O autor goiano é fã de terror slasher e gosta de misturá-los a componentes de brasilidade em seus livros
Ao desenvolver o romance Sussuros na Neblina, o escritor Piter Salvatore mesclou elementos do terror gótico, folclore nacional e de etnias indígenas goianas, como os Avá-Canoeiro e os Iny-Karajá. O livro, publicado de maneira independente, é ambientado em Goiás, nos anos 2000, e destrincha um passado colonial e fantasmagórico.
Salvatore é natural da capital goiana e cresceu interessado pelas paisagens misteriosas, filmes de terror e livros com histórias macabras. Tudo isso serviu de base para escrever uma trama focada no Uruny, uma criatura que mistura vários animais do cerrado.
Na obra, quando a irmã do protagonista desaparece após ser perseguida por um animal estranho, acaba desencadeando uma busca por algo misterioso em meio aos sussurros do nevoeiro. No Morro da Neblina, local do ocorrido, um grupo de jovens retorna um ano depois, descobrindo que as lendas assustadoras são reais e tendo que lutar pela sua sobrevivência. O livro também traz temas como amizade, identidade, drama familiar e exploração do território.
Em entrevista, Piter Salvatore comenta sobre a construção da narrativa e faz uma reflexão sobre a literatura de horror no Brasil. Confira!

Entretetizei: Sussurros na Neblina mistura terror gótico com elementos do folclore nacional. De onde surgiu a ideia de ambientar essa história em Goiás, nos anos 2000?
Piter Salvatore: Sempre achei o cerrado um lugar macabro, com uma ambientação propícia para o terror. Quando passava pelas estradas à noite, via aquelas árvores tortuosas, os arbustos e animais noturnos, a lua bem cheia e amarela e acabava pensando: “caraca, e se uma história se passasse num lugar assim?”.
Além disso, eu sempre quis escrever um slasher, pois é um dos meus subgêneros preferidos do terror, então uni as duas coisas e o resultado foi Sussurros na Neblina. Os anos 2000 já são uma coisa recorrente nas minhas obras, uma época que amo muito, com as melhores referências musicais e artísticas. As estéticas e subculturas dessa década também me atraem muito, como os emos, skatistas, y2k, etc.
E: O Uruny é uma criatura bastante singular, feita da fusão de vários animais do cerrado. Como você chegou à concepção desse ser? Houve alguma inspiração direta em lendas ou foi uma criação totalmente original?
PS: Foi um pouco das duas coisas. A ideia de criar um monstro quimérico que fosse a conjunção de várias partes de animais foi algo meu, inclusive o design imaginativo e as habilidades do bicho. Quem deu vida à arte dele foi o artista Cauê Borges. Já a parte inspiracional veio de mitos existentes, como a Caipora, o Capelobo, o Lobisomem e, adicionalmente, a lenda norte-americana do Wendigo.
Em Until Dawn (2015), meu jogo favorito e a principal fonte de inspiração para a história, os Wendigos são criaturas bastante parecidas com o Uruny. Em ambos os casos, a fisionomia dos monstros transita por algo como um ser humanoide transfigurado. Eu me inspirei também em algumas crenças de povos indígenas do cerrado, como os Iny-Karajá e Avá-Canoeiro.
O Uruny pode ser encarado como o vilão do livro, mas também como uma vítima do sistema e como uma espécie de ‘suspiro’ da terra, um protetor da mata explorada. Vimos o cerrado sofrer com a expansão do agronegócio nas últimas décadas, e o Uruny vem pra ser um contraponto a isso, uma maldição despertada com a opressão.
E: O livro traz o Morro da Neblina quase como um personagem. O cenário teve influência de lugares reais da sua infância ou juventude?
PS: Sim, a ideia embrionária do Morro da Neblina vem de uma lembrança que tenho dos meus antigos colegas do ensino médio, em que eles comentavam sobre uma fazenda que ficava numa ‘montanha’, perto da minha cidade natal, Itapaci, no interior de Goiás. Nunca fui lá, mas via imagens e achava o lugar muito interessante, com uma piscina e uma vista para o horizonte. Além disso, meu pai sempre visitava muitas fazendas, porque ele trabalha vendendo produtos laticínios e busca cargas de queijo das casas de fazendeiros.
Esses lugares acabaram ficando na minha memória e me inspiraram indiretamente, talvez até inconscientemente. Há também a fazenda do meu tio, em que havia um cemitério antigo e um ambiente marcante. Eu lembrava de olhar para as árvores à noite e procurar algo nelas, um vulto ou coisa do tipo. Algumas imagens sempre ficaram na minha cabeça, como aqueles crânios de vaca pendurados na frente dos currais, pois sempre achei algo notável e intrigante e, em certa medida, sinistro.
E: A história tem camadas que vão além do horror: fala de drama familiar, exploração de território e identidade. O que te motivou a incluir esses temas?
PS: Não foram temas que vieram de forma tão consciente. Enquanto criava os personagens e incluía as cenas, elas acabavam resvalando nessas temáticas, mas algumas outras coisas foram mais intencionais, como a inclusão dos personagens indígenas, alternativos, LGBTQIA+ e os conflitos envolvendo território e poder. No livro, o Morro da Neblina pertencia anteriormente aos indígenas, sempre pertenceu, embora eles tenham sofrido, pelo menos três vezes, tentativas de apropriação por parte do governo e de grupos específicos, como os imigrantes alemães e os Albuquerque.
