O horror da sobrecarga feminina no cinema e na literatura em diálogo com o Setembro Amarelo
[Contém gatilhos e spoiler]
Cuidar é uma tarefa que costuma ser celebrada como natural às mulheres. Da mãe que organiza a casa à filha que acompanha os pais idosos, a imagem feminina aparece constantemente associada à responsabilidade de manter todos de pé. Todavia, essa dedicação tem um preço: a exaustão física e emocional de quem passa a vida inteira cuidando dos outros sem receber o mesmo cuidado em troca.

Essa sobrecarga raramente é reconhecida. Muitas vezes, está escondida no que a psicologia chama de mental load: a carga invisível de planejar, lembrar e antecipar tudo, desde tarefas domésticas até compromissos familiares. Quando esse peso se acumula, o que era apenas obrigação vira fonte de sofrimento. E, não por acaso, essa dinâmica atravessa também a cultura que consumimos.
O cinema e a literatura de terror, por exemplo, têm encontrado nesse peso um terreno fértil para criar narrativas. Não por acaso, algumas das histórias mais marcantes do gênero giram em torno de mulheres — especialmente mães — que estão à beira do colapso. O que deveria ser apenas afeto e cuidado se transforma em angústia, raiva e solidão.
O lar como palco do terror

Em Sobrenatural (2010), a atmosfera de medo nasce dentro de casa, espaço que deveria ser de acolhimento, mas que se transforma em fonte de angústia. A narrativa acompanha a família Lambert após a misteriosa queda do filho mais velho, Dalton (Ty Simpkins), que entra em coma inexplicavelmente. Enquanto o casal tenta lidar com o trauma, estranhos acontecimentos passam a rondar a rotina da família, revelando que a ameaça não é apenas médica, mas sobrenatural.
Nesse cenário, Renai (Rose Byrne) surge como o retrato da sobrecarga. Logo no início, ela organiza todos os itens da mudança, mas deixa por último a sua caixa de partituras, como se suas próprias vontades fossem sempre deixadas por último. Sua aparência também revela sinais de desgaste: roupas escuras, expressão cansada e cabelos soltos. Apenas quando a família se muda novamente, por conta dos eventos sobrenaturais, e Renai acredita que as coisas vão melhorar, a vemos com roupas mais claras, penteados e até retomando hábitos simples, como ouvir música, que é a sua paixão.
Ao decorrer do longa, o medo que a assombra se converte em raiva. Quando vê uma criança estranha na nova casa e tendo ciência de que ela é, na verdade, um espírito, ainda assim Renai não hesita em persegui-la, como se quisesse encerrar, de uma vez por todas, o constante terror em que viviam.
Contudo, o peso maior não é o fantasma: é a negligência do marido. Apesar de atender aos pedidos de Renai — como se mudar novamente de casa quando ela praticamente implora por socorro após um dos ataques das entidades —, Josh (Patrick Wilson) não a ouve.

