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Foto: divulgação/Marilha Galha

Entrevista | Entre palcos e câmeras: a força e os caminhos de Lorrana Mousinho

Atriz comenta sua chegada às novelas, o processo de construção da personagem e os bastidores de uma trajetória marcada por persistência e paixão pela arte

Escrito por: Vitória Oliveira

Construir uma carreira artística no Brasil exige mais do que talento. É preciso resistência, versatilidade e uma dose constante de reinvenção. Lorrana Mousinho é um retrato vivo dessa realidade. Transitando entre a atuação, o ensino e a preparação de elenco, ela vem consolidando uma trajetória marcada pela profundidade de seus processos e pela entrega em cada projeto que assume.

Sua estreia no audiovisual, com Três Graças, representa não apenas um novo capítulo profissional, mas também a materialização de anos de dedicação silenciosa, estudo e persistência. Em meio aos desafios e às incertezas comuns à profissão, Lorrana viu uma oportunidade surgir de forma inesperada, resultado de um trabalho consistente que, mesmo quando parecia invisível, estava sendo observado.

Nesta entrevista, a artista reflete sobre os bastidores dessa conquista, a construção de sua personagem e os atravessamentos entre suas múltiplas funções no teatro e no audiovisual. Com franqueza, ela também compartilha as complexidades de viver da arte e os desejos que movem seus próximos passos. Confira: 

Foto: divulgação/Ernesto Baldan

Entretetizei:  Você vem construindo uma trajetória sólida como atriz, professora de teatro e preparadora de elenco. Como essas diferentes frentes da sua carreira influenciam sua atuação diante das câmeras?

Lorrana Mousinho: Eu acho que todas as experiências que a gente vive na vida se comunicam e acabam compondo o nosso trabalho como atores e atrizes. A professora e preparadora pensam muito em caminhos, meios, práticas que envolvem a atuação. Como se disponibilizar para o trabalho, afinal? De que modos? Uma vez que também sou atriz e vivo na pele essa realidade, consigo pensar nesses mecanismos como quem os percebe de dentro e isso transforma a minha professora e a interação com os meus alunos. Ao mesmo tempo, quando atuo, a professora está sempre ali, me ajudando a entender o meu processo, a entender os colegas, traduzindo os acontecimentos pra mim e me auxiliando a construir o que funciona pra mim como atriz. Um trabalho ilumina o outro. 

E: Estrear em um projeto como Três Graças, com texto de Aguinaldo Silva e direção de Luiz Henrique Rios, traz um peso e uma responsabilidade especiais. Como recebeu esse convite?

LM: Sim, eu dei uma sorte muito grande de minha primeira novela ser uma obra que tem ganhado o público e que conta com um time de artistas e técnicos de primeira em todos os setores. Começar na faixa das 21h, numa obra de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva é algo imenso. A equipe de direção orquestrada pelo Rios com tanta mestria é maravilhosa, inspiradora e dedicada. Que time, hein. Não tem como não elogiar todos sempre. 

Sobre o convite, eu estava participando de um workshop da preparadora de atores norte-americana Ivana Chubbuck. Também sou professora da metodologia dela de trabalho no Brasil, compondo o grupo da Marina Rigueira, que foi quem trouxe essa metodologia para o país. Era um palco quente, na plateia havia a presença de muitos produtores de elenco e diretores, eu sabia que precisava mandar bem, que era o espaço ideal para que eu pudesse mostrar o meu trabalho. Estou nessa desde criança, pra mim não era só mais um workshop, era um tudo ou nada, valia muita coisa mandar bem ali naquele palco, e rolou. Consegui fazer uma cena que se destacou, o meu trabalho como atriz se destacou muito também. Já no dia seguinte, o Guilherme Gobbi, produtor de elenco da novela, me chamou para fazer uma participação, que foi ótima, em Família é Tudo. Também no dia seguinte fui chamada para preparar meu primeiro longa e recebi mensagens de vários produtores de elenco elogiando o meu trabalho, produtores com os quais eu sempre tentei me articular, mas nunca tinha conseguido respostas. Os famosos e-mails com materiais que os atores mandam e nem recebem um “Ok, recebido” de volta. Eu achei que uma porta estava por se abrir a partir daí, mas não (risos), um ano se passou, comecei a sentir novamente a velha sensação de nadar para morrer na praia, fui afundando e… o convite para a novela surgiu, das mãos do Gui, um belo dia, do nada. Ele lembrou do meu trabalho um ano depois, pegou um vídeo de cadastro que eu tinha na Globo e sem que eu soubesse apresentou meu trabalho com esse vídeo à equipe de direção, produção e etc., fui escolhida por unanimidade. Tem coisas que são para ser, né. 

E: Três Graças representa sua estreia em novelas. Como você enxerga esse marco dentro do caminho que vem construindo até aqui?

LM: Pra mim está sendo um verdadeiro divisor de águas. Fazer uma novela da Globo no Brasil, ainda mais na faixa das 21h, é algo muito importante. Eu cresci vendo novelas; mesmo que hoje haja os streamings, uma novela tem um peso muito grande na trajetória de um ator, ainda mais uma novela de Aguinaldo Silva. Quando você não passa por novelas, a sua trajetória como atriz se torna bem mais complexa, existe uma dificuldade na abertura de caminhos para trabalhos. Mesmo o próprio teatro, que sempre fiz, se abre mais pra você em relação à frequência de público e possibilidade de patrocínio se você vem da TV. Através dela você consegue trabalhar com mais dignidade e conforto, começa a fazer parte dos circuitos de premiação, você é bem recebida antes mesmo de saberem se a peça é boa ou não. A nossa carreira tem muitas camadas, um terreno espinhoso de se estar, fazer arte é uma coisa, viver dela é outra totalmente diferente. Não temos estrutura adequada para mantermos a nossa vida ou planejamento de carreira. Isso é uma realidade com a qual 99% dos artistas convivem, um olho dorme e o outro se mantém acordado pensando no próximo dia, é um problema que atinge toda a nossa classe, raríssimas exceções não fazem parte dessa realidade. Existe toda uma glamourização, né, que não corresponde à realidade. Espero que após essa experiência em Três Graças os caminhos continuem se abrindo para mim profissionalmente. Podem sufocar a artista, fiquem à vontade (risos). 

