Apesar de ser uma prática historicamente associada à escassez e ao trauma, o consumo de carne de cães e gatos levanta sérias questões éticas e precisa ser superado com respeito à cultura, mas com firme compromisso com os direitos dos animais
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Quando se fala em Ásia, principalmente em Coreia do Sul e Coreia do Norte, um dos tópicos que mais gera polêmica fora do continente é o consumo de carne de cachorro e, em casos mais raros, de gato. Vídeos circulam na internet mostrando animais em jaulas, pratos com nomes diferentes e mercados de rua que, para o olhar ocidental, beiram o insuportável. Rapidamente, a indignação toma conta: pedidos de boicote, hashtags exigindo proibições, petições online em defesa dos animais. Mas, por trás da imagem chocante, existe um enredo muito mais complexo,que envolve guerra, fome, trauma histórico, desigualdade e transformações culturais em andamento.
Ignorar esse passado e tratar a prática exclusivamente como aberração cultural é uma forma de desumanizar populações inteiras, reduzindo suas escolhas alimentares ao exotismo e à repulsa. Em um mundo globalizado, onde hábitos culturais se entrelaçam com história e estrutura social, é fundamental entender que nem todas as práticas nascem de livre arbítrio. Muitas vezes, o que parece ser uma “tradição cruel” foi, na verdade, uma medida de sobrevivência forçada, nascida do colapso político e da escassez absoluta.
Falar sobre isso não significa normalizar ou defender uma prática que, aos olhos de muitos, é moralmente inaceitável. Mas também não se pode abordar o tema de forma rasa, limitada ao choque ou à raiva. A carne de cachorro e gato foi, por muito tempo, um recurso de sobrevivência em momentos extremos. Ignorar esse passado, ou usá-lo como munição para discursos racistas, só atrasa as mudanças que já estão acontecendo, e que precisam continuar.
É nesse ponto que a crítica perde sua eficácia: quando deixa de ser ferramenta de transformação e vira instrumento de julgamento. Se queremos ver mudanças reais, precisamos compreender de onde vêm essas práticas, quem as sustenta e, principalmente, quem já está tentando transformá-las por dentro. A mudança cultural é sempre mais lenta do que gostaríamos, mas ela acontece, especialmente quando há escuta, empatia e contexto.
Essa escuta começa entendendo que o consumo de carne de cachorro não surgiu como escolha cultural deliberada. Ele foi, sobretudo, uma consequência brutal de um passado violento e faminto.

Comer carne de cachorro não foi uma escolha: foi uma consequência de guerra, fome e ocupação
A península coreana tem uma história profundamente marcada por conflitos e ocupações. Sob o domínio japonês entre 1910 e 1945, a Coreia enfrentou forte repressão cultural e escassez alimentar. Com a eclosão da Guerra da Coreia (1950–1953), o país foi ainda mais devastado. Milhões de pessoas morreram, famílias foram separadas e a península foi dividida ao meio, dando origem à Coreia do Sul e à Coreia do Norte. A fome generalizada se estendeu por anos, e comer qualquer fonte de proteína possível, inclusive carne de cachorro, não era uma opção exótica: era necessidade.
Esse passado traumático moldou as decisões alimentares de uma geração inteira. Em tempos em que não havia acesso a carne bovina, suína ou frango, cães e gatos, por mais difícil que pareça, foram incluídos na dieta como último recurso. Esse tipo de prática não foi exclusividade coreana: em contextos de guerra, fome extrema e colapso econômico, populações em diversas partes do mundo recorreram a fontes alternativas de proteína. A diferença é que, no caso coreano, parte dessas práticas permaneceram por mais tempo, alimentadas por fatores culturais, sociais e, sobretudo, econômicos.
A prática acabou sendo perpetuada como parte da cultura alimentar tradicional, especialmente entre gerações mais velhas. Na Coreia do Sul, pratos como boshintang (uma sopa apimentada feita com carne de cachorro) eram associados à vitalidade e resistência física, principalmente nos dias mais quentes do verão. Já na Coreia do Norte, onde a fome ainda é uma realidade crua para milhões de pessoas, o consumo de carne de cachorro continua existindo de maneira não oficial, como um reflexo da falta de acesso à carne bovina, suína ou frango em larga escala.
Entender essa herança é crucial para avaliar o presente com honestidade. A crítica válida à crueldade animal não precisa ignorar o contexto histórico em que esses hábitos se desenvolveram. Pelo contrário, é justamente ao reconhecer esse contexto que conseguimos propor alternativas eficazes, que respeitam o processo de reconstrução social e cultural de um país que passou por múltiplas feridas, muitas das quais ainda não cicatrizaram.
E, se na Coreia do Norte a prática persiste como reflexo da escassez, na Coreia do Sul o cenário vem se transformando rapidamente. Um novo ethos social está emergindo, puxado por uma geração que cresceu com acesso à informação, à internet e a uma nova forma de se relacionar com os animais.