Ele só passa a agir quando enxerga, com seus próprios olhos, os desenhos de Dalton na parede. O recado é claro: enquanto a mulher já carregava tudo — a casa, os filhos, o matrimônio e a luta contra o sobrenatural —, o homem só se move quando o problema bate diretamente à sua porta ou, nesse caso, está pendurado na sua frente. Nesse sentido, as palavras e ações de Renai não são suficientes para que ele tome uma atitude e deixe de ser negligente: Josh só o faz quando escolhe isso.
A continuação lançada em 2013 aprofunda ainda mais a relação entre maternidade e trauma. A figura da Mulher de Preto, que antes era apenas um fantasma aterrorizante no primeiro filme, revela-se como Parker Crane (Philip Friedman): um menino que foi forçado pela própria mãe, Michelle (Danielle Bisutti), a viver como menina, porque ela desejava uma filha. Essa imposição sufocante molda a sua identidade e culmina em uma vida de violência e assassinatos cometidos sob o disfarce feminino.
Se no primeiro filme acompanhamos a solidão de uma mãe sobrecarregada, em Sobrenatural: Capítulo 2 vemos a face oposta: uma maternidade autoritária, controladora, que corrói a subjetividade do filho até transformá-lo em algoz.
Em ambos os filmes, o terror não nasce apenas do sobrenatural, mas da forma como o papel materno é distorcido, seja pela negligência do parceiro, seja pela imposição sufocante de uma mãe sobre o filho.
Esse mesmo olhar sobre a maternidade como espaço de dor reaparece em outros longas de terror psicológico. Em O Babadook (2014), Amelia (Essie Davis) é uma mãe solo que perdeu o marido e cria sozinha o filho pequeno. A figura monstruosa que surge em sua casa pode ser lida como metáfora de sua exaustão: o luto não resolvido, a raiva de uma vida interrompida e o peso de uma maternidade sem apoio. O monstro é, ao mesmo tempo, inimigo e reflexo de sua dor interna. Quando Amelia finalmente aceita a presença do Babadook, guardando-o no porão, o filme sugere que não há como eliminar a sobrecarga, mas apenas aprender a conviver com ela.
Em Midsommar – O Mal Não Espera a Noite (2019), a sobrecarga feminina aparece de forma diferente, porém igualmente perturbadora. Dani (Florence Pugh), logo no início, é marcada por um trauma devastador: a perda da família em uma tragédia que a deixa completamente sozinha. No entanto, em vez de encontrar apoio, ela é constantemente invalidada pelo namorado, Christian (Jack Reynor), que minimiza a sua dor e a trata como um fardo.
Essa solidão emocional se torna o motor da narrativa, conduzindo Dani a buscar pertencimento em uma comunidade que, embora ofereça acolhimento, o faz por meio de rituais violentos e opressores. O filme sugere que a ausência de redes de apoio reais pode levar mulheres a situações extremas, onde o cuidado aparece distorcido, mas, ainda assim, mais palpável do que o abandono afetivo que enfrentavam fora dali.
Já em Hereditário (2018), a maternidade aparece como maldição transmitida de geração em geração. Annie Graham (Toni Collette) carrega não apenas o peso de cuidar da família após a morte da mãe, mas também o legado de segredos, manipulação e doença mental. A sua relação com os filhos, Peter (Alex Wolff) e Charlie (Milly Shapiro), é marcada pela ambivalência: há amor, mas também ressentimento e rejeição. Ao mesmo tempo, a postura de Steve (Gabriel Byrne), marido de Annie, é de uma frieza quase clínica: ele observa, tenta controlar as crises, mas jamais compartilha verdadeiramente a carga emocional da esposa. Sua descrença e passividade intensificam a solidão de Annie, que se vê obrigada a lidar sozinha com a dor e o colapso familiar.
A tragédia que se desenrola escancara como o papel materno pode ser sufocante, e como o silêncio em torno do sofrimento psíquico pode se transformar em algo devastador. O filme reforça a ideia de que o lar, em vez de espaço seguro, pode se tornar o epicentro do horror.
Nesse sentido, a maternidade no cinema de terror não é romantizada: é mostrada como um terreno ambíguo, atravessado por medo, culpa e solidão. Esses filmes colocam em cena aquilo que tantas mulheres vivem fora das telas: o peso de cuidar sozinhas, de silenciar dores e de sustentar uma estrutura familiar que ameaça desmoronar — e, muitas vezes, essa ameaça não é feita pelas entidades.
As páginas que revelam o peso do cuidado

Assim como o cinema, os livros também exploram a mesma ferida: a solidão de quem cuida e a linha tênue entre amor, esgotamento e colapso. A literatura, ao mergulhar na intimidade das personagens, revela o que o olhar apressado muitas vezes não capta: a dor silenciosa de mulheres que tentam sustentar o peso de um mundo inteiro sobre os ombros.
Em Quarto, de Emma Donoghue — adaptado para o cinema como O Quarto de Jack, em 2015 —, a protagonista vive enclausurada em um espaço minúsculo com o filho pequeno. O terror não vem de fantasmas, mas do confinamento, da privação e da necessidade de proteger a criança a qualquer custo, mesmo sem ter para onde escapar. O livro e o filme escancaram como o cuidado pode ser, ao mesmo tempo, motor de sobrevivência e prisão.

Já em Objetos Cortantes, de Gillian Flynn — que ganhou uma adaptação audiovisual em minissérie pela HBO em 2018 —, a dor aparece por meio das feridas emocionais de Camille, moldadas por uma mãe abusiva. A maternidade, aqui, é apresentada como lugar de violência e trauma, subvertendo o imaginário do amor incondicional. Flynn revela como o vínculo materno, quando corrompido, pode gerar cicatrizes que acompanham a filha até a vida adulta.

