Em parceria com hospital coreano, Suga desenvolveu um programa de tratamento que usa a música para ajudar crianças a se comunicarem
No começo desta semana, o hospital sul-coreano Severance anunciou uma parceria com Suga, do grupo BTS, na criação de um centro de tratamento voltado para crianças e adolescentes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Batizado com o nome real do artista, o Centro de Tratamento Min Yoongi foi inaugurado na segunda (23), em Seul, e foi financiado com os ₩5 bilhões (cerca de R$20 milhões) doados por Suga ao sistema de saúde Yonsei, que gerencia o hospital. A cerimônia marcou a primeira aparição do músico desde que foi oficialmente dispensado do serviço militar no domingo (21).

O início do projeto
Em novembro de 2024, ainda enquanto prestava o serviço social obrigatório (alternativa aos homens sul-coreanos que, por motivos de saúde, não podem se alistar no exército), Suga entrou em contato com a professora Cheon Keun-ah, autoridade na área de psiquiatria infantil do hospital Severance.
O encontro, segundo a professora, foi motivado por uma vontade clara: sabendo que a principal causa de morte entre adolescentes sul-coreanos é o suicídio, Suga teria buscado a professora Cheon para saber o que poderia fazer para contribuir com uma solução.
Além disso, o músico também disse ter um amigo de infância com deficiência cognitiva e que, a partir desse contato, entendeu a necessidade de atenção e suporte social para questões de saúde mental na Coreia do Sul.
Em um vídeo disponibilizado no YouTube do hospital Severance, a professora Cheon conta que ficou surpresa por Suga ter lido suas pesquisas sobre TEA e com o quanto ele já conhecia sobre o funcionamento do cérebro e sobre saúde mental. O interesse e a dedicação do cantor foi o que levou os dois a começarem a criar o programa MIND.

Como funciona o programa?
Desenvolvido ao longo de sete meses, o programa MIND (Música, Interação, Network e Diversidade) pretende ajudar crianças e adolescentes autistas a se tornarem independentes socialmente e a desenvolverem habilidades de comunicação através da música. Além disso, busca incentivar pesquisas e romper com estigmas e preconceitos sobre o TEA; ainda muito presentes na sociedade sul-coreana.
Após longo período de estudos preliminares, os testes do programa começaram em março deste ano e foram realizadas 10 sessões de cerca de 90 minutos cada aos finais de semana. Segundo Cheon, Suga participou de todas as sessões como terapeuta assistente voluntário (por estar prestando o serviço social em vez de militar, Suga tinha seus finais de semana livre).

Durante o programa, as crianças escolhiam dentre uma variedade de instrumentos para aprender e para tocar em grupo. Suga deixava que elas conduzissem as sessões, se adequando ao nível delas e incentivando as crianças a se expressar através dos ritmos e das melodias que criavam.
A professora Cheon contou sobre uma sessão em particular na qual, enquanto as participantes escreviam cartas, Suga tocava violão de acordo com o ritmo da fala das crianças, acelerando ou desacelerando, para que elas pudessem “experienciar língua e música se misturando”.

Resultados do programa
Essas sessões piloto já trouxeram resultados promissores. Crianças que demonstravam limitações na comunicação começaram a se expressar através da música e da composição de letras.
A professora ressaltou a importância desses resultados e revelou o interesse do hospital Severance em ampliar o programa para desenvolver mais projetos de terapia com música.
“Ao longo dos últimos sete meses de trabalho voluntário e preparação deste programa com a professora Cheon, eu percebi como a música pode ser uma ferramenta poderosa para expressar sentimentos e se conectar com o mundo” disse Suga. “Participar da jornada dessas crianças foi uma grande honra e continuarei a fazer a minha parte para que mais crianças possam ser incluídas na nossa sociedade.”
O exemplo do artista já está sendo bastante significativo. No dia seguinte ao anúncio da parceria, o centro de tratamento já havia recebido mais de ₩200 milhões (cerca de R$820 mil) em doações de fãs.

