 de outubro de 1946, em Sobral, no interior do Ceará, Belchior cresceu em uma tradicional família nordestina. Filho de Otávio e Dolores Fernandes, o artista teve 23 irmãos e foi criado em uma casa onde a música fazia parte do cotidiano. A mãe apresentou ao filho as primeiras noções musicais em um coral, enquanto o rapaz latino-americano aproveitava oportunidades para cantar em feiras livres, participar de pequenos festivais e se apresentar em programas de rádio da cidade.

Ainda jovem, aprofundou seus estudos filosóficos em um colégio de padres. Viveu também uma imersão no Mosteiro dos Frades Capuchinhos, aprendendo latim, italiano e canto gregoriano. O contato com grandes pensadores e diferentes tradições culturais esculpiu o repertório intelectual que, mais tarde, ficaria marcado em suas composições, repletas de melancolia, poesia e constantes reflexões sobre a condição humana.

Com o passar do tempo, Belchior começou a questionar sua fé na igreja católica e a repensar sua conexão com Deus, o que o fez largar a formação no mosteiro e seguir outros rumos. A partir daí, passou em medicina em primeiro lugar na Universidade Federal do Ceará (UFC), mas mesmo com toda a dedicação aos estudos, o dom para a carreira musical falava mais alto. O artista percebeu então que seu futuro estava nos palcos e, em 1971, abandonou o curso para seguir definitivamente a vocação para a música.

Apenas um rapaz latino-americano
Foto: divulgação/Paulo Salomão

O primeiro reconhecimento de Belchior veio logo em 1971, quando venceu o Festival Universitário da MPB com a canção Na Hora do Almoço, interpretada por Jorge Teles e Jorge Nery. Já no ano seguinte, outra de suas composições fez grande sucesso: Mucuripe, escrita em parceria com Fagner. A música foi escolhida por Sérgio Ricardo para integrar o Disco de Bolso do jornal O Pasquim, um dos mais importantes semanários da história da imprensa brasileira que circulava na época, e foi contemplada por uma gravação de Elis Regina. Mais tarde, a canção também seria regravada por Roberto Carlos, passando a ser considerada um dos clássicos da música brasileira.

Juntamente com a mudança para São Paulo, as dificuldades financeiras surgiram na vida de Belchior. Morando de favor, realizava pequenos shows e compunha trilhas sonoras para curtas-metragens. Nesse período, o cantor convivia com cineastas e dançarinos da cena cultural paulistana e, nessa mesma época, conheceu Vinicius de Moraes e Toquinho, passando a frequentar encontros com os músicos.

Felizmente, a reviravolta do destino veio graças à Elis Regina que, como o próprio Belchior menciona em entrevistas antigas, foi extremamente generosa com ele. Impressionada com as composições do cearense, a estrela o convidou para ir até sua casa mostrar seu repertório e gravar as faixas. Anos depois, em 2003, Belchior relembrou o episódio em entrevista com o apresentador Luis Carlos Miéle para o programa A Vida é um Show: sem dinheiro, violão ou gravador, confessou que não tinha condições de comparecer, mas Elis respondeu que enviaria um carro para buscá-lo.

Na mesma noite, após ouvir as canções inéditas, ela decidiu gravar Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, abrindo definitivamente as portas da indústria para o compositor e projetando o nome de Belchior em âmbito nacional. Especialmente a música Como Nossos Pais, eternizada na voz da cantora, tornou-se um dos maiores sucessos da música brasileira.

Entretanto, antes do encontro com Elis, em 1974, Belchior já havia lançado seu primeiro LP, A Palo Seco. Mas apenas dois anos depois alcançou o estrelato com Alucinação (1976), produzido por Marco Mazzola. Considerado um dos discos mais importantes da história da MPB, o álbum vendeu cerca de 500 mil cópias e apresentou clássicos como Apenas um Rapaz Latino-Americano, Velha Roupa Colorida e Alucinação, além de eternizar Como Nossos Pais. 

Alucinação foi muito mais do que um sucesso comercial, pois tornou-se a representação dos sentimentos profundos e contraditórios da juventude brasileira dos anos 1970. Belchior escrevia sobre os conflitos íntimos, as frustrações e a busca por sentido em meio à transformação social global, especialmente em meio a censura e repressão da ditadura militar. Quando questionado sobre o título do disco, resumiu que viver era mais importante do que apenas pensar sobre a vida. Para ele, a vida é uma forma de delírio absoluto e todos somos, de alguma forma, alucinados.

