O show histórico na final da Copa do Mundo virou mais uma prova de que o mundo aprendeu a consumir cultura coreana muito antes de aprender a respeitar pessoas coreanas
No dia 19 de julho de 2026, o BTS entrou para a história ao participar do primeiro show oficial do intervalo de uma final da Copa do Mundo. No MetLife Stadium, em Nova Jersey, o grupo dividiu o palco com Madonna, Shakira, Burna Boy e Justin Bieber, levando Dynamite (2020) para um dos eventos esportivos mais assistidos do planeta. Mais do que uma apresentação, aquele momento simbolizou uma mudança que vem acontecendo há anos: artistas coreanos já não ocupam grandes palcos como uma curiosidade exótica ou um aceno à diversidade. Eles passaram a fazer parte da própria cultura pop global.
@glblctzn If you ask us, @BTS performance at the FIFA World Cup Final Halftime Show was ‘Dynamite’ 🧨💥🥰
Poucas horas depois, porém, o feito deixou de ser a principal conversa nas redes sociais brasileiras. No lugar de críticas à escolha da música, ao formato do espetáculo ou ao desempenho do grupo – discussões perfeitamente legítimas – surgiram ataques à aparência dos integrantes. Eles foram chamados de “afeminados“, tiveram a sexualidade questionada e voltaram a ser alvo de comentários que reduzem homens asiáticos a estereótipos construídos há décadas. Mais uma vez, o debate deixou de ser sobre música para se tornar uma discussão sobre quem merece ocupar determinados espaços.
A influencer Bruna Tukamoto publicou uma reflexão sobre o que aconteceu:
@bruna.tukamoto Refletindo aqui para além do story que viralizou! 📌 Indicações de leituras: 🔗 MOREIRA, Adilson. Racismo recreativo. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. 🔗 MORI, Letícia. ‘Não toleramos mais’: por que velhas piadas estão inflamando debate sobre racismo entre descendentes de asiáticos no Brasil. BBC News Brasil, São Paulo, 4 ago. 2017. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-40816773 . Acesso em: 21 jul. 2026. 🔗 OKOBAYASHI, Hugo. K-POP, MASCULINIDADES E PORNOGRAFIA: entre a pornificação de si e o consumo de outridade. 2023. 109 f. Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2023. 🔗 OKOBAYASHI, Hugo. PORNOGRAFIA GAY E RACISMO: a representação e o consumo do corpo amarelo na pornografia gay ocidental. 2019. 46 f. Monografia (Bacharel em Cinema & Audiovisual). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2019. 🔗 SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. #BTS #Copadomundo #Kpop #Asian #Amarelos
Quem acompanha o BTS sabe que esse roteiro não começou na Copa. O grupo já foi comparado a um vírus por um radialista alemão em 2021, virou alvo de piadas racistas durante a pandemia de Covid-19 e, em 2022, esteve na Casa Branca para discutir o aumento dos crimes de ódio contra pessoas asiáticas nos Estados Unidos. O curioso é perceber que, conforme o BTS crescia, muita gente passou a acreditar que episódios como esses pertenciam ao passado. Bastava olhar para os números, para os recordes e para a expansão da Hallyu para concluir que o preconceito havia sido vencido…nunca foi.
É justamente por isso que Aliens, lançada em março de 2026 no álbum Arirang, chama tanta atenção. A música não nasceu como resposta ao que aconteceu na Copa, mas parece antecipar exatamente esse tipo de reação. Em vez de celebrar apenas o alcance da cultura coreana, ela lembra que visibilidade nunca significou pertencimento. É possível conquistar o centro da indústria do entretenimento e, ainda assim, continuar sendo tratado como alguém que não deveria estar ali. E essa sensação conduz uma discussão muito maior do que o próprio BTS.
