No terceiro volume da saga, Pedro Ivo mistura ação, conspiração e conflitos pessoais para mostrar que a fantasia brasileira também tem espaço para criar grandes heróis sem abrir mão da própria identidade
Cuidado! O texto pode conter spoilers.
Quando pensamos em histórias de super-heróis, é quase automático imaginar personagens que nasceram muito longe daqui, protegendo cidades que conhecemos mais pelos filmes do que pela vida real. Por isso, existe algo especialmente interessante em abrir O Cidadão Incomum: Experiência de Quase Morte (2026), terceiro volume da saga escrita por Pedro Ivo, e encontrar uma narrativa que não tenta transformar o Brasil em uma versão genérica dos Estados Unidos para parecer grandiosa.
Acompanhando Caliel em uma nova etapa de sua jornada, o livro mergulha em uma trama marcada pela busca da origem de seus poderes, conspirações políticas, interesses corporativos, experimentos científicos e pela atuação da Organon, organização que infiltra seus interesses na política, na ciência e em diferentes setores da sociedade. É uma história ambiciosa, cheia de mistérios, ação e reviravoltas, mas que nunca perde de vista aquilo que realmente sustenta a leitura: as pessoas envolvidas nesse caos.
Antes mesmo do primeiro capítulo, Pedro Ivo deixa claro qual é sua proposta. Na nota do autor, ele escreve que histórias de super-heróis são, acima de tudo, histórias sobre pessoas comuns tentando lidar com ética, responsabilidade e escolhas difíceis. Não é apenas uma introdução ao universo de O Cidadão Incomum: Experiência de Quase Morte, mas uma espécie de declaração de intenções que acompanha toda a narrativa. Os poderes existem, impressionam e movimentam a trama, mas nunca ocupam um lugar mais importante do que os conflitos internos dos personagens, e essa é uma das maiores qualidades do livro.
A escrita de Pedro Ivo também contribui para isso. A narrativa em primeira pessoa acompanha o jeito inquieto, irônico e, muitas vezes, ansioso de Caliel enxergar tudo ao redor, aproximando o leitor de seus pensamentos sem transformar a história em um grande monólogo. Os capítulos costumam terminar com bons ganchos, os diálogos são rápidos e naturais e existe um ritmo muito próximo do audiovisual, principalmente durante as cenas de investigação e ação.
Ainda assim, o autor encontra espaço para desacelerar quando a história pede, permitindo que momentos mais introspectivos tenham o mesmo peso das grandes sequências de confronto. Em alguns trechos, o excesso de informações e de novos nomes exige um pouco mais de atenção do leitor, mas a narrativa rapidamente reencontra o foco ao trazer tudo de volta para a perspectiva de Caliel.
Essa proximidade fica ainda mais evidente na relação entre Caliel e Eder, um dos grandes destaques de O Cidadão Incomum: Experiência de Quase Morte. Muito mais do que o amigo responsável pela tecnologia e pelas investigações, Eder funciona como um contraponto constante ao protagonista. É ele quem questiona suas decisões, percebe quando algo está errado e, ao mesmo tempo, encontra espaço para aliviar a tensão com comentários bem-humorados. A amizade entre os dois soa genuína porque Pedro Ivo evita transformá-la em uma relação idealizada. Eles discordam, se provocam, brigam e se apoiam, criando diálogos que parecem acontecer entre pessoas que realmente dividem uma longa história juntos.
Lígia também ganha um papel importante na narrativa, principalmente porque a gravidez muda completamente aquilo que está em jogo para Caliel. De repente, a luta deixa de envolver apenas sua própria sobrevivência e passa a colocar em risco a mulher que ama e o futuro do filho que está por vir. O mais interessante é que Pedro Ivo não reduz Lígia à função de alguém que precisa ser protegida.
