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Crítica | Confusões do Amor diverte, mas tropeça na própria proposta

Livro aposta em fake dating, protagonistas maduros e muito humor, mas perde força ao deixar algumas de suas melhores ideias sem conclusão 

[Contém spoiler] 

Comédias românticas vivem de fórmulas conhecidas. O fake dating, por exemplo, já foi explorado inúmeras vezes na literatura contemporânea, mas continua conquistando leitores quando encontra personagens carismáticos e uma dinâmica capaz de fazer o coração acelerar. Em Confusões do Amor (2026), Lynn Painter aposta justamente nessa combinação e entrega uma leitura leve, divertida e extremamente envolvente, ainda que nem todas as promessas da trama sejam cumpridas.

Foto: divulgação/Intrínseca/Entretetizei

A história acompanha Abi Mariano, uma jovem que está desesperada por um lugar para ficar. Após seu apartamento ser interditado por conta de uma infestação, ela precisa encontrar uma solução rápida enquanto tenta equilibrar dois empregos e as dívidas estudantis que continuam se acumulando. Quando surge a oportunidade de passar uma noite no apartamento luxuoso de um cliente que está fora da cidade, a decisão parece inofensiva.

O problema começa na manhã seguinte, quando ela acorda e dá de cara com os pais do proprietário. O dono do apartamento é Declan Powell, um empresário bem-sucedido que inventou uma namorada para escapar das constantes cobranças familiares sobre sua vida amorosa. Ao encontrarem Abi em sua casa, seus pais concluem imediatamente que ela é Abby Green. Sem conseguir desfazer o mal-entendido, Declan propõe um acordo: ela continuará interpretando esse papel em troca de dinheiro e um lugar para ficar. 

A escrita de Lynn flui de forma natural e consegue envolver o leitor. Confusões do Amor é o tipo de livro que pode facilmente ser lido em uma única sentada, especialmente porque os primeiros capítulos apresentam um gancho muito eficiente e o leitor se deixa levar pela releitura moderna da Cinderela. A dinâmica entre Abi e Declan funciona desde o início, e o leitor logo se vê imerso na narrativa para descobrir até onde aquela mentira será capaz de chegar.

Foto: divulgação/Intrínseca/Entretetizei

Os diálogos são divertidos, as interações possuem química e a autora sabe equilibrar momentos cômicos com cenas que provocam aquele clássico friozinho na barriga dos romances. Há situações absurdamente engraçadas ao longo da trama – uma delas envolvendo um escorpião, o que levará o leitor a nunca mais enxergá-los da mesma maneira.

Outro ponto positivo está na construção do relacionamento. Diferentemente dos romances escritos pela autora protagonizados por personagens mais jovens, aqui acompanhamos adultos enfrentando dilemas compatíveis com a fase da vida em que se encontram e de acordo com sua classe social. A aproximação entre Abi e Declan acontece de forma gradual e convincente, permitindo que o leitor observe a transformação da parceria conveniente em algo genuinamente afetivo.

Contudo, quando a narrativa começa a se aproximar dos conflitos que ela própria construiu, algumas escolhas acabam enfraquecendo seu impacto.

O principal problema está justamente no uso do fake dating. Uma das grandes forças dessa trope costuma ser o momento em que a mentira deixa de ser sustentável e as consequências finalmente chegam. Em Confusões do Amor, entretanto, essa promessa nunca é cumprida.

Foto: reprodução/Instagram @intrinseca

Durante boa parte da história, a família e o círculo social de Declan se encantam por Abby Green – a versão sofisticada, elegante e bem-sucedida que ele cria para sustentar a mentira. Eles não conhecem Abi Mariano, a mulher que trabalha em dois empregos, enfrenta dívidas estudantis, usa roupas de dois dólares que sempre têm erros de impressão por serem mais baratas e carrega responsabilidades familiares que influenciam diretamente sua forma de enxergar a vida. A narrativa constrói um interessante contraste entre essas duas versões da protagonista, mas nunca leva essa ideia às últimas consequências.

Quando a trama finalmente deveria confrontar a realidade de Abi com a imagem idealizada de Abby Green, o conflito simplesmente não recebe a atenção que merece. O resultado é uma sensação de oportunidade desperdiçada, ainda mais porque esse talvez fosse o aspecto mais rico de toda a premissa.

Algo semelhante acontece com uma das reviravoltas envolvendo Declan e Roman. A ideia por trás do mistério funciona bem e ainda cria conexões interessantes com Lauren, uma das personagens secundárias mais carismáticas da obra. O problema é que a revelação perde força porque o leitor descobre boa parte da verdade muito antes da protagonista. Assim, o suspense deixa de existir para quem acompanha a narrativa, permanecendo apenas para Abi.

A classificação para maiores de 18 anos também pode gerar expectativas diferentes entre os leitores. Embora o romance acompanhe protagonistas mais maduros e inclua cenas íntimas, a abordagem escolhida por Lynn Painter pode dividir opiniões. Em vez de apostar em momentos mais diretos ou intensos, a autora constrói sequências bastante poéticas e fragmentadas, distribuídas ao longo de vários capítulos curtos.

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Para leitores que normalmente não buscam romances com forte carga de sensualidade, essa escolha pode funcionar muito bem. Já aqueles que chegaram ao livro esperando que a classificação indicativa e a premissa mais adulta resultassem em cenas mais marcantes talvez encontrem uma experiência menos impactante do que imaginavam. Em alguns momentos, a sensação é de que a narrativa prolonga essas passagens sem que elas entreguem uma recompensa emocional ou narrativa proporcional, o que faz pensar que uma abordagem mais simples – ou até mesmo um discreto “e se amaram a noite toda” – poderia ter produzido um efeito mais eficiente.

Nem mesmo o desfecho consegue dissipar completamente essa impressão. Lynn Painter entrega momentos românticos que certamente arrancarão suspiros de muitos leitores, mas algumas soluções parecem simplificar questões que vinham sendo construídas de maneira muito mais complexa ao longo do livro e as atitudes dos personagens nunca enfrentam as consequências esperadas – como, por exemplo, a proposta de Roman para Abi. Gestos concretos, que foram inventados por Abi no início da narrativa, como o presente do gato hipoalergênico ou o buquê formado por bombinhas e canetas de adrenalina para asma, são fofos e coerentes com o tom da obra, mas não conseguem compensar totalmente a falta de aprofundamento de determinados conflitos.

Ainda assim, seria injusto ignorar o quanto Confusões do Amor funciona como entretenimento. O livro é engraçado, charmoso e extremamente fácil de ler. Abi e Declan formam um casal cativante, a química entre eles é inegável e a jornada de construção do romance mantém o leitor cativado até a última página.

Talvez este não seja o trabalho mais consistente de Lynn Painter, especialmente por deixar algumas de suas melhores ideias pelo caminho. Ainda assim, permanece uma comédia romântica divertida e acolhedora, capaz de proporcionar risadas, suspiros e algumas horas de puro escapismo – mesmo que, ao final, fique a sensação de que a história poderia ter ido um pouco além.

Foto: reprodução/Instagram @sisterbooksdaily

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Texto revisado por Alexia Friedmann

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