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Foto: reprodução/Synapse Distribution

Crítica | A Voz de Hind Rajab e o cinema como memória

Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Veneza, o longa transforma a escuta em ato político ao denunciar a violência em Gaza

[Contém gatilhos e spoiler]

Há filmes que não permitem ao espectador a postura confortável de quem apenas observa. A Voz de Hind Rajab (2025) é um deles. Assistir ao longa é experimentar um estado contínuo de desespero: o corpo tenso, a respiração curta, a sensação de que o tempo não avança rápido o suficiente. A cada minuto, a pergunta “eles vão conseguir salvá-la?” ecoa, e a ausência dessa resposta se transforma na força mais cruel do filme.

Foto: reprodução/O Globo

Dirigido e roteirizado por Kaouther Ben Hania, o longa de 89 minutos recria, a partir de fatos reais e gravações divulgadas em janeiro de 2024, a agoniante tentativa de resgate de Hind Rajab, uma menina palestina de seis anos que ficou presa dentro de um carro cercado pelos corpos de familiares assassinados durante um ataque no norte de Gaza.

A narrativa acompanha um grupo de voluntários da Crescente Vermelha, na Cisjordânia, responsáveis por atender ligações de emergência e tentar viabilizar socorros em meio a um cenário de violência extrema e burocracia sufocante.

O centro de ligações como campo de batalha

Ao longo de quase toda a duração, o filme se mantém dentro do centro de ligações da organização. É dali que Rana (Saja Kilani), Omar (Motaz Malhees), Nisreen (Clara Khoury) e Mahdi (Amer Hlehel) tentam manter Hind consciente e viva enquanto negociam, ligação após ligação, a autorização para que uma ambulância possa chegar até ela.

Foto: reprodução/Lisboa Film Festival

A recusa inicial de Mahdi em autorizar o resgate não nasce da indiferença, mas do medo justificado: qualquer missão que não siga uma rota aprovada pelo exército israelense coloca os próprios socorristas sob risco de morte. Cada decisão carrega o peso de vidas que podem ser perdidas em cadeia.

Foto: reprodução/Festival do Rio
A força de uma voz que nunca vemos

Hind quase nunca aparece em cena. Sua presença se dá, sobretudo, pela voz – frágil, assustada e, por vezes, interrompida pelo silêncio. As raras imagens da menina surgem apenas quando um tio, que vive na Alemanha, envia fotografias para ajudar na identificação dos presentes no veículo em que ela está presa. 

Foto: reprodução/Grupo Estação

Essa escolha narrativa é central para o impacto do filme: ao evitar a exposição direta do corpo da criança, Kaouther Ben Hania intensifica sua presença simbólica.

O uso das gravações reais, combinadas à atuação do elenco, borra as fronteiras entre a ficção e o registro histórico. O resultado é um filme que não apenas representa um acontecimento, mas o faz reverberar de forma quase física no espectador.

Quando o cinema sabe a hora de se conter e quando escorrega

Nos momentos em que aposta na simplicidade, A Voz de Hind Rajab é devastador. O som incessante dos telefones, a cacofonia de vozes, o choro contido – e às vezes incontido – dos voluntários criam um ambiente claustrofóbico que paralisa e inquieta.

Foto: reprodução/Vi nos Filmes

Há, porém, instantes em que o filme flerta com soluções mais tradicionais de dramatização, expondo emoções e guiando o espectador de maneira mais evidente do que o necessário. Nessas brechas, o impacto se suaviza levemente. Ainda assim, são exceções dentro de uma obra que entende que a realidade, por si só, já é impensável.

O desfecho que não nos deixa sair ilesos

O final é impossível de esquecer. Quando a ambulância finalmente se aproxima, o filme permite um alívio breve, quase involuntário. O resgate está ali. A esperança se instala. E, então, ela é brutalmente arrancada.

Foto: reprodução/Vi nos Filmes

Mesmo após o sinal verde para a aproximação, a ambulância é alvejada e explode. O carro onde Hind estava – escondida apenas no sentido literal, já que os tanques militares israelenses contam com sensores infravermelhos capazes de detectar pessoas vivas – também é atacado. Durante mais de três horas, os disparos aconteceram sabendo que ela estava ali. O veículo foi atingido 355 vezes

Um filme necessário em tempos de apagamento

Vencedor do Leão de Prata – Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza de 2025 e escolhido como o representante da Tunísia na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional, A Voz de Hind Rajab se afirma como uma obra imprescindível não apenas no campo cinematográfico, mas no debate político, ético e humanitário contemporâneo. Trata-se de um filme que se recusa à neutralidade e entende o cinema como espaço de responsabilidade histórica.

Ao evitar transformar a morte de Hind em espetáculo ou reviravolta narrativa, Kaouther Ben Hania realiza um gesto profundamente político: nomeia a violência, revela seus mecanismos e devolve humanidade àqueles que o mundo insiste em reduzir a estatísticas. O filme não busca choque fácil nem catarse: ele exige escuta, permanência e confronto com a realidade que muitos preferem ignorar.

Em um cenário global marcado pela anestesia diante do genocídio do povo palestino, ouvir a voz de Hind é um ato de memória. E lembrar, aqui, não é apenas rememorar o passado, mas resistir ao apagamento, recusar o silêncio e afirmar que essa história, como tantas outras, não pode ser esquecida nem normalizada. O cinema, neste caso, não consola: ele guarda, denuncia e insiste.

Foto: reprodução/Clube de Cinema

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Texto revisado por Alexia Friedmann

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