Ela questiona Caliel, toma decisões difíceis e encara a situação de maneira muito mais pragmática do que ele, chegando a considerar a ajuda da própria Organon quando percebe que talvez essa seja a única forma de garantir uma gestação segura. Essa diferença de perspectivas cria alguns dos diálogos mais fortes do livro e reforça que os conflitos emocionais têm tanto peso quanto qualquer batalha.
É justamente por causa de Lígia que a presença de Regina Albuquerque se torna ainda mais inquietante. Regina está longe da figura clássica da vilã que resolve tudo pela força. Sua ameaça vem da influência, da capacidade de manipular pessoas e do controle que exerce sobre a Organon, organização infiltrada em diferentes setores da sociedade.

Quando a gravidez de Lígia passa a depender da estrutura médica ligada à própria Organon, Pedro Ivo cria um dos conflitos mais interessantes do livro: Caliel precisa confiar justamente na mulher que representa tudo aquilo contra o que vem lutando. A partir desse momento, a tensão deixa de existir apenas durante as cenas de ação e passa a acompanhar cada decisão tomada pelo protagonista.
Outro personagem que merece destaque é Tito. Seu jeito debochado, a linguagem descontraída e as ilusões que cria fazem dele uma presença imprevisível na história, capaz de transformar uma conversa comum em algo completamente desconcertante. Ao mesmo tempo, Pedro Ivo toma cuidado para não deixá-lo preso apenas ao humor. As marcas físicas que carrega e a revolta diante das escolhas de Caliel mostram que Tito também é resultado da violência provocada pela Organon.
Quando os dois entram em conflito, a discussão deixa de ser apenas sobre heróis e vilões e passa a refletir diferentes formas de lidar com trauma, perda e sobrevivência. Essa complexidade também aparece em Jac, personagem que desafia a ideia de um conflito dividido apenas entre mocinhos e vilões. Ao longo da narrativa, Pedro Ivo mostra que boa parte de seus personagens ocupa zonas morais cinzentas, reforçando a ideia apresentada logo na abertura do livro de que a vida dificilmente se resume a escolhas completamente certas ou completamente erradas.
Talvez o maior acerto de O Cidadão Incomum: Experiência de Quase Morte seja justamente entender que poderes extraordinários não tornam ninguém automaticamente extraordinário. Caliel continua sendo um personagem movido pelo luto, pelo medo, pela culpa e, principalmente, pelo peso das responsabilidades que surgem conforme sua vida muda. A chegada da paternidade faz com que seus poderes deixem de representar apenas um fardo pessoal e passem a levantar dúvidas sobre o futuro da própria família, ampliando um conflito que vai muito além das batalhas físicas.
Os momentos em que suas emoções interferem diretamente em suas habilidades são alguns dos mais interessantes do livro, porque deixam claro que seus poderes não representam liberdade, mas também um enorme peso. Pedro Ivo consegue transformar conflitos internos em parte da própria ação, fazendo com que a fantasia nunca se distancie completamente da experiência humana.
Também chama atenção a confiança do autor na identidade da obra. O Cidadão Incomum: Experiência de Quase Morte não tenta esconder que é uma história brasileira para parecer mais universal. A política, a desigualdade, a influência de grandes organizações e até a maneira como os personagens se relacionam pertencem claramente ao Brasil, e isso faz diferença em um gênero que, por muito tempo, pareceu reservado a outros países. Em vez de reproduzir fórmulas já conhecidas, Pedro Ivo constrói um universo que conversa com referências do gênero, mas encontra personalidade justamente por assumir suas próprias raízes.
No fim, O Cidadão Incomum: Experiência de Quase Morte deixa a sensação de que a fantasia brasileira ainda tem muito espaço para crescer. Não porque tente competir com grandes franquias estrangeiras, mas porque entende que nossas histórias, nossos personagens e nossos conflitos já são interessantes o suficiente para sustentar uma grande saga. Se esse é o caminho que Pedro Ivo pretende seguir daqui para frente, Caliel certamente ainda tem muito a dizer.
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Texto revisado por Kalylle Isse










