Em uma entrevista exclusiva para o Entretetizei, Arzu Kaprol compartilha sua visão sobre moda e cultura turca nas esferas sociais, políticas e culturais. Uma conversa imperdível para os apaixonados por moda e cultura
Arzu Kaprol é um dos nomes mais instigantes da moda turca contemporânea. Com coleções apresentadas nas semanas de moda de Paris e Istambul, colaborações com artistas e o pioneirismo no primeiro desfile digital da Turquia – realizado em parceria com o músico Mercan Dede em uma experiência interativa de digital couture –, Kaprol ganhou projeção internacional ao unir tecnologia, sustentabilidade e arte. Suas criações refletem uma mulher em constante movimento, que honra suas raízes, mas se projeta para o futuro com autonomia e força. Mais do que roupas, Arzu Kaprol desenha narrativas.
Essa mesma complexidade da mulher turca tem se revelado ao mundo por meio de outro fenômeno cultural: as novelas. Produções como Hercai, Será Isso Amor?, Eşref Rüya e Esaret não apenas conquistaram o público brasileiro, como também despertaram a curiosidade sobre a cultura, os costumes e a moda turca. Os figurinos dessas tramas são parte essencial da construção de identidade das personagens – assim como as coleções de Kaprol, que costuram tradição, contemporaneidade e expressão individual em cada peça. “As mulheres turcas estão cada vez mais afirmando sua individualidade e se expressando pela moda”, comenta.

Assim como nas novelas, as roupas também funcionam como forma de expressão de quem as veste, como parte do nosso cotidiano. Com o passar do tempo, a moda e a cultura vão se inovando, e essas mudanças, também podem ser notadas nas produções que assistimos – ao mesmo tempo que é preciso reconhecer os momentos políticos e sociais que cada cultura está passando. Para quem trabalha com moda, quais são os desafios e as potências de ser uma designer de roupas? Como uma criação reflete a identidade e o papel da mulher turca na sociedade atual? É possível falar sobre igualdade de gênero na moda turca?
Essas e outras perguntas ganham novas perspectivas na voz de Arzu Kaprol. Leia a entrevista completa e mergulhe no olhar de uma das estilistas mais visionárias da Turquia:
Seu trabalho é conhecido por unir inovação, sustentabilidade e arte. Você já usou suas coleções como forma de protesto ou expressão política? Pode compartilhar um exemplo?
Essa é uma pergunta muito perspicaz. Minha filosofia de design gira em torno da síntese entre inovação, sustentabilidade e arte para criar o que costumo chamar de “arquitetura do vestuário” — peças que são ao mesmo tempo duradouras e visionárias. Os valores inerentes a essa abordagem podem certamente ser vistos como uma forma de “advocacia”, ou seja, uma manifestação.
Não diria que usei minhas coleções como protestos políticos diretos e explícitos, como alguns artistas fazem. Minha linguagem é mais sutil, costurada ao próprio tecido das peças.
Por exemplo, minha dedicação constante à sustentabilidade, a escolha cuidadosa de materiais ecológicos e a ênfase na durabilidade do design são, de certa forma, uma resposta ao ritmo acelerado e descartável da indústria da moda e às preocupações ambientais que ela levanta. Em um mundo que enfrenta tantos desafios ecológicos, optar por um caminho responsável é uma posição consciente. É uma declaração silenciosa, mas firme, sobre os valores em que acredito e o futuro que espero ajudar a construir.
Do mesmo modo, minha busca por tecnologia e técnicas inovadoras nasce do desejo de romper limites e desafiar normas convencionais da moda. Esse impulso por progresso pode ser interpretado como um questionamento sutil do status quo e uma crença no poder da evolução.
Então, mesmo que você não encontre slogans ou mensagens políticas diretas nas minhas coleções, os princípios que as orientam – sustentabilidade, inovação e foco na qualidade duradoura – são, acredito, uma forma poderosa de expressão que fala do desejo por um futuro mais responsável e consciente. As roupas em si tornam-se um testemunho silencioso desses valores.
Na sua visão, sustentabilidade na moda é uma questão política?
Sim, acredito que a sustentabilidade na moda está profundamente ligada a questões políticas, embora se manifeste em diferentes níveis.