Quando o mundo insiste em tratar artistas asiáticos como estrangeiros, mesmo depois de eles conquistarem o centro da cultura pop
Logo nos primeiros versos de Aliens, o BTS fala sobre crescer carregando a sensação de ser visto como alguém de fora. Não é uma reflexão sobre fama, nem sobre o isolamento provocado pelo sucesso. A letra descreve uma experiência muito anterior aos estádios lotados e aos recordes de audiência: a de descobrir que, para muita gente, o simples fato de ter um rosto asiático já basta para ser tratado como alguém que nunca pertence completamente ao lugar onde está.
Quem acompanha a trajetória do grupo reconhece essa sensação desde muito antes de Dynamite , dos Grammys ou da Casa Branca. Durante anos, entrevistas em veículos ocidentais pareciam menos interessadas na música do BTS do que no “fenômeno BTS“. Em vez de discutir composição, produção ou referências artísticas, jornalistas perguntavam quem era quem, por que os integrantes usavam maquiagem ou como conseguiam reunir tantos fãs. O sucesso era frequentemente tratado como uma anomalia, como se milhões de pessoas ao redor do mundo tivessem decidido ouvir sete artistas coreanos sem que existisse uma explicação plausível para isso.
Esse olhar nunca atingiu apenas o BTS. Michelle Yeoh precisou construir uma carreira de décadas até se tornar a primeira mulher asiática a vencer o Oscar de Melhor Atriz por Everything Everywhere All at Once (2022). Ke Huy Quan desapareceu de Hollywood por anos por falta de papéis relevantes antes de voltar ao cinema com o mesmo filme. Manny Jacinto, mesmo após o sucesso de The Good Place (2016–2020), segue falando sobre como homens asiáticos ainda encontram dificuldade para serem vistos como protagonistas românticos. O problema nunca foi falta de talento; foi a insistência da indústria em enxergar artistas asiáticos como exceções.

A própria história recente do entretenimento mostra como o Ocidente costuma confundir reconhecimento com aceitação. Quando Parasita (2019) venceu o Oscar de Melhor Filme em 2020, muitos trataram o prêmio como se Hollywood finalmente tivesse descoberto o cinema coreano. Um ano depois, Round 6 (2021) virou a série mais assistida da história da Netflix. Ainda assim, produções asiáticas continuam sendo apresentadas como novidades, mesmo pertencendo a indústrias que acumulam décadas de sucesso, inovação e público. O discurso muda rapidamente; a maneira de enxergar quem produz essas obras, nem tanto.
Talvez seja justamente por isso que Aliens encontre tanto eco em um episódio como o da Copa. Quando o BTS devolve a palavra “alien” ao público, não está criando uma identidade para si. Está expondo a forma como foi tratado durante toda a carreira. E entender de onde nasce esse estranhamento ajuda a responder outra pergunta: se o mundo inteiro já conhece o “K”, por que ainda parece tão difícil respeitar quem o representa?
O mundo aprendeu a consumir o “K”, mas continua resistindo às pessoas que tornaram esse fenômeno possível
“Everybody know now where the K is“. A frase de Aliens parece simples, mas resume uma transformação que poucos países experimentaram na mesma velocidade que a Coreia. O “K” deixou de funcionar apenas como prefixo de K-pop e K-drama para se transformar em uma marca cultural. Hoje ele aparece na música, na moda, na gastronomia, na beleza, na tecnologia e até na forma como outras indústrias pensam o entretenimento. Mesmo quem nunca ouviu falar em Hallyu provavelmente já assistiu a uma produção coreana, usou um cosmético desenvolvido no país ou ouviu uma música em coreano sem perceber.
Mas esse crescimento não começou com o BTS, e reconhecer isso não diminui sua importância, pelo contrário. Antes deles, artistas como BoA, TVXQ, Super Junior, BIGBANG e Girls’ Generation abriram mercados importantes na Ásia e ajudaram a transformar o K-pop em uma indústria de exportação. Em 2012, Psy mostrou, com Gangnam Style, que uma música cantada em coreano podia dominar o mundo.
