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Especial | Chainsaw Man e o desconforto de ler personagens quebrados

Por que o rótulo de mangá de incel não dá conta da obra de Tatsuki Fujimoto?

[Contém spoilers]

Desde sua estreia na revista Shonen Jump, Chainsaw Man (2018) se consolidou como uma das obras mais incômodas e debatidas da produção japonesa recente. Violento, caótico e emocionalmente instável, o trabalho de Tatsuki Fujimoto provoca reações extremas justamente por se recusar a oferecer conforto ao leitor. 

Seus personagens agem de forma errática, seus conflitos são atravessados por traumas e suas imagens frequentemente desafiam leituras simplificadas. Não é surpreendente, portanto, que a obra tenha se tornado alvo de interpretações conflitantes – algumas atentas às camadas de crítica social que ela constrói, outras mais apressadas em enquadrá-la em rótulos prontos.

Foto: reprodução/Anime 21

É nesse cenário que surge, com frequência crescente, a pergunta: Chainsaw Man é uma obra de incel? A questão costuma ser impulsionada por memes, leituras rápidas ou pelo desconforto diante da forma crua com que Denji expressa seus desejos mais imediatos. No entanto, reduzir a obra a esse rótulo não apenas empobrece o debate, como ignora a complexidade narrativa que Fujimoto desenvolve ao longo da história. 

Mangás e animes ganham o significado que os leitores atribuem a eles, e isso é um fato. Há quem enxergue misoginia onde outros percebem crítica social; há quem veja apenas desejo sexual onde outros identificam um retrato de abandono e sobrevivência. 

Foto: reprodução/Letras & CIA

Entretanto, interpretação não é um território isento de responsabilidade. Quando uma leitura transforma vulnerabilidade em ideologia de ódio ou utiliza a ficção para legitimar preconceitos, ela deixa de ser apenas uma opinião. Nesse sentido, Chainsaw Man (2018) não é uma obra de incel: esse significado é atribuído por determinados leitores, mas não corresponde às escolhas temáticas, simbólicas e narrativas que Tatsuki Fujimoto constrói ao longo de sua obra.

O que, afinal, é incel?

O termo vem de involuntary celibate (tradução livre: celibatário involuntário), um movimento digital formado por homens que se consideram rejeitados sexualmente e transformam essa frustração em ideologia de ódio contra mulheres. Mais do que a ausência de experiências sexuais, trata-se de um fenômeno ligado à radicalização online, à misoginia e à crença de que afeto e validação são direitos negados injustamente. 

Essa dinâmica ganhou visibilidade recentemente com a premiada minissérie Adolescência (2025), da Netflix, que expõe como a violência juvenil, a masculinidade tóxica, o bullying, a saúde mental fragilizada e a influência da chamada machosfera se entrelaçam na formação de jovens em crise. A série mostra como a falta de diálogo familiar, a pressão social e a busca por pertencimento encontram terreno fértil em ambientes digitais marcados por discursos extremistas, revelando que a radicalização não nasce do desejo em si, mas da incapacidade de elaborá-lo emocionalmente.

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É justamente nesse ponto que muitas leituras escorregam. Ao transformar carência, insegurança ou desejo em sinônimo de ideologia incel, ignora-se o que produções como Adolescência (2025) evidenciam: o problema não é sentir falta de afeto, mas sim quando essa falta é instrumentalizada por discursos que legitimam preconceito e violência.

Foto: reprodução/Netflix

No caso de Chainsaw Man (2018), a confusão surge porque Denji é, de fato, movido por necessidades básicas – comida, contato físico e reconhecimento – e as expressa de forma crua. No entanto, isso não o aproxima do imaginário incel. Ao contrário: revela um garoto moldado pela miséria extrema, pela negligência e pela ausência total de educação emocional. Sua trajetória não constrói ressentimento ideológico contra mulheres, mas expõe as consequências de crescer sem cuidado, sem escuta e sem referências afetivas, deslocando o foco do ódio para o trauma.

Por que reduzir Denji a incel é ignorar a narrativa?

A estrutura de Chainsaw Man não valida qualquer fantasia masculina de revanche ou vitimização. Denji não odeia mulheres, não projeta nelas seu sofrimento e tampouco transforma suas frustrações em ideologia. Seus desejos são simples porque sua vida sempre foi simples demais: ele quer carinho, porque nunca recebeu; quer atenção, porque sempre foi invisível; quer proximidade, porque cresceu sozinho. Nada disso é político, é sobrevivência emocional.

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O mundo que o cerca – violento, burocrático e predatório – o empurra para relações onde ele está sempre em desvantagem. Sua vulnerabilidade não é uma postura, é uma marca deixada por anos de negligência e abuso. É aí que a crítica social de Fujimoto se destaca: Denji não é um jovem ressentido, mas alguém emocionalmente faminto, disposto a confundir qualquer migalha de afeto com amor verdadeiro – e toda vez que ele se aproxima disso, a narrativa o arranca de volta para o vazio. Assim, reduzir Denji à figura do incel é ignorar a lógica interna da obra e, principalmente, o peso do trauma que molda a sua subjetividade. 