No básico, os sistemas que levaram a indústria da moda ao seu estado insustentável atual — priorizando lucro acima do meio ambiente e do bem-estar social, cadeias produtivas globalizadas com práticas trabalhistas muitas vezes opacas e uma cultura de consumo alimentada pelo fast fashion — estão enraizados em políticas econômicas e sociais. Regulamentações (ou a falta delas) sobre proteção ambiental, leis trabalhistas e acordos comerciais impactam diretamente a viabilidade e a implementação de práticas sustentáveis.
Além disso, as consequências das práticas insustentáveis — mudanças climáticas, poluição, esgotamento de recursos e injustiça social em regiões produtoras — não são apenas problemas ambientais ou sociais; são questões que exigem vontade política e ação concreta. Defender a sustentabilidade na moda muitas vezes significa lutar por mudanças nas políticas públicas, responsabilidade corporativa e uma transformação dos valores sociais, que são, essencialmente, assuntos políticos.

Como suas criações refletem a identidade e o papel da mulher turca na sociedade atual?
Minhas criações para a mulher turca hoje buscam refletir uma identidade multifacetada, que honra a tradição, mas também abraça a modernidade, a independência e uma perspectiva global. É sobre capturar a força, a resiliência e os papéis em transformação das mulheres na Turquia.
A Turquia tem um patrimônio cultural riquíssimo e diversificado. Frequentemente, incorporo sutis referências ao artesanato tradicional, às silhuetas ou técnicas têxteis, reinterpretadas sob uma ótica contemporânea. Isso reflete como as mulheres turcas vivem suas vidas — valorizando suas raízes enquanto participam ativamente da sociedade moderna. Não é uma tradução literal, mas uma essência, um sentimento que ressoa com uma compreensão cultural compartilhada.
As mulheres turcas estão ativas em todas as áreas: negócios, artes, família, entre outras. Minhas criações priorizam a funcionalidade e o conforto, sem abrir mão da elegância. Um blazer bem estruturado, um vestido fluido e ao mesmo tempo com corte preciso ou peças versáteis, permitem que elas se movimentem com confiança no dia a dia, refletindo seus papéis dinâmicos. A roupa deve empoderar, não restringir.
As mulheres turcas estão cada vez mais afirmando sua individualidade e se expressando pela moda. Minhas coleções oferecem uma variedade de estilos e silhuetas para que cada uma escolha o que mais combina com seu gosto e identidade. Quero fornecer uma tela para essa autoexpressão, não ditar um visual único.
A Turquia ocupa uma posição geográfica e cultural única, entre o Oriente e o Ocidente. Assim como as mulheres turcas, meus designs incorporam tendências internacionais e influências, refletindo esse olhar cosmopolita, mas mantendo uma linguagem própria que considero “minha” e que ressoa através de mulheres que transitam entre o local e o global.
Ao longo da história, as mulheres turcas mostraram força e resiliência incríveis. Busco criar roupas que sutilmente incorporem esse espírito — por meio de linhas fortes, acabamento de qualidade e designs duradouros que resistem ao tempo, assim como a força delas.
Importante lembrar que “mulheres turcas” não formam um grupo homogêneo. Há imensa diversidade de origens, crenças e estilos de vida. Meu objetivo não é criar um uniforme, mas peças que dialoguem com essa multiplicidade, permitindo que cada mulher se sinta confiante, empoderada e autêntica no que veste.
Você já falou da influência profunda de sua mãe e avó em sua carreira e que a moda sempre foi sua vocação. Já enfrentou alguma pressão social ou resistência na Turquia por essa escolha?
Ser mulher em qualquer área criativa – incluindo moda – na Turquia ou em qualquer lugar tem suas complexidades. Tive a sorte de contar com o apoio incondicional e a inspiração da minha mãe e avó, que tinham um forte senso de estilo e valorizavam o artesanato, mas a caminhada profissional teve seus desafios.
Sempre fui movida por uma convicção interna, uma paixão profunda que fazia da moda algo a mais do que uma escolha, parte essencial de quem sou. Construir uma marca com uma visão clara, focada em inovação e sustentabilidade, exigiu perseverança e uma forte crença em meus valores, especialmente quando eles iam na contramão das tendências e modelos comerciais predominantes.
