Com muito charme, Mike Flanagan constrói um épico existencial sobre a vida humana e o direito de se deslumbrar com ela
Quando eu fui assistir A Vida de Chuck, a única informação que eu tinha sobre o filme era que o Tom Hiddleston estava no elenco e que a direção era assinada pelo Mark Flanagan, cujo trabalho eu costumo ver me escondendo da tela. Sem saber o que esperar, encontrei no cinema um filme suntuoso, com um roteiro criativo que celebra a vida em termos épicos, por menor que ela possa parecer.
Baseado em um conto de Stephen King, o longa faz um retrato da vida de um simples contador chamado Charles Krantz (Tom Hiddleston), ou Chuck, partindo de sua morte precoce aos 39 anos para então mergulhar nos principais momentos de sua grandiosa pequena existência. Em três atos contados inversamente, A Vida de Chuck é um filme sobre a vida, mas que parte da morte.
Confira o trailer do filme abaixo:
Um dos maiores triunfos de A Vida de Chuck está no primeiro ato, que é construído como um drama apocalíptico cheio de mistérios que provocam o público sem subestimá-lo, algo raro, mas muito bem-vindo atualmente.
Nesse início, somos apresentados a um universo muito instigante, e as escolhas criativas – como o uso de um narrador (Nick Offerman), a trilha sonora dramática, a composição das cenas e a iminência do fim do mundo – deixam claro que vamos acompanhar uma história de proporções épicas. Por essas características, A Vida de Chuck é um filme que cresce quando assistido na sala de cinema, permitindo que a trilha sonora extraia o máximo do seu potencial e que o público se deslumbre com o design de produção e a fotografia.
Ainda que o roteiro perca essa provocação a partir do segundo ato, com a voz do narrador passando a conduzir mais a história e, consequentemente, reduzindo a abertura para interpretações, o filme tem tanto charme e um coração tão grande que isso não diminui sua força.

A despeito do olhar intimista que uma história biográfica poderia sugerir, em A Vida de Chuck existe um distanciamento entre o público e seu protagonista, que não é complexo, e o filme nem parece ter a pretensão de tematizar seus conflitos. Chuck enxerga o mundo sem malícia nenhuma, através do melhor que ele tem a oferecer, e é uma perspectiva trabalhada ao longo de todo o filme com tanta força que, mesmo clichê ou ingênua, consegue ser muito comovente.
Nesse sentido, os atores que interpretam Chuck na pré-adolescência e na vida adulta – Benjamin Pajak e Tom Hiddleston, respectivamente – merecem destaque pelo carisma e pela composição de um personagem muito cativante, ainda que seja mais objeto de admiração ou símbolo do que alguém propriamente delineado. Os números de dança protagonizados por eles são maravilhosos.

Durante o filme, a seguinte estrofe do poema Canção de Mim Mesmo (51), do poeta estadunidense Walt Whitman é repetida várias vezes:
Eu me contradigo?
Muito bem, então eu me contradigo.
(Eu sou grande, eu contenho multidões.)
É verdade que o filme não propõe muitas contradições, nem em seu personagem título nem em seu enredo, mas o trecho funciona como um motif da narrativa. A Vida de Chuck contempla o mundo que existe dentro de cada um de nós, as multidões compostas por todas as pessoas que conhecemos e pelas nossas experiências.
Com muito charme, A Vida de Chuck, que chega aos cinemas hoje (4), transmite um sentimento de completude muito grande, de uma vida vivida de forma simples, mas que é grandiosa nessa simplicidade. Ainda que perca um pouco de fôlego após o primeiro ato, o filme nos faz perceber o quanto de vida cabe em apenas alguns segundos.
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Texto revisado por Gabriela Fachin @gabrieladfachin