Suga e o histórico de preocupação com saúde mental
Ainda que a notícia seja motivo de orgulho, ela não foi recebida com surpresa pelo ARMY (fandom do BTS), que vê o artista centralizar questões de saúde mental desde o começo de sua carreira.
Durante a pandemia, em 2020, Suga criou o Suga Honey FM 06.13, um programa de rádio em que ele respondia a perguntas, ouvia desabafos e dava conselhos aos fãs. Em um dos episódios, Suga revelou que estava estudando psicologia e filosofia, e que tinha interesse em se licenciar como psicólogo. “Quando conheço pessoas como eu, tem coisas que quero falar para elas. Penso muito sobre isso. Quando as vejo, quero poder ajudá-las.”
Além disso, em uma entrevista para a Entertainment Weekly, Suga falou sobre a importância de celebridades usarem sua influência para desmistificar discussões sobre depressão, por exemplo, ajudando a tornar transtornos mentais “cada vez mais aceitos”, sobretudo na sociedade sul-coreana, que ainda enxerga esses temas com muito estigma.
A música como terapia
Nesse sentido, Suga ajudar a criar um programa de tratamento que incentiva o desenvolvimento da comunicação através da música parece uma consequência natural da própria história do artista e do papel que a música teve no seu amadurecimento.
Em 2016, Suga lançou sua primeira mixtape solo, chamada Agust D. O projeto soa como um diário, escrito com uma honestidade e um ressentimento quase sufocantes.
Particularmente, na música The Last, Suga revela sofrer com depressão, comportamento compulsivo, fobia social e já ter tentado suicídio quando mais jovem.
Nos seus projetos solo subsequentes, D-2 (2020) e D-Day (2023), o rapper retomou esses temas sob diferentes perspectivas, já em outro lugar emocionalmente.
“Minha música antes era cheia de raiva e confrontações, mas agora ela parece mais suave”, explicou o rapper em uma conversa com a cantora IU, em 2023. “Hoje, eu estou em paz e bastante estável mentalmente.”
Apesar de ainda tematizar alguns dos traumas que conduziram o primeiro álbum, em D-Day Suga olha para o passado com muito mais leveza. Em seu documentário SUGA: Road to D-Day (2023), ele explicou que a proposta do álbum era justamente “se libertar de pensamentos negativos”.
Na faixa AMYGDALA, por exemplo, Suga usa a imagem da amígdala, parte do cérebro responsável pelo processamento de emoções como o medo, a raiva e a ansiedade. Essa estrutura armazena memórias ruins, para que possamos aprender com traumas e conseguir responder a situações semelhantes no futuro.
A música é uma “jornada por memórias”, em que Suga pede à sua amígdala para que o ajude a processá-las. Em vez de expressar raiva e ressentimento, que predominavam em Agust D, AMYGDALA retoma o passado de forma terapêutica, mesmo que ainda seja dolorido.
“Tenho mudanças de humor enormes quando estou trabalhando nessa música. Para compô-la, preciso reviver algumas lembranças desagradáveis.” Explicou o rapper em seu documentário. “Mas é um processo muito importante, faz parte do tratamento para trazer de volta as lembranças ruins do passado e aprender a controlá-las.”
Se em AMYGDALA Suga resgata seu passado para fazer as pazes com ele, em Snooze (feat. Ryuichi Sakamoto, WOOSUNG of The Rose), nona faixa de D-Day, o artista finalmente se torna alguém que pode ajudar pessoas como ele.
Em Snooze, ele pede a todas as pessoas que têm sonhos para não terem medo e não sofrerem como ele sofreu, pois tudo ficará bem. “Quando tudo passar, se tornará uma memória e um aprendizado”, ele canta. “Estarei torcendo por você, quando e onde quer que estejam.”
Centro de Tratamento Min Yoongi
Suga compôs uma trilogia do seu amadurecimento através da música, começando de um lugar de profunda mágoa, raiva e solidão em Agust D; se tornando alguém mais compreensivo consigo mesmo quatro anos depois, mas ainda guardando muita dor e arrependimentos em D-2; até finalmente olhar no espelho e não enxergar dor em D-Day.
“Eu condenso milhões de pensamentos e os transformo em letras de música”, explicou Suga em seu documentário.
De certa forma, Agust D nos mostra que, por trás do idol, Suga já foi como muitas dessas crianças e adolescentes que hoje busca ajudar.
Em AMYGDALA, Suga diz que “Os desafios sem fim falharam em me matar, e de novo eu floresço como uma flor de lotus.”
O Centro de Tratamento Min Yoongi é consequência da história do artista que quer evitar que outras crianças sofram com dores parecidas com as suas, para que também tenham a chance de florescer.
Para isso, ele articula a ferramenta que melhor conhece: a música.

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Texto revisado por Karollyne de Lima










