Em debate na pré-estreia, o diretor de arte compartilhou as dificuldades e alguns bastidores do longa co-produzido pelo Brasil
Dormir de Olhos Abertos é um longa-metragem que enxerga o Brasil através da perspectiva de imigrantes taiwaneses e chineses no Recife. O filme foi inteiramente gravado no país, em 2022, sob direção da cineasta alemã Nele Wohlatz, e passou os últimos meses percorrendo festivais de cinema nacionais e internacionais, levando consigo o prêmio de Melhor Filme FIPRESCI e o prêmio da crítica da seção Encontros do 74º Festival de Cinema de Berlim, em 2024.
Uma co-produção entre Brasil, Taiwan, Argentina e Alemanha, a história gira em torno de três personagens: Kai (Liao Kai Ro), uma turista taiwanesa que chega sozinha nas praias brasileiras após seu namorado terminar com ela, Fu Ang (Wang Shin-Hong), um chinês dono de uma loja de guarda-chuvas, e Xiaoxin (Xiao Xing Cheng), uma imigrante chinesa que vem ao Brasil morar com sua tia, chefe de uma comunidade de trabalhadores chineses em Recife.
Kleber Mendonça Filho, que assina a produção no lado brasileiro junto de Emilie Lesclaux, descreveu Dormir de Olhos Abertos como “um ponto de vista sobre o Recife e sobre o Brasil, a partir do estrangeiro, nunca antes visto. Poliglota, contém graça, estranheza e Gal Costa”.
Confira o trailer abaixo:
No começo da última semana, o Entretê foi convidado para assistir à pré-estreia e a participar de um debate com Diogo Hayashi, diretor de arte do filme, e Cecília Mello, professora de audiovisual da USP e especialista no cinema do leste asiático.
Durante o debate, Diogo compartilhou o seu processo para construir a atmosfera visual do longa, incluindo como todos os cenários de Dormir de Olhos Abertos foram desenhados por ele antes de ganharem vida nas telas. O trabalho da direção de arte, segundo ele, costuma ser invisível ao telespectador, que não suspeita que cada ambiente, cor e objetos colocados em cena são pensados e pesquisados por uma equipe.
Nesse sentido, Diogo contou como um dos cenários do filme exigiu a construção de uma parede falsa que cobrisse uma cama articulada durante as cenas. Além disso, ele revelou que a produção era para ter sido filmada nas Torres Gêmeas, um dos cartões postais de Recife, mas, quando isso não foi possível, a equipe teve que reproduzir o interior dos apartamentos do condomínio em outra locação.

Diogo também falou sobre o desafio de compor cenários que refletissem a identidade de imigrantes chineses de forma respeitosa e sincera, tendo em vista que são uma parte pouco estudada da população brasileira e que se mantém bastante reservada.
Ainda no debate, o Entretê teve a oportunidade de fazer uma pergunta a Diogo: considerando a defasagem de perspectivas de imigrantes chineses no Brasil e as tensões que existem contra a imigração, pedimos que comentasse como ele acha que Dormir de Olhos Abertos pode contribuir com esse diálogo.
“Essa experiência de imigração, que é tão diferente e peculiar, também se comunica comigo, que fui um imigrante, então acho que não se restringe ao pessoal de Taiwan ou da China. Eu não sei te dizer de que maneira concreta isso contribui, mas eu acho que o cinema tem essa coisa mágica de observar sem julgar, de criar em cima disso e fabular em cima dessas experiências, mesmo sem que você as tenha vivido de fato,” respondeu ao Entretetizei.
Ainda sobre a pergunta, Diogo disse que, para Nele Wohlatz, Dormir de Olhos Abertos também tem camadas de discussão sobre classe, mesmo entre os brasileiros em Recife.
Reflexo disso foi a escolha inicial de filmar nas Torres Gêmeas, após uma conversa que a diretora teve com Kleber Mendonça Filho, em que ele contou que o condomínio teria sido construído para pessoas ricas de Recife morarem, mas foram imigrantes sino-brasileiros que compraram a maioria dos apartamentos, gerando desconforto entre a classe alta recifense.

Dormir de Olhos Abertos entrou em cartaz quinta-feira (11). Confira aqui os cinemas em que o longa está em cartaz e reserve seu ingresso.
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Texto revisado por Ketlen Saraiva










