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Foto: reprodução/Matheus Soriedem

Entrevista | Lívia Gaudêncio, roteirista da série de Raul Seixas, celebra 25 anos de uma arte feita de coragem e escuta

A atriz, diretora e dramaturga fala sobre bastidores, sua trajetória e da leveza de transformar ideias densas em histórias que acolhem e provocam

Boas histórias não faltam na trajetória de Lívia Gaudêncio. Atriz, roteirista, diretora, dramaturga e mãe, ela soma 25 anos entre palco e câmera, sendo 15 deles também dedicados à escrita. Mineira de origem e inquieta, enxerga a arte como um território fértil para escuta, provocação e transformação. Assim como Raul Seixas, cuja história ajudou a contar na série Raul Seixas: Eu Sou, sendo a única mulher na equipe de roteiristas.

Lívia acredita no poder de traduzir ideias complexas com leveza e uma linguagem acessível. A cada nova criação, ela reafirma que provocar reflexão também pode ser um gesto despretensioso. E, também, profundamente corajoso.

Foi exatamente com o tema da coragem que, curiosamente, Lívia sonhou certa vez. A canção Por Quem os Sinos Dobram (1979), que fala sobre a coragem de assumir o que se pensa e o que se faz, não era das mais marcantes para ela até então, mas acabou ganhando outro significado. 

“Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que você pensa e faz”, canta Raul em um dos versos que, hoje, parecem ecoar na própria trajetória da artista. Como na música, Lívia tem se guiado pela ousadia de transformar pensamento em ação. Seja no palco, no set ou na escrita, a cada novo projeto ela reafirma que coragem não é só impulso. É a essência e escolha.

Desta maneira, sua voz autoral já vinha ganhando espaço no audiovisual, com histórias que atravessam o feminino em diferentes dimensões. No cinema e no teatro, a artista tem construído uma carreira plural, marcada por projetos sensíveis e corajosos. É dela a criação da websérie Steam Girls (2022), sobre meninas na ciência, e do curta Lembranças de Barcelona (2011), que trata do feminicídio. 

Em breve, lança Onde Está Você Agora?, filme que roteiriza, codirige e protagoniza, e que trata de luto gestacional e Alzheimer (dois temas ainda pouco tratados no audiovisual) com uma equipe formada majoritariamente por mulheres.

À frente da Gautu Filmes e da premiada Companhia O Trem, Lívia Gaudêncio constrói uma trajetória marcada por propósito, afeto e pluralidade. Com repertório autoral e olhar afiado, ela constrói uma carreira que desafia estigmas e aposta na potência da narrativa como ferramenta de transformação, reafirmando que contar histórias também é um ato de coragem. 

Foto: reprodução/Matheus Soriedem

Em entrevista ao Entretê, ela fala um pouco mais sobre o sonho com a música Por Quem os Sinos Dobram, comenta sobre a série Raul Seixas: Eu sou, e compartilha sobre criação autoral no cinema, a potência do feminino nas artes e a leveza que existe até nos temas mais difíceis. Confira!

Entretetizei: Você tem uma trajetória que transita entre atuação, roteiro, direção e produção. Em que momento você entendeu que queria contar histórias não só com o corpo e a voz, mas também escrevendo, como roteirista?

Lívia: Acho que fazer de tudo um pouco é um impulso natural da minha vontade de criar. Vou dando corpo às ideias à medida que vem a necessidade de materializá-las. Aos 12 anos, produzi minha primeira peça de teatro na escola, onde adaptei um texto do Monteiro Lobato, dirigi minhas colegas em cena e fui a narradora, como Narizinho. E como escrevo desde sempre, tive dificuldade em reconhecer quando me tornei uma profissional da área. Sinto que a minha escrita vai amadurecendo com o passar do tempo, mas eu me cobro muito e nunca paro de estudar. 

E: Você está comemorando 15 anos de carreira como roteirista e 25 como atriz, e justamente agora assina a série sobre Raul Seixas, sendo a única mulher na equipe. Como foi essa imersão nesse universo predominantemente masculino?

L: Tive sorte de encontrar colegas generosos e trabalhar em uma sala de roteiro com relações bastante horizontais e respeitosas.

E: A série sobre Raul Seixas estreou cercada de expectativas, e você teve a missão de ajudar a dar forma a essa história tão intensa. Como foi o processo de transformar a vida dele em dramaturgia, equilibrando o mito e o humano? Teve alguma escolha de roteiro que te marcou especialmente?

L: O processo de retratar a complexidade do Raul veio predominantemente dos limites e fusões entre a persona artística que ele criou e o artista por trás da criação. Há momentos em que estes contornos ficam completamente delineados e outros momentos que não é possível mais distinguir um do outro. E talvez esta tenha sido a falha do herói e onde Raul se perdeu. A escolha de roteiro que mais me tocou foi uma sequência simbólica do episódio três, desenvolvida por mim, quando o primeiro casamento de Raul está ruindo. Ele participa de um ritual iniciático e sente a aliança queimar em seu dedo, então o teto se abre e ele vê uma estrela-cadente cruzar o céu, como um sinal de fim e recomeço. Ao final do episódio, ele chega em casa e não encontra a esposa e a filha. Então cai uma chuva torrencial dentro de casa ao som da música Medo da Chuva (1974). É de arrepiar.