Em Precisamos Falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver — adaptado ao cinema em 2011 —, acompanhamos Eva, uma mãe que tenta entender se o filho assassino nasceu mau ou se foi a relação com ela que o moldou. O romance expõe a culpa, a dúvida e o julgamento social em torno do papel materno, mostrando como a sociedade rapidamente responsabiliza a mãe por tragédias que vão muito além de seu controle.

Por fim, Vespeiro, da escritora gaúcha Irka Barrios, amplia o olhar para além da maternidade, reunindo contos que exploram os múltiplos papéis impostos às mulheres. A maternidade aparece em alguns deles como uma das faces da sobrecarga, mas não é a única: há narrativas que tratam do corpo feminino, da solidão, da pressão social e da luta por identidade em meio às demandas externas. O livro funciona quase como um retrato fragmentado da experiência feminina contemporânea, onde ser mãe pode significar abrir mão de si, mas também onde ser mulher, em qualquer contexto, carrega um peso que muitas vezes não é enxergado.

Trabalho invisível, dor visível: entre estatísticas e vidas reais
Esse retrato da sobrecarga feminina não se limita à ficção. Estudos vêm apontando, há décadas, como o acúmulo de responsabilidades domésticas e familiares impacta diretamente a saúde mental das mulheres.
Dados recentes confirmam que muitas mulheres brasileiras estão sobrecarregadas — não só com tarefas, mas com expectativas, responsabilidades e desgaste emocional. O relatório da ONG Think Olga, chamado Esgotadas, aponta que “86% das brasileiras se consideram com muita responsabilidade; 48% enfrentam dificuldades financeiras; 28% se declaram como única fonte de renda do lar; e cerca de 6 em cada 10 mulheres com idades entre 36 e 55 anos são responsáveis pelo cuidado direto de alguém”.

Além disso, os efeitos desse acúmulo de obrigações vão além do cansaço. A psicóloga Erica da Cruz Santos, mestre em Ciências pelo Instituto de Psicologia (IP) da USP e supervisora do Serviço de Psicologia e Neuropsicologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), afirma que a ansiedade, a fadiga, o estresse e a irritabilidade estão entre as principais consequências relatadas, especialmente desde que a pandemia intensificou a sobrecarga de trabalho, tanto dentro quanto fora de casa.
Os dados são alarmantes porque mostram como a sobrecarga, muitas vezes naturalizada, tem impacto direto na saúde mental. Se no cinema vemos mães sendo engolidas por monstros, na vida real esse fantasma aparece em forma de burnout, insônia, irritabilidade e, em casos mais graves, pensamentos suicidas.
Outra questão relevante é o chamado trabalho invisível. Além das tarefas físicas, há o peso mental de planejar, prever necessidades e administrar a rotina da família. Essa carga mental, muitas vezes desconsiderada, é apontada por psicólogos como um dos maiores fatores de estresse crônico em mulheres. A ausência de divisão justa das responsabilidades pode levar a quadros de exaustão, perda de identidade pessoal e sensação de isolamento. Ou seja, quando o cuidado não é compartilhado, ele deixa de ser afeto e passa a ser um gatilho para o adoecimento.

O tema ganhou tanta relevância social que foi escolhido para a redação do Enem 2023, sob o título “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”. A escolha mostra como essa discussão deixou de ser apenas acadêmica para se tornar questão de debate público e de políticas sociais.
Cuidar de quem cuida é um ato de prevenção
Seja na tela ou nas páginas, essas narrativas revelam que o horror mais profundo não está apenas nos monstros ou nas tragédias, mas na solidão de quem cuida sem ser cuidado. O esgotamento, a culpa e a invisibilidade não são apenas metáforas — são vivências cotidianas de milhares de mulheres.
No contexto do Setembro Amarelo, é impossível ignorar como a falta de apoio e o acúmulo de responsabilidades se transformam em gatilhos para ansiedade, depressão e outras dores silenciosas. O que o cinema e a literatura escancaram como ficção, a realidade confirma: quando a sobrecarga é naturalizada, a saúde mental de quem sustenta tudo fica em risco. Mais do que nunca, é urgente perguntar — e agir —: afinal, quem cuida de quem cuida?
O que é mais assustador: os monstros dos filmes de terror ou a solidão de quem cuida sem apoio? Compartilhe suas reflexões nas nossas redes — Instagram, Facebook e X — e, se gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!
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Texto revisado por Gabriela Fachin @gabrieladfachin