Seu talento como letrista sempre deu o que falar pelas diversas referências literárias e filosóficas. As menções aos Beatles, à poesia latino-americana, à cultura nordestina e o mix entre idiomas transitavam com espontaneidade em suas composições, o que criou uma identidade artística sem igual dentro da MPB. Belchior foi um dos primeiros grandes cantores nordestinos a conquistar projeção nacional na década de 1970 e ajudou a abrir espaço para a produção musical cearense no cenário brasileiro.

Ao longo da carreira, lançou 24 álbuns, mas, além da música, dedicava-se ao desenho, à pintura e à escrita. Fora dos holofotes, também apresentava sua arte em escolas, penitenciárias e comunidades periféricas, pois acreditava que a música deveria dialogar com diferentes realidades sociais.

O enigma do silêncio de Belchior
Foto: reprodução/arquivo/Estadão

Na década de 2000 a história de Belchior tomou um rumo inesperado. Em 2005, iniciou um relacionamento com Edna Assunção de Araújo, mais conhecida como Edna Prometheu, e deixou a esposa Ângela, com quem viveu por 35 anos e teve dois filhos. Aos poucos, distanciou-se da família, dos amigos e dos palcos. Em 2006, comunicou ao empresário que não desejava mais agendar shows. Segundo ele, gostaria de dedicar um tempo à pintura e a outros projetos artísticos.

A partir daí, o artista deu o que falar na mídia ao abandonar apartamentos, carros, documentos, deixar de pagar pensão aos filhos e hospedagens em hotéis, o que acarretou em inúmeros processos judiciais. Com o sumiço, os fãs e internautas decidiram criar a campanha Onde Está Belchior?, que rapidamente movimentou as redes sociais e virou meme. Os usuários das plataformas criavam montagens especulando com humor o paradeiro do cantor, colocando suas fotos na capa de discos dos Beatles, em cenários da série Lost (2004) e em diferentes lugares do mundo.

Foto: reprodução/O Globo

Em 2009, a equipe do programa Fantástico, da TV Globo, saiu em busca do artista e conseguiu encontrá-lo vivendo com sua mulher no Uruguai. Após grande insistência dos repórteres, Belchior cedeu uma entrevista e afirmou que estava focado em um novo projeto musical a partir da tradução de A Divina Comédia, de Dante Alighieri, um trabalho que nunca chegou a publicar. Além disso, garantiu que seu afastamento era uma escolha pessoal e que não daria nenhuma informação sobre sua vida pessoal.

Mesmo com os boatos de que estava há cerca de dois anos sem efetuar o pagamento da pensão alimentícia, o cantor mandou uma mensagem de carinho para os filhos. Nos anos seguintes, permaneceu por um período no Uruguai e, posteriormente, no Rio Grande do Sul, sempre mantendo uma rotina discreta, visto que estava sendo procurado pelas autoridades.

A última estrofe do poeta 
Foto: divulgação/Nova Brasil

Os últimos anos do cantor permanecem cercados de mistério, marcados por uma vida itinerante entre hotéis e casas de fãs. Em 29 de abril de 2017, Belchior voltou aos holofotes, mas para a despedida final. 

O artista morreu aos 70 anos, em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, após sofrer a ruptura de um aneurisma da aorta, a principal artéria do corpo humano. Apenas horas antes, havia participado de um pequeno encontro musical e reclamado de dores nas costas. Dormiu naquela noite e não acordou.

O então governador do Ceará, Camilo Santana, garantiu o traslado do corpo para seu estado natal e decretou três dias de luto oficial. Atendendo a um desejo manifestado por Belchior em vida, o cantor foi velado em Sobral, cidade onde nasceu, e sepultado em Fortaleza, no dia 2 de maio de 2017. 

Mesmo após anos de silêncio, sua obra nunca deixou de alucinar os ouvintes. O narrador dos dilemas atemporais e intérprete das angústias humanas, ainda transcende gerações com suas canções. Por esse motivo, mesmo décadas depois de escrever seus versos mais conhecidos, eles ainda parecem resumir sua própria trajetória: viver sempre foi melhor do que apenas sonhar.

 

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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura

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Livros Resenhas

Resenha | Entre rodeios e sentimentos: Sem Defeitos mostra que o amor se constrói com confiança

O primeiro volume da série Chestnut Springs, de Elsie Silver, apresenta um romance com cowboy que vai além da química entre os protagonistas ao explorar amadurecimento, vínculos familiares e relações construídas com calma 

O universo dos rodeios talvez pareça um cenário improvável para uma história sobre confiança, amadurecimento e vínculos familiares, mas Sem Defeitos (2022) prova que romances com cowboys podem ser muito mais do que chapéus, touros e competições. No primeiro volume da série Chestnut Springs, publicado originalmente em 2022, Elsie Silver constrói uma narrativa que encontra sua força justamente em personagens bem desenvolvidos, relações construídas com calma e um casal que conquista não apenas pela química, mas pela forma como aprendem a caminhar lado a lado.

