Com ambição narrativa e estética, o terror psicológico brasileiro falha ao transformar metáforas em cenas sem consistência emocional
A premissa de A Herança de Narcisa – um retorno à ancestralidade, mágoas familiares e uma maldição que assombra casa e herdeira – possui ingredientes intrigantes. Paolla Oliveira esforça-se em dar corpo à protagonista Ana, e a ideia de usar o espaço da casa como metáfora simbólica para traumas não resolvidos tem potencial. No entanto, o filme acaba se afogando em suas próprias ambições: as referências ao terror psicológico clássico se diluem em roteiros previsíveis, personagens pouco explorados e sustos visuais que soam mais convencionais do que genuínas angústias.
Visualmente, o casarão e os elementos simbólicos (como a fita vermelha que supostamente representa laços e limites entre gerações) surgem com brilhantismo na ideia, mas não se sustentam dramaticamente. A sequência de limpeza da casa, a descoberta dos remédios controlados, o irmão que parte, tudo isso deveria construir tensão e desconforto, mas o ritmo irregular e a falta de aprofundamento nos conflitos internos impedem uma imersão real. O que poderia gerar reflexão sobre vínculos maternos e herança emocional, transforma-se em um resumo de clichês do gênero.

No quesito atuação, Paolla Oliveira segura a narrativa quando está em tela, mas o resto do elenco rende-se à caricatura. A escuridão simbólica da mãe-vedete Narcisa, por exemplo, nunca se transforma em figura aterrorizante nem em presença realmente perturbadora. Falta corpo e deixa a protagonista sozinha no peso da trama. A tentativa de unir drama familiar ao horror não atinge a coerência desejada: a expressão “maldição ancestral” soa vaga e pouco atuante na narrativa.
Embora o cinema nacional do gênero mereça reconhecimento por ousar, A Herança de Narcisa falha em criar algo memorável. A profundidade prometida se dissolve em convenções visuais e deslocamentos narrativos que não sustentam a tensão. Para quem espera não apenas sustos, mas uma exploração profunda de laços, trauma e identidade, esse filme entrega menos do que sua proposta sugere.
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Texto revisado por Ketlen Saraiva @lapidando_palavras