A Coreia do Sul mudou — e continua mudando — graças à juventude, à mídia e aos animais que agora são parte da família
O país que um dia precisou lidar com racionamento de arroz e fome hoje é uma potência tecnológica, cultural e econômica. A juventude cresceu em uma realidade completamente diferente de seus avós e bisavós. Os animais, antes vistos como recurso alimentar em tempos extremos, passaram a ser tratados como membros da família. Gatos e cachorros invadiram apartamentos, cafés temáticos, comerciais de TV e, claro, os k-dramas e os realities de celebridades.
A ascensão da chamada hallyu (a onda coreana) teve um papel decisivo nesta mudança de percepção. Celebridades do K-pop, como membros do BTS, EXO, BLACKPINK e TWICE, têm cachorros e gatos famosos nas redes sociais, resgatados de abrigos ou adotados como forma de dar visibilidade ao abandono animal. Esses pets se tornam tão conhecidos quanto seus tutores, sendo tratados como parte do personagem público dessas estrelas. O vínculo entre humano e animal passa a ser reforçado como algo moderno, sensível e desejável.
O impacto dessa transformação cultural não se limita à esfera simbólica. Como reflexo direto da pressão pública e da nova mentalidade, o governo sul-coreano anunciou em 2024 um plano para proibir completamente a criação, abate e venda de carne de cachorro até 2027. A medida é histórica e sinaliza uma virada profunda na forma como a sociedade enxerga os animais de companhia. Muitos restaurantes tradicionais já fecharam ou se adaptaram, e a prática, que antes era vista como normal por grande parte da população, hoje encontra resistência até mesmo entre as camadas mais conservadoras.
Essa mudança, no entanto, não teria sido possível sem a mobilização popular, especialmente entre jovens e mulheres, que lideram boa parte das ONGs de proteção animal no país. A internet desempenhou um papel decisivo, permitindo que histórias de resgate, adoção e maus-tratos ganhassem visibilidade e mobilizassem solidariedade. A mudança não foi imposta de fora, mas construída internamente, com base em novos afetos e valores emergentes.
Porém, enquanto a Coreia do Sul avança em direção a uma nova relação com os animais, a Coreia do Norte permanece mergulhada em outra realidade, uma em que a fome ainda é diária, e onde os dilemas éticos perdem a força diante da sobrevivência.

Entretanto, na Coreia do Norte, a realidade é outra: onde não há liberdade, há fome, e onde há fome, há silêncio
A Coreia do Norte segue sendo um dos países mais fechados do mundo. Poucas informações saem de lá, e as que chegam geralmente vêm de desertores ou de agências de direitos humanos. O que se sabe é que o país sofre com desnutrição crônica, racionamento e escassez alimentar há décadas.
As sanções econômicas, a má gestão do governo e a ausência de acesso a alimentos básicos fazem com que o consumo de qualquer carne seja um privilégio e, quando possível, inclui animais que são vistos como inaceitáveis em outros contextos.
Nessa realidade de constante escassez, a carne de cachorro não é vista como escolha, mas como recurso de emergência. Há registros de criação doméstica de cães, não para companhia, mas para consumo eventual. A situação é agravada por um regime autoritário que silencia qualquer forma de dissidência, inclusive nas esferas alimentares. Enquanto no Sul há debate público, protestos e legislação, no Norte há silêncio, e onde há silêncio, raramente há mudança.
Muitos relatos indicam que a carne de cachorro ainda é consumida, mas não como parte de uma tradição, e sim como consequência direta da sobrevivência. Em regiões mais isoladas, onde não há acesso à carne bovina ou à suína, os moradores recorrem a meios alternativos. É cruel? Sim. É injustificável? Talvez. Mas é impossível ignorar que, em lugares onde a fome é diária, os dilemas éticos não têm o mesmo peso. O que falta na Coreia do Norte não é compaixão, é comida.
Não se pode exigir empatia ética plena de uma população que mal tem energia para sobreviver. E é por isso que as mudanças que vemos no Sul ainda não chegaram ao Norte: as condições básicas de vida ainda não estão garantidas. Criticar o consumo de carne de cachorro sem olhar para essa realidade é tão eficaz quanto culpar alguém por roubar pão enquanto passa fome.
E mesmo que boa parte do debate internacional se concentre na Coreia, o fenômeno da mudança não está restrito à península. Outros países asiáticos também estão passando por um momento de reavaliação cultural, algo que, infelizmente, o Ocidente ainda costuma ver com preconceito e simplificação extrema.