Nos últimos anos, Elsie Silver se consolidou como um dos nomes mais expressivos do romance contemporâneo ao transformar o universo cowboy em palco para histórias que equilibram humor, vulnerabilidade e personagens emocionalmente complexos. A autora canadense encontrou na ambientação de pequenas cidades uma forma de explorar relações familiares, amadurecimento e romances construídos sem pressa, características que conquistaram uma legião de leitores e impulsionaram o sucesso da série Chestnut Springs.

Sem Defeitos inaugura essa série, composta por cinco romances independentes, mas interligados. Embora cada volume acompanhe um casal diferente, todos compartilham o mesmo universo e permanecem conectados pelo núcleo da família Eaton, que continua presente ao longo dos livros seguintes. Essa estrutura faz com que cada novo romance amplie a sensação de comunidade e recompense quem acompanha a ordem de publicação, já que os personagens secundários ganham protagonismo enquanto rostos conhecidos continuam evoluindo em segundo plano.

O casal que adoramos amar
Imagem: reprodução/Instagram/@editoraarqueiro

A história acompanha Summer Hamilton, uma jovem responsável por ajudar a recuperar a imagem pública de Rhett Eaton, um famoso competidor de rodeio que está prestes a perder contratos importantes após uma série de problemas fora das arenas. Como parte do acordo, os dois precisam conviver de perto, e o que começa como uma relação baseada em obrigação e interesses profissionais se transforma, aos poucos, em uma conexão muito mais profunda. Entre a pressão pela reputação, o ambiente rural e os desafios pessoais de cada um, a autora constrói um romance que vai além da atração inicial.

Apesar do tom leve e bem-humorado em diversos momentos, Sem Defeitos também traz cenas de intimidade explícitas entre os protagonistas. A obra se enquadra no gênero conhecido como spicy romance (tradução livre: romance picante) e, por isso, é voltada ao público adulto.

Summer e Rhett têm química desde os primeiros capítulos, mas Elsie Silver evita transformar a atração em um atalho para o romance. Antes de qualquer grande declaração, acompanhamos o desenvolvimento da confiança, da parceria e do respeito entre os dois. A relação cresce de forma orgânica, fazendo com que cada aproximação tenha significado, o que torna o casal ainda mais convincente.

Esse cuidado também aparece no ritmo da história. As revelações não se atropelam, os conflitos recebem espaço para amadurecer e cada acontecimento surge no momento em que realmente contribui para a narrativa. Em vez de depender de reviravoltas constantes, a autora confia na progressão natural dos acontecimentos, permitindo que o envolvimento com os personagens aconteça aos poucos, e é justamente essa escolha que faz a leitura fluir com tanta naturalidade.

Personagens que encantam na medida certa

Outro mérito está na construção do elenco de apoio. Muitos romances acabam utilizando personagens secundários apenas como ferramentas para movimentar a trama principal, mas aqui cada integrante ocupa exatamente o espaço que precisa. Os personagens mais carismáticos recebem profundidade suficiente para justificar o afeto que despertam, enquanto aqueles responsáveis pelos conflitos aparecem apenas quando a história exige, sem monopolizar a narrativa ou tornar a leitura cansativa. O resultado é um equilíbrio que mantém o foco no desenvolvimento dos protagonistas sem empobrecer o universo criado pela autora.

Entre os aspectos mais interessantes do romance está a maneira como a dinâmica familiar é construída. Em um gênero que frequentemente associa o crescimento dos protagonistas a famílias completamente desestruturadas, Sem Defeitos apresenta uma abordagem diferente. Apesar dos conflitos envolvendo a irmã e a madrasta – que, inclusive, permanecem em aberto ao final deste volume –, Summer encontra no pai um porto seguro constante. A relação entre os dois é marcada por respeito, carinho e apoio mútuo, ressaltando que o amadurecimento da protagonista não depende exclusivamente do romance.

Essa escolha amplia a história ao mostrar que diferentes formas de afeto podem coexistir. O relacionamento entre Summer e Rhett é importante, mas não ocupa sozinho todo o espaço emocional da narrativa. As relações familiares, os desafios pessoais e o processo de autoconhecimento caminham lado a lado, tornando a protagonista mais complexa e a sua jornada ainda mais convincente.

