Uma crítica à estética do privilégio e à transformação que novas plataformas estão promovendo
Durante anos, o universo das criadoras de moda e maquiagem online foi um reflexo do que muita gente preferia não enxergar: um clubinho fechado, branco, elitista e montado em cima de um padrão estético inalcançável. Mas, com a entrada de novas vozes, vindas de contextos variados e com narrativas reais, o jogo começou a virar. O reinado das it girls da internet já não dita mais sozinho o que é bonito.
Se você foi adolescente nos anos 2000 ou início dos anos 2010, sabe do que a gente tá falando. Aquela leva de meninas com quartos sempre bem iluminados, vídeos ensinando makes neutras, looks com peças de grife, viagens com a galera pra parques temáticos internacionais, mochilas importadas e um padrão estético impecavelmente dentro da caixinha. Tudo sempre muito acessível, natural e inspirador. Desde que você já partisse de um lugar de privilégio.
A verdade é que essa estética vendida como democrática nunca o foi. Por trás dos tutoriais fofos e da edição coloridinha, existia uma mensagem implícita: só quem se encaixa nesse molde pode pertencer. O resto… que assista e admire de longe.
Aquela vida que a gente via, mas não vivia
O mais cruel talvez não tenha sido o conteúdo em si, mas a forma como ele foi apresentado. A sensação era de que bastava querer, que, com um pouco de esforço, qualquer uma poderia ter aquela vida.
Mas os bastidores contavam outra história. Uma história de câmeras caras, passagens internacionais, apoio financeiro, contatos estratégicos e muito acesso. Acesso a tudo aquilo que a maioria não tem. Aqueles vídeos simples eram, na verdade, produzidos com uma estrutura de luxo.
Mesmo quem já tinha algum conforto via aquela realidade como distante. E pra quem vinha de um contexto ainda mais desigual, a sensação era de total exclusão. A internet, que poderia ter nascido como um território diverso e plural, acabou funcionando como espelho de uma mídia tradicional excludente.
De quem chega já no meio, pra quem agora mostra o começo
Nos últimos anos, esse cenário começou a mudar. E um dos grandes responsáveis por essa mudança tem nome: TikTok.
A plataforma abriu espaço para que novas vozes surgissem. Vozes de quem nunca teve tudo pronto. Gente que mostra o quarto apertado, a rotina corrida, o improviso na hora de montar um look, a maquiagem feita com o que tem. Pessoas que compartilham conquistas reais, que não vieram fácil, mas que são celebradas com o dobro de emoção.
@hendyohara_ Assiste até o final… . . . . . #hendyohara #históriadahendyohara #hendyedante Hendyohara e Dante
Não é que a ostentação tenha desaparecido. Ela ainda existe, muitas vezes replicando o mesmo padrão de antes. Mas agora, ela divide a atenção com conteúdos de quem está construindo a própria história desde o comecinho. Criadores que falam sobre sua primeira oportunidade de trabalho, sobre a alegria de comprar o primeiro batom de farmácia com o próprio dinheiro, sobre a conquista de um espaço onde antes só existia silêncio.
Essas narrativas tocam porque são reais. Porque representam trajetórias que antes eram invisíveis.
Nem sempre é justo — mas já é mais real
É claro que ainda há barreiras. Algoritmos continuam privilegiando rostos, corpos e estéticas que seguem um padrão ultrapassado. Algumas marcas seguem apostando apenas em quem já vem com o pacote pronto. E ainda existe desigualdade no acesso à tecnologia, ao tempo livre e até ao conhecimento necessário pra editar um vídeo.
Mas agora, essas desigualdades estão sendo expostas e questionadas. Existe um movimento crescente de valorização de conteúdos que vêm com verdade, com identidade, com vivência. E, talvez pela primeira vez, não só estamos vendo outras histórias sendo contadas, como estamos torcendo por elas.
@bia_tiemii Rotina de um casal clt que trabalha na mesma empresa, versão home office✈️💜 #clt #homeoffice #vlog #dailyvlog #routine #rotina
Ver alguém que começou gravando com o celular velho, que editava os vídeos no intervalo do trabalho, conquistar espaço real na internet é poderoso. Não por ser um conto de fadas moderno, mas porque revela que existem muitas formas de se chegar lá. E todas elas merecem ser contadas.
A internet já não é só um espelho — é um mosaico
Durante muito tempo, a internet refletiu um único tipo de sucesso: branco, magro, rico, urbano, comportado. Hoje, ela começa a se tornar um mosaico. Ainda incompleto, ainda desigual, mas muito mais honesto.
A pluralidade de vozes que vemos hoje, principalmente em plataformas como o TikTok, mostra que o interesse do público está mudando. Estamos aprendendo a valorizar a trajetória tanto quanto o resultado. Estamos aprendendo a enxergar beleza fora da estética de capa de revista.
@andressaprato Vamos jantar lasanha?
Essa nova fase não é só sobre moda ou maquiagem. É sobre pertencimento. Sobre escuta. Sobre respeitar outras vivências, abrir espaço e entender que o protagonismo precisa ser partilhado.
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Porque se for pra seguir alguém, que seja alguém que me faz sentir possível. E não inadequada.
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Texto revisado por Alexia Friedmann