O BTS encontrou uma estrada parcialmente construída, mas foi quem a ampliou. O grupo não apenas conquistou mercados onde o K-pop ainda era visto como nicho: mudou a percepção da própria indústria musical. Foi o primeiro ato coreano a liderar a Billboard Hot 100, lotou estádios que artistas asiáticos jamais haviam ocupado, consolidou uma comunidade global de ARMYs e obrigou gravadoras, premiações e plataformas a enxergarem o K-pop como parte permanente da música pop mundial. Quando os fãs dizem que o BTS paved the way, não estão apagando quem veio antes. Estão reconhecendo quem transformou uma porta entreaberta em uma avenida.
Esse crescimento também coincidiu com um momento em que produções asiáticas começaram a romper barreiras históricas. Parasita venceu quatro Oscars em 2020, incluindo Melhor Filme, algo inédito para uma obra em língua não inglesa. Round 6 tornou-se um dos maiores fenômenos da Netflix e deu a Lee Jung-jae o Emmy de Melhor Ator em Série Dramática. Minari (2020) levou a história de uma família coreana imigrante ao centro da temporada de premiações.

Everything Everywhere All at Once colocou uma família sino-americana no protagonismo de Hollywood e transformou Michelle Yeoh na primeira mulher asiática a vencer o Oscar de Melhor Atriz. São histórias diferentes, produzidas em contextos diferentes, mas que revelam uma mesma mudança: artistas asiáticos deixaram de aparecer apenas nas margens do entretenimento internacional.
Só que existe uma diferença enorme entre consumir uma cultura e respeitar as pessoas que a produzem. Basta observar a reação que tantos idols recebem diariamente. O público aprende algumas palavras em coreano, compra álbuns, reproduz coreografias no TikTok e organiza viagens para Seul, mas continua repetindo piadas sobre olhos puxados, dizendo que “todo asiático é igual” ou tratando homens coreanos como menos masculinos. A cultura é celebrada; quem a representa continua sendo alvo de desconfiança. É um consumo confortável, que aceita a estética, mas rejeita a humanidade.
A Copa escancarou exatamente essa contradição. O BTS não foi convidado para preencher uma cota de diversidade nem para representar um país distante. Foi chamado porque, gostem ou não, faz parte do grupo de artistas mais populares do planeta. Ainda assim, bastaram alguns minutos no palco para que velhos estereótipos reaparecessem. E essa reação ajuda a entender por que Aliens vai muito além de uma música sobre identidade: também conversa com uma história de resistência cultural construída muito antes do surgimento do K-pop moderno.
Ao citar Kim Gu, RM lembra que a Hallyu também nasceu de um projeto político e cultural de reconstrução da identidade coreana
Entre todas as referências presentes em Aliens, talvez a mais importante passe despercebida por quem não conhece a história da Coreia. Em determinado momento, RM menciona Kim Gu, uma das figuras centrais do movimento de independência coreano durante a ocupação japonesa (1910–1945). Em seu texto mais conhecido, Baekbeom Ilji, Kim Gu escreveu que não sonhava com a Coreia mais rica nem com a mais poderosa militarmente. O desejo era outro: queria um país admirado por sua cultura e capaz de contribuir para a felicidade da humanidade.

Não é uma citação aleatória. Ao lembrar Kim Gu, RM conecta o sucesso atual da cultura coreana a um projeto que começou muito antes da Hallyu existir como conceito. Durante boa parte do século XX, a Coreia precisou reconstruir sua identidade depois da colonização japonesa, da Guerra da Coreia e de décadas de instabilidade política. A valorização da cultura nacional deixou de ser apenas uma questão artística e passou a fazer parte da reconstrução do próprio país. Décadas depois, a Hallyu se tornaria uma das principais expressões desse processo.