Um desfecho para devorar as páginas
Imagem: reprodução/Instagram/@scribbubbles

No fim, Sem Defeitos demonstra que um romance marcante vai muito além da tensão romântica. A história encontra seu maior acerto na construção de personagens que evoluem, estabelecem relações baseadas na confiança e fazem o leitor acreditar naquele relacionamento para além das páginas.

Ao inaugurar a série Chestnut Springs, Elsie Silver entrega um universo que desperta curiosidade pelos próximos membros da família Eaton e mostra que, muitas vezes, são os pequenos gestos – como uma conversa sincera ou uma escolha difícil – que transformam uma história de amor em algo realmente memorável.

E você, já se aventurou pelo universo dos romances com cowboy? Compartilhe com a gente através das nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X – e, se você gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!

 

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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura

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Cinema Cultura asiática Notícias

Live action de Blue Lock ganha nova data de estreia

Filme do mangá japonês chega aos cinemas do Brasil em 10 de setembro 

O filme live-action do mangá e anime sensação no Japão e no mundo, Blue Lock, teve sua nova data de lançamento revelada. De acordo com a distribuidora Sato Company, o longa chega aos cinemas brasileiros no dia 10 de setembro.

Foto: divulgação/Sato Company

A história de Blue Lock acompanha a jornada da seleção de futebol japonesa para se reerguer após sua grande derrota na Copa de 2018. A solução que o time encontra para restaurar seu futuro é a busca de um novo artilheiro, o atacante que vai liderar o time nacional rumo à vitória. 

Para encontrá-lo, a Confederação Japonesa de Futebol reúne os 300 jogadores mais promissores em uma batalha por um lugar no time. Vence quem provar que é capaz de trazer a glória ao time japonês. 

Foto: divulgação/Sato Company

O filme live-action do mangá de Muneyuki Kaneshiro e Yusuke Nomura tem direção de Yûsuke Taki (Amor em Águas Turvas, 2023) e roteiro de Tetsuo Kamata (Em uma Terra Muito Distante… Havia um Crime, 2023). 

Foto: divulgação/Sato Company

Já o elenco inclui Fumiya Takahashi (Our Secret Diary, 2023) como o protagonista Yoichi Isagi, e nomes como Masataka Kubota (Tokyo Ghoul, 2011), Kaito Sakurai (Oshi No Ko, 2023), Kyohei Takahashi (And Yet, You Are So Sweet, 2023), Koga Yudai (Watashi Wo Moratte, 2024), ator e vocalista do grupo musical japonês &Team, e muito mais. 

Assista ao trailer do filme:

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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Entrevista | Janaina Tokitaka fala sobre novo livro infantojuvenil, investigações e mistérios

Na entrevista, Janaina Tokitaka apresenta Cora Curiosa, seu novo livro infantojuvenil, e comenta a criação da protagonista, o valor da curiosidade e o processo de escrever para livros e séries

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SOU, primeiro álbum do Soul de Brasileiro, chega às plataformas hoje

Com sonoridade que conecta soul music, samba, MPB, jazz, funk e matrizes afro-brasileiras, o álbum tem participações de Paula Lima, Josiel Konrad e do rapper baiano Hiran

Formado por Negra Silva, José Junior e Ge Vieira, o trio Soul de Brasileiro lança hoje o primeiro álbum, SOU, pelo Selo Toca Discos, com distribuição da Universal Music. O álbum conta com as participações especiais de Paula Lima, do músico Josiel Konrad e do rapper baiano Hiran. Junto com o álbum, será lançado o videoclipe da música Oxum Rabane.

Com mais de uma década de trajetória, o Soul de Brasileiro conecta soul music, samba, MPB, jazz, funk e matrizes afro-brasileiras. Nascidos na Vila Kennedy, zona oeste do Rio de Janeiro, e unidos pela música, inicialmente em igrejas, Ge Vieira, José Junior e Negra Silva descobriram ainda jovens a potência de suas vozes e transformaram esse encontro em um projeto que celebra identidade, pertencimento, ancestralidade, afeto, espiritualidade, resistência e uma constante busca por excelência musical.

