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Foto: divulgação/ Maria Magalhães

Entrevista | Caio Horowicz: das telas do streaming para os bastidores de Hamlet

Entre o streaming, o cinema internacional e os bastidores de Hamlet, o ator reflete sobre o papel do artista, a paixão pelo ofício e os reais desafios do audiovisual brasileiro 

 

Texto por Vitória Oliveira

Caio Horowicz parece estar em todos os lugares ao mesmo tempo — e o público só tem a ganhar com isso. O ator e diretor vive um momento prolífico na carreira, dividindo-se simultaneamente entre as telas do cinema, do streaming e a intensidade dos palcos. 

Emendando os lançamentos de Brasil 70 (Netflix) e O Rei da Internet, além de rodar festivais internacionais com o longa Isabel e assinar a assistência de direção da peça Hamlet em São Paulo, Caio prova que o tripé da criação artística é o que move seu dia a dia. Para ele, equilibrar tantas linguagens não é um peso, mas sim combustível: “Eu acho que uma coisa alimenta a outra, aprofunda a outra”, conta. 

Em um papo franco e cheio de descontração, o artista reflete sobre o amadurecimento nos bastidores, o cenário do audiovisual brasileiro e revela o desejo de estrear em novelas. Confira a entrevista completa: 

Foto: divulgação/ Maju Magalhães
Entretetizei: Você vive uma fase intensa da carreira, conciliando série, cinema e teatro. Como tem sido transitar entre linguagens tão diferentes ao mesmo tempo?

Caio Horowicz: É sempre bom fazer mais de um trabalho ao mesmo tempo, mais de uma linguagem ao mesmo tempo. Eu acho que uma coisa alimenta a outra, aprofunda a outra, e não o contrário. Eu sou do time que, para o trabalho do artista tudo é material. Tenho uma professora, Estrela Strauss, que fala que “o ator é o ser humano profissional”, então viver e olhar a intensidade da vida pela perspectiva de alguém que cava, que se pergunta “como isso aqui pode ajudar meu trabalho?”, isso me interessa. 

E: Em Brasil 70, da Netflix, você mergulha em um período marcante da história do país. O que mais te chamou atenção na construção desse personagem?

C.H: Eu gosto do Mazetti porque ele é muito ambicioso. Tá atrás do furo de reportagem, custe o que custar. Hoje seria o que a gente chama de jornalista sensacionalista, talvez. Mas ainda sim a gente empatiza com ele porque ele acredita no que tá fazendo, é inescrupuloso, ele vai atrás daquilo que ele acredita que o povo brasileiro precisa saber, seja quais forem as consequências disso. E é bom fazer personagens meio imorais assim, porque eu posso fazer coisas que eu não faria na vida. Posso ser meio escroto! Rsrs. 

Foto: divulgação/ Maria Magalhães
E: O Rei da Internet aborda temas ligados à fama e ao ambiente digital. Que reflexões esse projeto trouxe para você?

C.H: Eu acho que o Rei da Internet desconstrói aquele estereótipo do hacker que vive de capuz e moletom escuro, curvado na frente do computador. O Noturno é o contrário disso – apesar do nome – ele é um bon vivant, que gosta de festa, que goza dos prazeres da vida. Eu lembro que o Fabrício, diretor do filme, queria que eu fizesse luzes na época! Eu fiquei surpreso, pensei “ué, o nome do cara é Noturno e ele tem luzes?!”, mas depois que eu li o roteiro e entendi. Infelizmente, não rolou as luzes porque eu tinha outro trabalho na época, mas na próxima… quem sabe no Rei da Internet 2?! 

E: Isabel já circula em festivais internacionais. Como é ver uma produção brasileira alcançando públicos de diferentes países?

C.H: Acompanhar a vida de um filme nos festivais é muito entusiasmante. A gente encontra parceiros de trabalho, o fazer cinema fica efervescente, a gente tem a medida da recepção do público… a recepção do Isabel tá sendo maravilhosa. Em Berlim sala de 800 lugares lotada, em Pequim sala de mais de mil lugares, lotada e com fila de autógrafos! Buenos Aires sessões com conversas ótimas. A gente tá animado pelo lançamento no Brasil, em breve. 

E: Além de atuar, você também assina a assistência de direção de Hamlet. O que essa experiência nos bastidores acrescenta ao seu trabalho como ator?

C.H: Meu desejo desde que entrei na faculdade de Artes Cênicas na USP sempre foi ser ator, diretor e dramaturgo. Esse tripé sempre tive como artistas de referência que transitam nessas áreas. Grace Passô é uma delas. Então isso continua no meu projeto. Eu me formei em direção teatral na faculdade, e me formei como ator da EAD (Escola de Arte Dramática). Dramaturgo eu me tornei nos cursos livres que fiz ao longo da vida. E o Hamlet rolou por minha insistência com o Rafael Gomes. Cheguei para ele e pedi para ser assistente, e ele topou. Eu amo o Rafa e aprendo muito com ele na sala de ensaio. É maravilhoso para um ator viver um processo pela borda, observando sem se envolver tanto, vendo de dentro mas de fora. A gente aprende muito nessa relação mais distanciada. Foi por isso que eu fiz. Fiquei feliz de poder contribuir para a construção do espetáculo, que eu acho um acontecimento teatral. 

Foto: divulgação/ Fabio Audi
E: O audiovisual brasileiro vive um momento de expansão, com streaming e produções nacionais ganhando projeção internacional. Como você enxerga esse cenário?

C.H: Eu acho que o audiovisual brasileiro está vivendo o resultado das políticas públicas de anos atrás. O cenário atual, embora as produções estejam ganhando reconhecimento internacional, não é bom. Falta muito ainda. O desmonte da Ancine, a falta de editais e leis de incentivo… Por isso é tão importante que a gente cobre como sociedade civil a grana para o audiovisual e para o teatro brasileiro. A gente precisa aproveitar essa fase para ampliar o incentivo. O jogo está longe de estar ganho. 

E:  Existe algum personagem ou gênero que você ainda sonha interpretar e que talvez surpreendesse o público?

C.H: Quero fazer uma novela. Tenho me tornado noveleiro nos últimos anos, bom demais chegar em casa depois de um dia longo e de repente ficar aos prantos com o Tony Ramos chorando em baixo de uma tempestade… cenona aliás! Quero viver essa linguagem que eu nunca fiz. Tenho vontade e espero que role em breve. 

Foto: divulgação/ Maju Magalhães
E: Depois de tantos projetos importantes, o que mais tem despertado sua criatividade hoje: os desafios artísticos, as novas histórias ou as trocas com outros profissionais?

C.H: Tudo isso. Gosto de sentir que estou fazendo algo que vai tocar o público. Que vai ser relevante. Que vai entreter. O que me dá gás é isso. 

E: Qual foi o maior desafio da sua carreira até aqui e o que ele te ensinou como artista?

C.H: Acho que é a resiliência. Saber que vão ter momentos difíceis, que vai vir um “não” indesejado, que tem essa lida diária com a minha própria imagem como produto mesmo… são muitas questões. Saber que os momentos de alta também são passageiros, que tem que tomar cuidado na relação com o ego, que tem que cuidar pra não me deslumbrar quando vem o “sim”… tudo isso é o maior desafio. Mas a paixão e o sentido de ser ator, nada supera isso. Eu realmente acho que é a profissão mais legal do mundo. E mais importante. Desculpa aí para os médicos e engenheiros.

 

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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