É justamente por isso que o álbum se chama Arirang. A canção tradicional que dá nome ao projeto atravessou períodos de colonização, guerra, separação territorial e migração. Ela ocupa um lugar simbólico na memória coletiva coreana muito antes de existir qualquer indústria de idols. Ao escolher esse título para o primeiro álbum completo após o retorno do serviço militar, o BTS deixa claro que não pretende separar sua trajetória da história cultural da Coreia. O grupo alcançou um nível de fama que permitiria produzir um trabalho totalmente voltado ao mercado internacional. Em vez disso, decidiu voltar às próprias raízes.
Essa escolha também desmonta uma expectativa antiga da indústria ocidental: a de que artistas estrangeiros precisam suavizar sua identidade para alcançar sucesso global. O BTS já lançou músicas inteiramente em inglês, como Dynamite, Butter (2021) e Permission to Dance (2021), mas nenhuma delas explica por que o grupo se tornou um fenômeno. Sua discografia continua profundamente ligada à literatura, à história, à juventude coreana e às contradições sociais do país. Aliens reforça exatamente isso: o reconhecimento internacional não exige abandonar as próprias referências.
Só que existe uma ironia inevitável nessa história. Kim Gu sonhava com uma Coreia respeitada por sua cultura, e esse sonho, em muitos aspectos, tornou-se realidade. O país influencia tendências, movimenta bilhões de dólares e produz alguns dos maiores fenômenos culturais do século XXI. Ainda assim, basta que sete homens coreanos subam ao palco da Copa do Mundo para que parte do público volte a tratá-los como corpos estranhos. É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre identidade nacional e passa a revelar outro problema que acompanha homens asiáticos há décadas: a forma como sua masculinidade continua sendo usada como alvo de ataque.
A masculinidade asiática continua sendo questionada porque o preconceito nunca deixou de enxergar esses homens como “menos homens”
Os ataques direcionados ao BTS depois da final da Copa revelam um padrão que vai muito além da xenofobia. Chamar os integrantes de “afeminados”, questionar sua sexualidade ou dizer que “parecem mulheres” não é uma crítica à estética do grupo. É a repetição de um estereótipo antigo, construído muito antes de o K-pop existir. Durante décadas, homens asiáticos foram retratados pelo entretenimento ocidental como figuras sem desejo, sem vida amorosa ou incapazes de ocupar o lugar tradicionalmente reservado ao herói masculino. Quando não apareciam como mestres em artes marciais ou gênios da tecnologia, eram reduzidos ao papel de alívio cômico. Quase nunca podiam simplesmente ser homens.
Esse imaginário ajuda a explicar por que o BTS desperta reações tão diferentes das direcionadas a artistas ocidentais. O grupo usa maquiagem, acessórios, roupas que transitam entre diferentes referências estéticas e nunca construiu sua imagem a partir da ideia de agressividade masculina. Isso basta para que muita gente conclua que eles são “menos homens”.
A ironia é que essas mesmas características raramente provocam o mesmo tipo de ataque quando aparecem em artistas brancos. Em 2020, Harry Styles estampou a capa da Vogue usando um vestido e foi celebrado como alguém que desafiava padrões da moda masculina. Timothée Chalamet frequentemente aparece em tapetes vermelhos usando peças consideradas delicadas, brilhos ou modelagens pouco convencionais e é tratado como referência de elegância. Não existe problema nisso. O problema é perceber que a leitura muda completamente quando o corpo que veste essas roupas é asiático.
.jpg)
A comparação revela um mecanismo que costuma passar despercebido. Em artistas ocidentais, romper padrões é sinal de modernidade. Em homens asiáticos, muitas vezes basta usar maquiagem para que sua masculinidade seja colocada em dúvida. Não é uma questão de roupa, de cabelo ou de cosméticos. É sobre quem recebe o direito de experimentar diferentes formas de masculinidade sem que isso seja usado como justificativa para desumanizá-lo. O preconceito não nasce da aparência do BTS; nasce do olhar de quem ainda espera que homens asiáticos se encaixem em uma imagem construída por Hollywood ao longo do século XX.