Vídeos chocantes e reações extremas: como o Ocidente ainda reforça preconceitos ao tratar esse assunto
Basta um vídeo viral mostrando um mercado na Ásia com cães enjaulados para que o ciclo comece: indignação, acusações, campanhas de boicote, falas xenofóbicas disfarçadas de ativismo animal. O problema não está em se importar com os animais, está em usar essa causa como justificativa para reforçar estereótipos sobre países asiáticos, pintando-os como bárbaros ou atrasados. É o que estudiosos chamam de orientalismo moralista: uma forma disfarçada de racismo que se esconde sob a bandeira dos direitos dos animais.
Essa postura simplista ignora o fato de que o sofrimento animal não é exclusivo da Ásia. O mesmo Ocidente que se diz horrorizado com o consumo de carne de cachorro, muitas vezes fecha os olhos para os horrores das suas próprias indústrias: confinamento de galinhas e porcos em espaços minúsculos, matadouros industriais com práticas brutais, experimentos com animais, rodeios, caça esportiva e a produção de foie gras. O sofrimento está em todo lugar, mas a indignação seletiva revela mais sobre quem julga do que sobre o julgado.
Além disso, o impacto dessas campanhas de raiva costuma ser contraproducente. Ao invés de fomentar diálogos construtivos, elas reforçam ressentimentos, estimulam o nacionalismo defensivo e dificultam o trabalho de ativistas locais. Organizações que lutam dentro desses países para mudar práticas cruéis muitas vezes enfrentam mais resistência quando o assunto vira uma pauta internacional carregada de preconceito. A transformação real exige aliança, não imposição.
Também é preciso considerar que, para muitas pessoas na Ásia, especialmente as gerações mais jovens, o amor pelos animais não é uma novidade importada. Ele está enraizado em histórias pessoais, vínculos familiares e em movimentos sociais autônomos. Quando o Ocidente reduz tudo isso a uma pressão externa ou se coloca como superior moralmente, apaga a complexidade da mudança em curso.
E é exatamente essa mudança, que vem de dentro, que tem mostrado mais eficácia do que qualquer hashtag furiosa, sobretudo quando impulsionada por algo que a Coreia exporta com perfeição: sua cultura pop.

Cultura pop como ferramenta de transformação: quando um idol adota um cachorro, ele move multidões
Hoje, uma das maiores ferramentas de mudança sobre o consumo de carne de cachorro e gato na Ásia é a própria cultura pop. Dramas coreanos mostram a relação afetiva entre humanos e animais como algo central para o bem-estar emocional. Idols que adotam pets se tornam referência. Atores que participam de campanhas contra o abandono animal geram engajamento, não apenas entre coreanos, mas entre fãs ao redor do mundo.
Essa influência é particularmente eficaz porque é orgânica: surge do desejo genuíno de figuras públicas em se alinhar com valores que ressoam com suas próprias gerações. Quando um membro do BTS posta uma foto com seu cachorro, ele não está apenas mostrando um animal fofo, está legitimando um novo modelo de vínculo. Está dizendo, de forma implícita, que carinho, responsabilidade e empatia são atitudes desejáveis, modernas e alinhadas ao futuro.
A conexão emocional promovida por esses ídolos supera barreiras culturais e políticas. Jovens que antes viam animais apenas como utilidade passam a vê-los como companhia. E quando esses mesmos jovens crescem e assumem posições de poder,seja como consumidores, políticos ou educadores, eles carregam esses valores consigo. A mudança estrutural começa no afeto, e a cultura pop está se tornando uma ferramenta de politização silenciosa, porém potente.
Além disso, há algo de estratégico nesse modelo de mudança. Ele evita confrontos diretos com gerações mais velhas, respeitando o contexto e oferecendo alternativas ao invés de condenações. O diálogo intergeracional se torna possível quando há reconhecimento mútuo: os mais velhos entendem que os tempos mudaram, e os mais jovens compreendem de onde vieram essas práticas.
Essa força cultural não se limita à Coreia do Sul. Ela inspira movimentos em outras partes da Ásia, e nos leva ao próximo ponto: o movimento de transformação sobre o consumo de carne de cães e gatos é regional, diversificado e vem sendo liderado, em grande parte, por asiáticos comuns, não por vozes externas.