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Um dos momentos mais cruciais – e com frequência ignorado por quem assistiu apenas a primeira temporada do anime e resume a obra ao garoto obcecado em tocar peitos – é a revelação do que há atrás da porta. Ali não existe violência ideológica ou ódio reprimido, mas uma memória insuportável: Denji, ainda criança, matou o próprio pai alcoólatra em legítima defesa. A porta funciona como uma barreira psíquica construída para que ele pudesse continuar existindo sem ruir. É a partir dela que Fujimoto critica os mecanismos sociais que produzem sujeitos emocionalmente destruídos.

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No capítulo 82, quando Makima força Denji a abrir a porta após ele estar abalado pela morte de Aki e Power, o protagonista não encara apenas uma verdade reprimida, mas o colapso da vida frágil que tentou construir a partir do apagamento do próprio trauma. Nesse contexto, sua carência não se configura como entitlement afetivo – termo associado à crença de que alguém merece, por direito, reconhecimento ou afeto sem necessariamente construí-los –, mas como o resultado de uma subjetividade marcada pela privação. Denji nunca aprendeu a desejar de forma segura porque jamais teve acesso a vínculos estáveis, escuta contínua ou qualquer forma consistente de proteção.

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Makima, Denji e a crítica ao controle

Makima não é manipuladora apenas porque Denji a percebe assim, ela o é porque encarna literalmente o Demônio do Controle. Dominar é a sua natureza e ela o faz com precisão calculada. Sua agência não depende da visão masculina ou das expectativas do protagonista: ela age a partir de objetivos próprios e de um poder que existe independentemente do olhar alheio.

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Já Denji não é manipulado por ser um incel, mas por ser um adolescente emocionalmente debilitado, isolado e carente de afeto. Makima explora cada fissura psicológica dele como parte de um projeto maior: destruir sua humanidade para revelar o verdadeiro Chainsaw Man, o demônio que ela idolatra. A dinâmica entre os dois não é uma fantasia masculina de poder, é uma exposição brutal de como relações abusivas e estruturas autoritárias capturam indivíduos vulneráveis.

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O interesse de Makima jamais recai sobre Denji enquanto sujeito. Ela o despreza, o desumaniza ao ponto de torná-lo seu cachorro e só o mantém por perto porque ele é o hospedeiro de Pochita. Seu afeto é uma simulação meticulosa, uma estratégia para manter o controle total sobre o Chainsaw Man, afinal ele é um dos meios para que ela possa colocar em prática o seu plano.

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Contudo, seu projeto de mundo perfeito nasce de um paradoxo: Makima deseja conexão, amor e família, mas só consegue se aproximar dos outros pela via da dominação absoluta. Ao planejar usar o Chainsaw Man para eliminar os demônios da guerra, fome, morte e sofrimento, ela busca mais do que livrar a humanidade da dor, ela quer criar um mundo onde todos sejam como ela: imortais e protegidos, mas completamente desprovidos de liberdade. É uma utopia autoritária, em que o fim do sofrimento exige o apagamento da escolha.

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Nesse contexto, Denji não é o sujeito desejante que oprime, mas o corpo instrumentalizado, reduzido a recipiente. A violência da relação não nasce da carência dele, mas do modo como ela é usada e distorcida por alguém incapaz de diferenciar controle de amor e poder de afeto.

O que emerge quando deixamos o rótulo e encaramos a obra

Chainsaw Man (2018) é sujo, caótico e visceral, mas, ao mesmo tempo, profundamente humano. Rotulá-lo como um mangá de incel não é apenas uma leitura preguiçosa, mas uma recusa em encarar o que a obra efetivamente propõe. Trata-se de uma tentativa de achatar um texto complexo para que ele caiba na lógica simplificadora de um meme.

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É verdade que toda obra ganha novos sentidos conforme o leitor quer, mas existe um limite: algumas interpretações simplesmente desmoronam quando colocadas diante da densidade do próprio material. Fujimoto constrói uma narrativa sobre controle, trauma, solidão, violência estrutural, precariedade e desumanização dentro de um mundo que perdeu qualquer promessa de sentido. Nada disso é acidental.

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A tragédia de Denji não nasce do ressentimento, mas da precariedade. Sua batalha é contra o vazio que o atravessa, contra a fome, a miséria, o abandono e a impossibilidade de ser amado em um mundo que o trata como descartável. Reduzir essa trajetória à caricatura de um ressentimento masculino é ignorar o núcleo emocional da história e desviar o olhar do que ela expõe com mais contundência: a forma como estruturas de poder operam pela exploração da fragilidade, transformando sujeitos vulneráveis em instrumentos.

Fazer isso é perder a crítica que sangra de cada página. É recusar ver que, por trás do gore, das piadas e do caos, existe uma obra que pergunta o tempo todo: quem tem poder, quem está submetido a ele e o que resta de nós depois disso?

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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz

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