Sobre as participações, Negra Silva comenta: “Quando começamos a gravar, tivemos a percepção de que algumas canções se encaixariam com a voz ou o instrumento de artistas com os quais nos identificamos. Para a música em Aí Tem Coisa, que tem esse groove carioca, pensamos no trombone de Josiel Konrad, que trouxe a identidade musical dos anos 1970 que queríamos para a canção”. José Junior complementa: “A Paula Lima é um amor antigo. Quando finalmente nos conhecemos pessoalmente, a conexão foi tão natural que ela aceitou o convite antes mesmo de saber qual seria a música. Em Eu Segui, a Paula trouxe uma emoção muito especial. Já para a gravação de Glória, sabíamos que queríamos um rapper. Depois de ouvirmos o álbum Imundo, do Hiran, sentimos que ele era a voz certa. Ele nos enviou, em tempo recorde, uma poesia poderosa, com sua voz marcante e inconfundível. Ter esses três artistas em SOU é realmente um presente”.

Foto: divulgação/Marcos Hermes

Depois dos singles De Onde Eu Vim, Minha Vibe e Aí Tem Coisa, o álbum Sou reafirma a maturidade criativa do grupo, que construiu uma linguagem própria na qual as vozes assumem protagonismo absoluto. Com direção artística de Constança Scofield e produção musical de Felipe Rodarte, gravado no icônico estúdio Toca do Bandido, o álbum reúne composições autorais que transitam com naturalidade entre o soul brasileiro, o neo soul, a MPB contemporânea, o R&B, o samba e diferentes expressões da música afrodiaspórica, dialogando com referências como Cassiano, Tim Maia, Sandra Sá, Jorge Ben, Marvin Gaye, Lauryn Hill, Jill Scott, Fela Kuti e Erykah Badu, sem abrir mão de uma identidade profundamente brasileira.

“Acho que SOU não fala exatamente do tempo que passou, e sim do que adquirimos com a passagem dele. O álbum reflete quem somos hoje, principalmente nossa humanidade e nossas contradições. Queremos cantar sobre o que vivemos e observamos num Brasil de muitas nuances. Temos um compromisso com o que fazemos artisticamente, até porque, não é nada fácil”, pontua Ge VieiraJosé Junior reforça: “Depois de mais de dez anos de caminhada, nos sentimos mais maduros, mais conscientes das nossas escolhas e mais à vontade com as nossas complexidades. Tudo o que cantamos nasce das nossas vivências, das nossas raízes. É isso que buscamos construir no Soul de Brasileiro: uma música que emocione, represente e conecte as pessoas.”

Constança e Felipe, responsáveis pelo Selo Toca Discos, conheceram o Soul de Brasileiro por ocasião da segunda edição do programa Aceleração Musical Labsonica Toca do Bandido, em 2023, durante o qual o trio participou de um songcamp, gravou três singles, uma live session e um ensaio fotográfico. “O trio assimilou rapidamente cada provocação e estratégia proposta ao longo do processo. Além do talento evidente, demonstrou inteligência artística, abertura para experimentar e uma rara capacidade de transformar direcionamentos em música. Quando chegou a hora de pensar o álbum, eles trouxeram uma safra de composições que aprofundavam justamente a identidade que vínhamos lapidando juntos”, conta Constança. “O resultado é um trabalho estruturado em três grandes eixos: baladas românticas; identidade e ancestralidade; pertencimento e afirmação”, conclui.

Reconhecido pela potência vocal, sofisticação dos arranjos e forte conexão com o público em suas apresentações ao vivo, o trio Soul de Brasileiro encara um grande desafio no dia 12 de setembro, quando se apresenta no Espaço Favela do Rock in Rio, uns dos maiores festivais musicais do planeta. “Esse álbum tem a nossa cara, é fruto da nossa maturidade, da nossa bagagem artística. Estamos prontos pra levar a nossa arte para esse mundão afora”, conclui Negra Silva. 

Sobre o Soul de Brasileiro

Integraram o projeto internacional Playing For Change, ao lado de Gilberto Gil, Manu Chao, Jack Johnson e Stephen Marley, levando a música do trio para uma audiência global.

Estabeleceram parceria artística com Sandra Sá, que produziu e dirigiu musicalmente o EP Ciclo4i, conectando o grupo a um dos maiores nomes da soul music brasileira.

Lançaram o single Diamante, em parceria com a poetisa e atriz Elisa Lucinda, aproximando música e poesia em uma obra que celebra a ancestralidade e a potência da cultura afro-brasileira.

Foram selecionados pelo edital Aceleração Musical LabSonica – Edição Toca do Bandido, um dos principais programas de desenvolvimento de novos artistas da música brasileira.

Destaque no Festival Favela, da CUFA, reconhecendo o Soul de Brasileiro entre os talentos mais representativos da nova música produzida nas periferias brasileiras.

Integraram o espetáculo Meteverso, contemplado por edital da FUNARJ, reafirmando o reconhecimento institucional do projeto.

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Texto revisado por Crystal Ribeiro

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