Já o tema da identidade acaba surgindo com a escolha do protagonista, que é um agroboy gay com problemas de aceitação. Sempre achei o agrogay uma figura disruptiva, porque ele vai contra os estereótipos e paradigmas de sua classe, saindo do padrão de relacionamento considerado ‘certo’, assim como os mandrakes que são gays. O livro também tem personagens alternativos, que sempre aparecem nas minhas obras, porque sou gótico e durante toda a vida quis consumir livros assim.
E: Você cresceu cercado por filmes de terror e livros macabros. Quais autores e obras mais influenciaram Sussurros na Neblina?
PS: Stephen King, com a ambientação e atmosfera criadas em O Cemitério (1983), seguido por Laura Purcell, em O Silêncio da Casa Fria (2017), e algumas passagens sinistras de A Última Festa (2020), de Lucy Foley. Esses autores sabem como criar suspense e tensão a partir do ambiente, do sensorialismo, isso me influenciou muito e aprendi bastante com eles.
Em relação ao cinema, Rua do Medo (2021) foi certamente o meu maior motor criativo, desde a mitologia, unindo slasher com bruxaria, aos personagens bem desenvolvidos, até as escolhas narrativas e o fato de ser a minha trilogia favorita do terror. No universo dos jogos, o já mencionado Until Dawn me trouxe vários insights, ideias para cenas e mistérios, assim como outro game da mesma empresa, The Quarry (2022), com a parte da mitologia do lobisomem e o lance do drama familiar.
E: O terror gótico tem uma tradição muito europeia. Como foi o desafio de trazer esse estilo para um contexto goiano e brasileiro?
PS: Não foi um grande desafio para mim, pois eu já tinha entrado em contato com outras obras e autores brasileiros que já tinham feito algo parecido, então isso acabou me dando algum norte. Além disso, sempre pensei no gótico como uma estrutura, um discurso literário que pode ser adaptado para vários contextos, o que me motivou a continuar com a ideia até o fim. Meu objetivo era tornar o cerrado goiano algo sinistro, com uma aura sobrenatural e misteriosa, valorizando os mitos e as lendas locais.
E: Sua escrita mistura elementos da cultura pop com referências ao folclore indígena. Como foi reunir essas características?
PS: Acredito que o grande segredo tenha sido o planejamento minucioso que fiz antes de escrever, ligando os pontos e tentando deixar tudo o mais coerente possível. Acho que os elementos aparecem de forma bem específica, às vezes sendo parte da personalidade de alguns personagens, às vezes como parte do enredo e fazendo pequenas aparições durante o texto, por meio de citações diretas ou easter eggs. Isso já é algo característico dos meus trabalhos, então não foi uma dificuldade para mim. Eu via outros escritores fazendo isso e pensava em formas de me inspirar ou recriar esses aspectos.
E: Como foi o processo de escrever as cenas mais assustadoras?
PS: Eu imaginava tudo na minha cabeça e tentava ser o mais fiel às imagens que se formavam. Às vezes, tentava recriar algumas cenas que via nos filmes, jogos e livros, adaptando-as para minha escrita. Eu tentava pensar no cenário e em como os personagens se sentiam naquele momento, alinhando isso com questões pessoais da história de vida deles. O medo de sangue, do isolamento, da exclusão, do escuro, as sensorialidades, como os cheiros, gostos e texturas. Ficava tentando me imaginar no Morro da Neblina. De que forma eu ficaria aterrorizado? Do que as pessoas geralmente têm medo? Essas perguntas me orientavam.
E: A literatura de terror ainda enfrenta certo preconceito no Brasil. Qual tem sido a recepção do público ao seu trabalho?
PS: Como já tenho uma pequena comunidade formada nas redes, a recepção tem sido bem positiva. As pessoas estavam ansiosas antes do lançamento e, depois que leram, relataram ter uma experiência bem legal. Não vi comentários tão negativos até agora e as críticas que li considerei pertinentes, embora ache que a repercussão e o engajamento pudessem ser melhores, dado o trabalho de divulgação que tenho feito constantemente. Apesar de estar sempre falando do livro, o preconceito ainda é uma barreira; muita gente não dá oportunidade para livros nacionais, nem para o terror, que é um gênero marginalizado no Brasil. E quando falamos em livros que se passam no interior e em Goiás, esse preconceito fica ainda mais evidente e nivelado.
E: Você acredita que existe preconceito ou resistência do mercado e dos leitores em relação a histórias ambientadas fora do eixo São Paulo–Rio?
PS: Sim, como disse antes. As pessoas estão acostumadas com livros que se passam em São Paulo ou no Rio. Ainda há muitos estigmas e estereótipos relacionados a outras literaturas que precisam ser superados. Há gente que ainda revira os olhos para livros brasileiros, quem dirá histórias tão específicas como Sussurros na Neblina. Por outro lado, essa especificidade atrai os leitores que realmente curtem o gênero e querem algo diferente. E, em relação ao mercado, temos mais dificuldades ainda. Algoritmos que não entregam o livro para o público certo, editoras que não nos dão oportunidades, a desvalorização e precarização frequentes, entre outros impasses.
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Texto revisado por Cristiane Amarante @cris_tiane_rj