O movimento não é só coreano: outras regiões da Ásia também estão repensando a relação entre animais e alimentação, com foco na juventude e na resistência local
Embora a Coreia do Sul esteja no centro do debate por conta de sua visibilidade internacional e da força da cultura pop, ela está longe de ser o único país asiático passando por transformações nessa área. Em lugares como China, Vietnã, Taiwan e Tailândia, os movimentos pelos direitos dos animais estão crescendo, muitas vezes liderados por jovens ativistas, artistas locais e organizações comunitárias que desafiam costumes enraizados com coragem e informação.
Na China, por exemplo, o tradicional Festival de Yulin — onde carne de cachorro é vendida abertamente — tem sido alvo de protestos há anos. Mas o que nem sempre se mostra nas reportagens sensacionalistas é que os maiores protestos vêm dos próprios chineses. ONGs como a Humane Society International e a Vshine atuam ao lado de voluntários locais que resgatam animais, pressionam autoridades e educam a população. Em 2020, o Ministério da Agricultura da China declarou oficialmente que cães não devem ser considerados gado ou animais de consumo, abrindo caminho para legislações municipais mais rígidas, como a de Shenzhen, primeira cidade chinesa a banir a venda e o consumo de carne de cachorro e gato.
No Vietnã, ativistas vêm desafiando o comércio ilegal de carne canina, especialmente nas áreas turísticas, onde a prática ganha visibilidade indesejada. A população urbana, principalmente nas gerações mais novas, começa a rejeitar o hábito, muitas vezes associado ao passado rural e à pobreza.
Já em Taiwan, o consumo de carne de cachorro já foi proibido por lei desde 2017, e o país é hoje um dos líderes na Ásia em políticas públicas voltadas ao bem-estar animal, incluindo punições severas para maus-tratos e incentivos à adoção.
Na Tailândia, embora o consumo de carne canina nunca tenha sido amplamente aceito, o país enfrentou por anos problemas relacionados ao tráfico de cães para países vizinhos. Graças à mobilização de ONGs e à pressão da sociedade civil, a prática diminuiu consideravelmente, e campanhas educacionais têm reforçado o papel dos cães como companheiros e não como mercadoria. A juventude tailandesa, cada vez mais conectada à internet e ao discurso dos direitos animais, tem desempenhado papel decisivo nessa virada cultural.
O que todas essas histórias têm em comum é que a mudança não parte do confronto externo, mas de dentro. Não são os choques culturais que têm feito as tradições alimentares mudarem, são as pessoas comuns, os jovens urbanos, os artistas locais e os movimentos de base que estão reconfigurando essas relações de forma mais sensível, afetiva e consciente. Quando um ator, um cantor ou uma influencer asiática adota um cachorro e fala sobre isso publicamente, ela está dialogando com o seu público de maneira direta, respeitosa e eficaz. E é esse tipo de influência (não a raiva internacional) que constrói pontes e transforma realidades de forma duradoura.

O que fazer, então? O caminho não é o ódio, é a escuta, o contexto e o apoio à mudança que já começou
É possível — e necessário — criticar a prática do consumo de carne de cachorro e gato, especialmente quando ela envolve maus-tratos, comércio ilegal e sofrimento animal. Porém, a crítica precisa vir com contexto, e não com raiva cega. A fome ainda existe. A desigualdade ainda existe. E a mudança real não vem da vergonha pública, mas da transformação interna, cultural, política e afetiva.
A Coreia do Sul está mudando, e rápido. A Coreia do Norte ainda vive no silêncio da fome. E a Ásia, como um todo, é muito mais diversa do que qualquer vídeo viral pode mostrar. O debate precisa abandonar o simplismo maniqueísta de civilizados versus bárbaros e abraçar a complexidade de um continente que vive processos históricos profundos, ainda em andamento, e que não se dobram à força do julgamento externo.
A pergunta que devemos fazer não é apenas “por que eles ainda comem carne de cachorro?”, mas “como podemos apoiar quem já está mudando isso por dentro?”. Porque, se de fato acreditamos nos direitos dos animais, precisamos reconhecer que eles andam de mãos dadas com os direitos humanos e que não há ética animal possível sem justiça social e soberania cultural.
Enquanto parte do Ocidente ainda insiste em resumir esse debate a barbárie x civilização, milhões de asiáticos estão, diariamente, reescrevendo essa história com ações práticas, afetos reais e muito trabalho invisível. O que precisamos fazer, do lado de cá, é parar de gritar e começar a ouvir. Porque o mundo não muda com ódio, ele muda com contexto, com respeito e com quem está disposto a transformar, de dentro para fora, aquilo que o resto do mundo insiste em olhar apenas com nojo.
Essa mudança já começou. E não será o escândalo que a acelerará, mas a escuta ativa, o apoio aos movimentos locais e o compromisso em construir um mundo em que todas as vidas importem: humanas e não-humanas.
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Texto revisado por Kaylanne Faustino