Vale lembrar que a própria Coreia também impõe padrões rígidos de gênero, beleza e comportamento. Não existe sentido em romantizar uma indústria que cobra corpos, juventude e perfeição de seus artistas. Mas reduzir toda essa discussão à ideia de que “homem que usa maquiagem parece mulher” revela uma incapacidade de compreender que masculinidade não é construída da mesma forma em todas as culturas. Julgar artistas coreanos exclusivamente a partir de referências brasileiras ou americanas diz muito menos sobre eles do que sobre quem os observa.
Essa limitação aparece em outro comentário repetido há anos: “eles são todos iguais“. RM, Jin, Suga, j-hope, Jimin, V e Jungkook possuem rostos, vozes, estilos e personalidades completamente diferentes para quem dedica alguns minutos a conhecê-los. A dificuldade de distingui-los não é uma característica dos integrantes, mas de um olhar que nunca aprendeu a enxergar pessoas asiáticas como indivíduos. E é justamente esse processo de desumanização que explica por que a discussão sobre o BTS não termina na música. Ela inevitavelmente leva a uma pergunta maior: quem decide quais artistas pertencem ao centro da cultura pop mundial?
O crescimento da Hallyu mudou a indústria do entretenimento, mas ainda incomoda quem acredita que certos espaços pertencem apenas ao Ocidente
Durante muito tempo, artistas asiáticos foram ensinados a enxergar cada conquista internacional como uma concessão. Participar de uma premiação americana, ser indicado ao Oscar ou aparecer em um programa de televisão dos Estados Unidos era tratado como o ápice absoluto de uma carreira. A lógica era simples: o sucesso só estaria completo depois da validação do Ocidente. O próprio BTS viveu isso durante anos. Antes de liderar rankings, o grupo era frequentemente apresentado como uma curiosidade estrangeira que, talvez, pudesse interessar ao público americano.
A internet começou a desmontar essa lógica. Plataformas digitais permitiram que fãs organizassem comunidades internacionais, traduzissem conteúdos, acompanhassem lançamentos em tempo real e criassem uma circulação cultural que já não dependia exclusivamente das gravadoras ou da mídia tradicional. A ARMY foi decisiva nesse processo. Muito antes de a indústria americana entender o tamanho do BTS, fãs espalhados por diferentes países já transformavam o grupo em um fenômeno global. Quando gravadoras e premiações finalmente perceberam o que estava acontecendo, o movimento já era grande demais para ser ignorado.
Isso não significa que as estruturas de poder desapareceram. O inglês continua sendo privilegiado nas rádios, premiações ocidentais ainda recebem muito mais atenção do que cerimônias asiáticas e Hollywood segue funcionando como uma espécie de centro simbólico da indústria audiovisual. Mas existe uma diferença importante em relação ao passado: artistas asiáticos já não precisam esperar a aprovação dessas instituições para alcançar milhões de pessoas. O reconhecimento deixou de depender exclusivamente delas.
A apresentação do BTS na final da Copa sintetiza essa mudança. A FIFA não convidou o grupo para apresentar uma curiosidade cultural ao público. Também não fez um gesto de inclusão. Convidou um dos maiores artistas do planeta porque ignorar sua relevância seria mais estranho do que colocá-lo no palco. É justamente isso que incomoda parte das pessoas. Enquanto a cultura asiática permanecia restrita a nichos, ela podia ser admirada à distância. O desconforto aparece quando artistas asiáticos passam a disputar protagonismo nos mesmos espaços que, durante décadas, pareciam reservados ao entretenimento ocidental.
Talvez seja por isso que a reação à Copa diga respeito a muito mais gente do que apenas à ARMY. O episódio escancara um conflito que acompanha toda a expansão da Hallyu: o mundo aceitou consumir cultura coreana, mas ainda resiste à ideia de que seus protagonistas já ocupam o centro da cultura pop. E é exatamente essa contradição que faz o refrão de Aliens ganhar um significado ainda mais poderoso.