Além disso, ser mulher em posição de liderança pode gerar expectativas e preconceitos. Mas sempre me concentrei no trabalho, na qualidade e integridade dos meus designs, e em formar uma equipe com talento e visão compartilhada. Acredito que profissionalismo e compromisso com a excelência superam preconceitos de gênero.
A Turquia é uma sociedade dinâmica, com uma história rica e perspectivas em evolução. Embora existam visões tradicionais em alguns setores, cresce o reconhecimento do empreendedorismo criativo e da contribuição das mulheres em todas as áreas. Tenho orgulho de fazer parte dessa mudança positiva.
No fim das contas, apesar de nuances sociais a serem navegadas, minha paixão, o apoio familiar e o reconhecimento crescente dos designers turcos no país e no exterior foram forças poderosas que me ajudaram a superar resistências e seguir meu chamado. Meu foco sempre foi criar trabalhos significativos e contribuir para um futuro mais inovador e sustentável na moda.

Como visionária da indústria, você colaborou com Mercan Dede no primeiro desfile digital da Turquia. Como enxerga o futuro da moda turca, especialmente em relação aos direitos das mulheres e igualdade de gênero?
Nossa parceria com Mercan Dede no primeiro desfile digital da Turquia foi uma experiência incrível que mostrou como a tecnologia pode ampliar os limites da apresentação da moda e alcançar um público maior. Isso revelou o enorme potencial de inovação na moda turca. Vejo o futuro da moda turca profundamente ligado ao avanço dos direitos das mulheres e da igualdade de gênero em vários aspectos importantes.
A moda pode ser uma ferramenta poderosa de autoexpressão e empoderamento. Acredito que veremos cada vez mais designs que atendam às diversas necessidades e aspirações das mulheres, celebrando as suas individualidades e força. Isso deve se refletir em roupas funcionais, confortáveis e que permitam às mulheres transitar com confiança por todos os espaços que ocupam, acompanhando seus papéis cada vez mais relevantes na sociedade. Talvez haja uma mudança de estilos restritivos para designs que priorizem a autonomia e o conforto de quem veste.
O universo digital oferece oportunidades inéditas para designers turcos – especialmente mulheres – apresentarem seu trabalho globalmente, sem depender dos intermediários tradicionais. O sucesso do nosso desfile digital com Mercan Dede demonstrou esse potencial. Essa maior visibilidade pode amplificar as vozes femininas, permitindo que contem suas próprias histórias e desafiem narrativas tradicionais de gênero.


Com o aumento da conscientização sobre questões ambientais e sociais, acredito que a moda turca adotará cada vez mais práticas sustentáveis e éticas. Isso está fortemente ligado aos direitos das mulheres, já que elas representam grande parte da força de trabalho na indústria têxtil. Um foco em práticas laborais justas, cadeias de produção transparentes e produção consciente contribuirá para uma indústria mais justa e igualitária, impactando diretamente a vida de muitas mulheres.
A moda tem potencial para desafiar e subverter estereótipos de gênero. Espero ver mais designers turcos criando roupas andróginas ou gender-fluid, ou que rompam com as noções convencionais do feminino. Isso pode contribuir para uma mudança cultural maior, com mais aceitação e compreensão das diversas identidades de gênero.
O futuro da moda turca deve ser colaborativo e inclusivo, fomentando um ecossistema de apoio para designers, artesãos e empreendedores, independentemente do gênero. Plataformas de mentoria, networking e acesso a recursos para mulheres no setor serão fundamentais. Assim como nosso desfile digital ampliou o alcance, futuras inovações tecnológicas como provadores virtuais, design personalizado e produção sob demanda poderão tornar a moda mais acessível e inclusiva para mulheres de todos os corpos e capacidades.
Acredito que a moda turca tem um potencial enorme para ser uma força transformadora positiva para os direitos das mulheres e a igualdade de gênero. Abraçando inovação, sustentabilidade e um compromisso com o empoderamento feminino por meio do design e das oportunidades, ela pode refletir e contribuir para uma sociedade mais justa e evoluída. A criatividade e a resiliência das designers turcas me enchem de esperança para esse futuro.
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Special thanks: Arzu Kaprol & Joelle
Texto revisado por Sabrina Borges de Moura @_itsbrinis