Foto: divulgação/Marilha Galla

E:  Cláudia divide o tempo entre o trabalho e os estudos para prestar vestibular para Medicina. O que mais te tocou na construção dessa personagem que carrega tantos sonhos e responsabilidades?

LM: Então, já descobrimos que essa primeira faceta da Cláudia era algo construído para encobrir a realidade, ela estava na casa a mando de Rogério, como uma espécie de espiã, para levar informações da casa da vilã pra ele. O que mais me toca em relação à Cláudia é a maneira como ela arrisca até mesmo a própria vida em prol de fazer justiça e daquilo em que acredita. Porque ter estado esse tempo todo na casa de pessoas que são capazes de matar, é muito risco. E ela ainda continua se arriscando. Sempre crio para mim, internamente, quais seriam as motivações mais profundas dela pra fazer isso, pra estar tão engajada nessa empreitada; para mim é algo além de estar sendo paga para executar uma função, tem algo a mais, mas nada revelado pelo texto ainda. Agora que estamos nessa reta final, espero que haja reviravoltas nesse sentido para ela também. 

E: Como foi o processo de preparação para viver essa realidade de cuidadora e estudante? Você buscou referências ou realizou alguma imersão específica?

LM: Eu tenho parentes que foram cuidadoras e conversei com algumas cuidadoras também. Pesquisei bastante sobre o tema pra conseguir construir essa realidade. E sobre a dupla jornada, é muito semelhante à minha vida, sou professora de teatro também, ao longo da minha vida sempre acumulei diversos empregos. Lembro bem dos dias nos quais dava aula o dia todo e ao final, ainda tentava reservar forças pra conseguir ensaiar minhas peças. Então, essas jornadas duplas e triplas são muito familiares pra mim. Fui cuidando de construir as especificidades da personagem, qual história tem por trás dela e quais seriam as suas motivações mais profundas pra se comportar como ela se comporta. Uma parte o texto entrega por meio de dados reais, outra a gente inventa a partir desses dados. Tenho páginas e mais páginas de histórias e detalhes que criei e recriei para Cláudia, à medida que mais informações sobre ela iam chegando.

E: Existe algum ponto de identificação entre você e a Cláudia, especialmente nessa busca por crescimento e novos caminhos?

LM: Considero a Cláudia uma personagem obstinada e isso é uma força que carrego em mim também. Às vezes, tendo a não valorizar esse aspecto em mim, invalidando minhas próprias lutas, mas quando paro para ser mais justa comigo, consigo perceber o tamanho da minha força para mover meus projetos, estudar, realizar meus sonhos, fazer o que acredito na minha vida profissional e na minha vida pessoal. Tenho uma sensibilidade muito grande, às vezes já fui chorando, já fui com medo, mas sempre, sempre fui. Reconheço essa potência em mim e acho que a Cláudia me inspira nesse lugar, me incentiva ainda mais nessa direção. A não desenhar fugas. 

Foto: divulgação/Ernesto Baldan

E:  Além da atuação, você também atua como preparadora de elenco. Essa experiência mudou a forma como você encara direção e construção de cena em um set de novela?

LM: Com certeza. Eu costumo dizer que a professora/preparadora caminha de mãos dadas com a atriz. Eu amo estudar, amo processos de atuação, amo saber profundamente sobre o que se passa com os atuantes quando fazem os seus trabalhos, sou meio viciada nisso (risos). Quando estou trabalhando como atriz, consigo perceber com mais clareza meus processos e nomeá-los, graças à professora. E quando estou como professora, consigo ter a sensibilidade de quem vive por dentro aquilo que tenta comunicar aos alunos, detalhes que só quem vive a profissão sabe. Uma função ilumina a outra, ambas se complementam e se misturam e as duas sou eu, nem mais, nem menos. 

E: Olhando para os próximos passos da sua trajetória,  quais desafios artísticos ou tipos de personagens você tem vontade de experimentar?

LM: Eu amo personagens viscerais e marginais. Nesse momento, quando penso em personagem, especificamente, me brilham os olhos as bêbadas, prostitutas, as excluídas, que funcionam como um contraponto a tudo o que é conservador e nos fazem refletir sobre esse lugar. E sobre mais desafios artísticos, quero fazer outras novelas em papéis ainda mais desafiadores. Eu nunca fiz um filme como atriz, gostaria de ter essa experiência, de expandir no audiovisual. E seguir fazendo teatro, tenho muitos projetos pra tirar do papel. Quero ser uma atriz que circula pelo teatro, pelo audiovisual, por personagens próximas de quem eu sou, distantes de quem eu sou, quero seguir fazendo. Que é o que fiz até hoje, mas com uma abertura de caminhos maior. Agora que eu vou seguir, é fato. Eu amo esse trabalho, pra mim não tem outro jeito a não ser seguir. Então, vamos.

 

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Texto revisado por Angela Maziero Santana

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