“Yeah, we aliens”: quando o insulto perde a força porque quem o recebe se recusa a aceitá-lo como ofensa
No refrão de Aliens, o BTS canta “Yeah, we aliens“. À primeira vista, a frase parece uma aceitação do rótulo que tantas vezes foi imposto ao grupo. Mas acontece exatamente o contrário. A música transforma um insulto em denúncia. Em vez de tentar convencer o público de que seus integrantes são iguais aos artistas ocidentais, ela questiona por que eles ainda precisam provar que pertencem ao mesmo espaço. O problema nunca foi o BTS parecer diferente. O problema sempre esteve em quem insiste em tratar a diferença como ameaça.
Essa talvez seja a maior força da faixa. Ela não implora por aceitação, não tenta suavizar a identidade coreana para torná-la mais confortável ao público internacional e nem transforma o preconceito em uma história de superação inspiradora. Existe uma expectativa frequente de que pessoas discriminadas respondam ao racismo com discursos educativos, paciência infinita ou exemplos de resiliência. O BTS não deveria precisar escrever músicas sobre pertencimento, discursar na Casa Branca ou quebrar recordes para provar que merece o mesmo respeito destinado a qualquer artista branco. Respeito nunca deveria depender de currículo.
O episódio da Copa mostra por que essa discussão continua urgente. Não era obrigatório gostar da apresentação do BTS. Houve críticas ao uso de Dynamite, ao formato do show, à presença crescente de espetáculos comerciais em eventos esportivos e até à escolha dos artistas convidados. Tudo isso faz parte do debate público. O problema começou quando a conversa abandonou completamente a música para se concentrar nos olhos dos integrantes, em seus rostos, em suas roupas e em sua masculinidade. Quando a análise deixa de discutir uma performance para questionar se sete homens asiáticos são “homens de verdade”, não estamos mais falando de opinião. Estamos falando de xenofobia atravessada pela homofobia e pelo racismo.
É justamente por isso que reduzir a reação da ARMY a uma defesa apaixonada de seus ídolos é um erro. O que aconteceu depois da Copa ultrapassa o fandom. Amanhã pode ser outro grupo de K-pop, um ator coreano, uma atleta chinesa, um cineasta japonês ou qualquer pessoa asiática que ocupe um espaço tradicionalmente dominado pelo Ocidente. O mecanismo será o mesmo: primeiro o estranhamento, depois a desumanização e, por fim, a tentativa de transformar preconceito em “piada” ou “opinião”. O BTS apenas tornou esse processo impossível de ignorar porque acontece sob os holofotes da maior banda do século XXI.
No fim, talvez Aliens faça uma pergunta muito mais desconfortável do que parece. Se um grupo que vende estádios, lidera rankings, influencia governos, movimenta bilhões de dólares e ajuda a redefinir a indústria da música ainda é tratado como um corpo estranho quando sobe ao palco da Copa do Mundo, o que isso diz sobre o mundo que o observa? A Hallyu conquistou mercados, mudou hábitos de consumo e fez a cultura coreana atravessar fronteiras que pareciam intransponíveis. Mas o sucesso nunca foi sinônimo de respeito. O BTS já pertence, há muito tempo, à história da música pop. Se ainda existe quem olhe para sete artistas coreanos e enxergue alienígenas, talvez os estrangeiros nunca tenham sido eles. Talvez o verdadeiro estranhamento esteja em uma sociedade que aprendeu a consumir tudo o que vem da Ásia, mas ainda resiste a enxergar pessoas asiáticas como protagonistas naturais da própria cultura global.
Leia também: BTS transforma o caos em arte no novo MV de NORMAL
Texto revisado por Kalylle Isse










