Uma análise sobre representação, complexidade e intenção narrativa
A representação feminina nos mangás sempre foi alvo de discussão e, em muitos momentos, de contestação. Enquanto uma parcela relevante de autores homens ainda recorre à objetificação como recurso narrativo, reforçando corpos hiperestilizados, piadas sexualizadas e mulheres que orbitam o protagonista masculino, várias mangakás mulheres seguem um caminho distinto, construindo personagens densas, contraditórias, fortes e plenamente humanas. A diferença não se resume ao gênero de quem escreve, mas à perspectiva, e a perspectiva é a lente que define o que é aprofundado e o que é deixado à margem.

A sexualização como eixo e problema recorrente
Seria impreciso afirmar que todos os mangakás homens escrevem mal as mulheres, afinal existem exceções notáveis. Autores como Yoshihiro Togashi, em Hunter x Hunter (2008), e Makoto Yukimura, em Vinland Saga (2014), demonstram que é possível construir personagens femininas complexas sem recorrer ao fanservice. Ainda assim, certos padrões se repetem com frequência nos gêneros mais populares.

Em muitos shonen e mesmo em alguns seinen, a lógica visual se impõe sobre a lógica narrativa: roupas improváveis em combate, corpos que seguem regras próprias de física e anatomia, humor baseado em constrangimento sexual e personagens femininas que servem ao enredo, mas raramente escapam da função de apoio.

Em várias obras, o fanservice acaba ocupando o espaço que deveria pertencer ao desenvolvimento psicológico. É a câmera, e não a história, que decide o que importa. Esse tipo de construção diz muito sobre o olhar de quem escreve. É um olhar moldado não apenas por expectativas do mercado, mas por uma tradição que, por décadas, reforçou a mulher como o elemento decorativo do grupo, a fonte de alívio cômico ou a motivação emocional do herói. Quando o corpo da personagem se torna o ponto central, sua subjetividade inevitavelmente se esvazia.
Quando mulheres escrevem mulheres
Mangakás mulheres não escrevem personagens femininas melhores porque pertencem ao mesmo gênero das personagens, mas porque partem de vivências que atravessam cada gesto e contradição de suas protagonistas.

Hiromu Arakawa, por exemplo, constrói em Fullmetal Alchemist (2007) mulheres que ocupam espaço narrativo sem depender de sexualização ou de validação masculina. Suas personagens têm objetivos próprios, tomam decisões que impactam o enredo e exercem poder com naturalidade – poder que não precisa ser justificado nem suavizado.

Arakawa não está sozinha. Rumiko Takahashi, em Inuyasha (2002), desenvolve uma protagonista que aprende e se transforma sem ser tratada como apoio emocional do herói. Em Sailor Moon (2014), Naoko Takeuchi eleva a feminilidade ao patamar de força narrativa, recusando a ideia de que sensibilidade e coragem são opostos. Em Nana (2008), Ai Yazawa mergulha em subjetividades femininas tão complexas que se aproximam mais da literatura contemporânea do que dos estereótipos tradicionais do mangá comercial.

Mesmo quando um homem rompe o padrão – como é o caso de Claymore (2001), escrito por Norihiro Yagi – o contraste revela algo importante: a diferença não é apenas de habilidade individual, mas de prioridade narrativa.
Vivência como lente
A experiência de mundo faz diferença, porque influencia as perguntas que o autor ou autora faz enquanto escreve. Muitas mangakas conhecem, de dentro, o peso das expectativas sociais, o julgamento sobre a aparência, a cobrança emocional, a sensação de ser subestimada e o desejo constante de ser mais do que a garota bonita da história.

Essas vivências se transformam em camadas que dificilmente surgem quando a personagem é escrita apenas a partir do olhar externo. Isso não implica que todas as autoras rejeitam a sexualização – Miki Yoshikawa, em Yamada-kun and the Seven Witches (tradução livre: Yamada-kun e as Sete Bruxas, 2012), explora o ecchi como recurso cômico –, assim como não significa que todos os autores homens ignoram a complexidade. Todavia, as tendências são visíveis e ignorá-las é fechar os olhos para o modo como estrutura, mercado e perspectiva moldam a ficção.
A linha que separa fanservice de personagem
No fim das contas, a divisão mais precisa não é entre homens e mulheres, mas entre duas prioridades distintas: fanservice e construção narrativa. Quando a estética e o apelo visual se tornam mais importantes do que a trajetória e o propósito da personagem, o resultado é raso. Quando a história se dedica a explorar contradições, desejos e conflitos, a personagem ganha densidade e, com isso, verdade.

A pergunta que define essa diferença permanece simples: o que essa personagem representa dentro da narrativa? Se a resposta gira em torno do corpo, algo essencial foi sacrificado.
O peso cultural de escrever mulheres
Representações moldam percepções. Moldam como meninas entendem seu espaço no mundo e como meninos aprendem a olhar para elas. Uma ficção que trata mulheres como ornamentos reforça a ideia de que sua relevância está vinculada à aparência. Uma ficção que as trata como sujeitos completos ensina que força, inteligência, vulnerabilidade e imperfeição podem coexistir, e que nada disso depende de aprovação masculina.

Mangás escritos por mulheres não são necessariamente superiores, mas mostram com clareza o que acontece quando a feminilidade é representada com respeito, profundidade e humanidade. É aí que a ficção deixa de repetir estereótipos e passa a criar possibilidades.

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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz









