Em sua primeira passagem pela América do Sul, artistas ligados à K-ARTS falam sobre yeonhui, formação de novas gerações e o encontro da tradição coreana com o público brasileiro
Muito antes de o K-pop e os K-dramas ajudarem a transformar a Coreia do Sul em uma potência cultural, música, dança, teatro e performances populares já contavam histórias do país por meio do yeonhui, termo que reúne diferentes manifestações das artes tradicionais coreanas. Foi um pouco desse universo que o público brasileiro pôde conhecer de perto durante o Festival da Cultura Coreana, em São Paulo.
Formado principalmente por graduados e estudantes do Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Universidade Nacional de Artes da Coreia (K-ARTS), o Grupo Hannuri Yeonhui leva aos palcos expressões como samulnori, talchum, jultagi, teatro de bonecos, dança e outras performances tradicionais. A passagem pelo Brasil marcou também o primeiro encontro do grupo com o público da América do Sul.
Em entrevista exclusiva, integrantes do Grupo Hannuri Yeonhui e o professor Kim Wonmin conversaram sobre a formação de jovens artistas, o desafio de manter tradições vivas sem deixá-las presas ao passado e o espaço que a cultura tradicional vem conquistando enquanto a Hallyu desperta a curiosidade de novos públicos pela Coreia. Eles também falaram sobre a recepção calorosa dos brasileiros e revelaram que já existe vontade de voltar ao país, inclusive para uma futura colaboração com artistas brasileiros.
Entretetizei: Para começar, vocês poderiam apresentar o Grupo Hannuri Yeonhui e contar um pouco sobre a trajetória de vocês?
Kim Wonmin (professor do Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Universidade Nacional de Artes da Coreia): O Grupo Hannuri Yeonhui é uma organização formada principalmente por graduados e alunos do Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Universidade Nacional de Artes da Coreia (K-ARTS). Sua característica principal é permitir que formados e alunos da graduação deem continuidade juntos às suas atividades nas artes cênicas.
Centrados no yeonhui, temos trabalhado com diversos gêneros da performance tradicional, como samulnori, talchum, dança das máscaras, rituais xamânicos, musok, caminhada na corda bamba, jultagi, e teatro de bonecos, apresentando-nos em vários palcos na Coreia e no exterior. Através da nossa participação no Festival da Cultura Coreana no Brasil, estamos nos encontrando com o público sul-americano pela primeira vez.
E: Como surgiu o interesse de cada um de vocês pelas artes tradicionais coreanas?
Oh Jungmin: Originalmente, minha formação era em gayageum. No entanto, por acaso, assisti a uma apresentação de samulnori e achei aquilo tão incrível que tomei a decisão: “Tenho que fazer isso!”. Foi assim que entrei no caminho do samulnori.

Lee Seunggi: Tive meu primeiro contato com o samulnori através das atividades de um clube escolar. Conforme participava do clube, cresceu em mim o desejo de seguir essa atividade de forma cada vez mais profissional. Como resultado, ingressei na Escola Secundária Nacional de Artes Tradicionais, trilhando o caminho como especialista na área.
E: O trabalho de vocês reúne música, dança e performances acrobáticas. Como funciona a preparação para conseguir trabalhar com tantas expressões diferentes no palco?
Kim Gwanhyeong: O próprio currículo do Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Universidade Nacional de Artes da Coreia é composto por disciplinas que exigem a assimilação de muitos gêneros. Existem 11 matérias obrigatórias da especialidade, e a grade curricular é estruturada para que possamos executar diretamente diversos gêneros, como a música camponesa, nongak, de cada região, dança das máscaras, talchum, rituais xamânicos, musok, e as artes dos grupos de artistas profissionais.

É um processo em que aprendemos o conjunto total da arte conhecido como “música, canto, atuação e dança”, ak-ga-mu-hui. Com base nessa fundação consolidada desde a universidade, preparamos nossos espetáculos conciliando o treino individual de cada modalidade com ensaios em grupo para alinhar a harmonia coletiva.
E: Para você, qual é o papel e o significado da Escola Nacional de Artes da Coreia (K-ARTS) na formação de jovens artistas que desejam atuar no campo das artes tradicionais coreanas?
Kim Wonmin: O Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Escola Nacional de Artes da Coreia é a única instituição de ensino superior no país a educar sistematicamente todas as modalidades de yeonhui. Ela ajuda os jovens artistas a adquirirem habilidades individuais e teoria de forma simultânea, além de desenvolver a capacidade de reinterpretar a tradição de maneira contemporânea.
E: Em um momento em que a cultura popular coreana se torna cada vez mais conhecida mundialmente, como você enxerga o papel da jovem geração na preservação e divulgação da cultura tradicional coreana?
Jung Dana: Com a onda Hallyu, movida pelo K-pop, K-dramas, K-food, entre outros, a expansão dessa cultura popular tem levado, naturalmente, a um interesse pela cultura tradicional coreana. O redescobrimento do hanbok e do sentimento cultural único da Coreia são exemplos representativos disso.
Dentro desse contexto, como uma jovem artista de yeonhui, tenho o desejo de contribuir para divulgar amplamente a arte pura do nosso país, a música tradicional, gugak, por todo o mundo.

E: Como surgiu a oportunidade de vir ao Brasil e participar do Festival da Cultura Coreana?
Kim Gwanhyeong: Participamos deste Festival da Cultura Coreana a convite da Korea Creative Content Agency (KOCCA) e do Centro Cultural Coreano no Brasil.
E: Como foi a experiência de se apresentar pela primeira vez para o público brasileiro? O que mais chamou a atenção de vocês nessa passagem pelo Festival?
Park Eungyoung: As reações calorosas e o entusiasmo do público brasileiro foram o que mais me impressionou. O público vibrou de forma especial em apresentações visualmente intensas, como a Dança do Leão, sajachum, e o girar do chapéu com fita longa, yeoldubaet sangmo-dorigi. Senti novamente que, mesmo falando línguas diferentes, é possível se comunicar apenas através do ritmo e do movimento.
E: Depois dessa primeira experiência no país, vocês gostariam de voltar ao Brasil? E quais são os próximos projetos do grupo?
Park Juhwan: Desta vez, ficamos no Brasil por pouco tempo, então foi uma pena não termos conseguido realizar uma colaboração com grupos artísticos locais. Se houver uma oportunidade no futuro, adoraríamos colaborar com artistas e grupos do Brasil para promover o intercâmbio cultural e, juntos, criar e levar ao palco um grande espetáculo.

Você já conhecia esse grupo? Compartilha com a gente nas redes sociais do Entretetizei (Facebook, Instagram e X) e nos siga para não perder nenhuma novidade do K-pop!
Leia também: Não é dorama! A Coreia se libertou do Japão há 81 anos, está na hora de aprender a falar K-drama
Texto revisado por Alexia Friedmann