Foto: reprodução/Matheus Soriedem

E: Você mergulhou na vida e na obra de Raul Seixas; um artista conhecido por desafiar regras e misturar poesia com provocação. Em algum momento desse processo, sentiu que havia um Raul dentro de você também? Alguma afinidade criativa, inquietação ou rebeldia que te conectasse a ele como artista?

L: Sempre fui fã do Raul e cheguei a ter um sonho bastante marcante ao som de Por quem os Sinos dobram, que fala sobre ter coragem de assumir o que pensa e faz para ir além. E nem era uma música muito marcante para mim na época. Eu me identifico muito com ele. Na minha família, sou chamada de “ovelha negra” justamente por questionar paradigmas e seguir meu caminho de acordo com meus próprios valores. Nas devidas proporções, eu me vejo também na rebeldia e anarquismo do Raul. Mas ser uma mulher rebelde é muito diferente de ser um homem rebelde. Nunca senti que podia ser tão livre ou irresponsável quanto ele foi. Também me identifico com a busca existencial do Raul, com seu misticismo e a visão sincrética do mundo. Ele mistura cristianismo com Crowley, Bhagavad Gita e disco voador. Acho primordial que as minhas obras artísticas façam o público refletir e, assim como o Raul, adoro colocar ideias complexas de forma despretensiosa e com linguagem simples. Faço isso inclusive nas minhas dramaturgias infantis. Em Princesa Falalinda Sem Papas na Língua (2019), por exemplo, falo de silenciamento feminino para as crianças através de um conto de fadas repaginado.

Foto: reprodução/Matheus Soriedem

E: Em seus projetos, como Steam Girls, Lembranças de Barcelona e Onde está você agora?, você explora experiências e perspectivas femininas. Como essas abordagens nasceram em você como criadora, e por que considera importante dar voz a essas experiências nas suas histórias?

L: Quando me tornei mãe, fui arrebatada pela constatação de ser uma mulher neste mundo desigual. Foi como se todos os meus questionamentos sobre as opressões, que vivencio e observo, tivessem caído sobre a minha cabeça e me obrigado a fazer alguma coisa com isso. Encontrei nas criações artísticas uma vazão para a minha indignação e passei a ter uma abordagem propositadamente feminista nas minhas histórias. Às vezes, são provocações explícitas e às vezes são quase subliminares, mas estão sempre lá.

E: Você contou recentemente que descobriu que suas avós faziam teatro na igreja, mas não seguiram por questões culturais. Como foi para você receber essa informação, e de que maneira isso se conecta ou não com sua própria visão sobre a arte?

L: Poder ser artista profissionalmente é honrar este desejo que existia nas minhas avós, mas honrar principalmente a minha própria escolha. Ser artista no Brasil hoje é resistência. Existem dificuldades práticas que impedem muita gente de fazer esta escolha, como também muitos estigmas políticos envolvidos. 

Será que se minhas avós pudessem escolher qualquer profissão, como hoje as mulheres teoricamente podem, elas teriam seguido com o teatro?

E: Em outras entrevistas, você já falou sobre a disparidade salarial entre homens e mulheres no audiovisual e sobre os obstáculos que as roteiristas ainda enfrentam. Mas, se você pudesse reescrever os bastidores desse mercado como num roteiro (com personagens, conflitos e viradas), que mudanças estruturais você colocaria na trama para garantir protagonismo real às mulheres na criação?

L: Acho que a primeira coisa seria a construção de um universo utópico onde todas as pessoas têm as mesmas oportunidades e onde não exista discriminação de gênero, classe, cor, religião… Metade dos conflitos narrativos não existiriam (risos). Então poderíamos nos aprofundar em questões metafísicas, ambientais, poéticas e mais universais.

E: Ao olhar para essa trajetória múltipla, como atriz, roteirista, diretora e mulher, o que você diria hoje para aquela Lívia que sonhava em viver de arte? E o que te move a continuar contando histórias, mesmo diante de desafios?

L: É clichê, mas eu diria: “Vai ser difícil, mas vai ser possível. Quando acabar a coragem, vai com medo mesmo. Confia que o universo faz o resto!” 

O que me move a continuar criando histórias é a pulsão de vida que experimento durante os processos de criação. É assim que transcendo as limitações e banalidades cotidianas e sinto o extraordinário acontecer. Não consigo viver de outra forma.

Você já assistiu Raul Seixas: Eu Sou, a série do Globoplay sobre o eterno Maluco Beleza? Conta para gente nas redes sociais do Entretê! E nos siga no X, no Facebook e no Instagram para não perder as novidades.

 

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Texto revisado por Cristiane Amarante @cris_tiane_rj

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