O documentário de Sepideh Farsi é um retrato doloroso sobre a humanidade e o desejo de viver do povo palestino
[Contém gatilhos]
Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe é um documentário difícil de recomendar, mas é, ao mesmo tempo, absolutamente indispensável. Dirigido pela cineasta iraniana Sepideh Farsi, o filme compõe um retrato íntimo do genocídio palestino a partir das conversas entre Farsi e uma fotojornalista de Gaza, Fatem Hassona, antes de ser assassinada pelas forças de ocupação israelenses em um bombardeio em 16 de abril de 2025, poucos dias após a seleção do filme para Cannes.
Contado a partir de videochamadas, fotos tiradas por Fatem e noticiários, Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe é um testamento do orgulho da identidade palestina e da vontade profundamente humana de contar a própria história. Confira o trailer abaixo.
No longa, o genocídio e o povo palestino estão, como na vida real, alienados do resto do mundo. Farsi, como nós, acompanha a violência por noticiários e nunca coloca cenas gráficas ou explícitas na tela, ainda que a violência e a morte assombrem todas as chamadas e mensagens entre as duas.
Cada segundo que Fatem está na tela é definido pela sorte: por uma bomba que caiu dois prédios ao lado em vez de sobre sua família; por um sniper que, naquele dia, não estava presente; pelo milagre de encontrar um pacote de salgadinhos fechado ou uma garrafa com água não contaminada. Em uma das chamadas, Fatem apresenta a Farsi seu antigo bairro, virando a câmera para um horizonte de ruínas, escombros e destruição.

A fragilidade da conexão entre as duas fica evidente sempre que Fatem perde o sinal e Farsi nos faz encarar uma tela vazia por segundos que se estendem por horas, segundos em que as quase 70 mil pessoas (segundo dados de novembro da WAFA) assassinadas por Israel nos vêm à mente e lembramos que não há uma pessoa que está segura sob o céu palestino, sobretudo aquelas com uma câmera na mão.
E isso é muito importante, afinal, Fatem é fotojornalista. É através de sua lente que o documentário nos coloca em Gaza, entre toda a destruição, e, para ela, sua responsabilidade é óbvia: se não documentarem o próprio genocídio, quem o fará? “Minha Gaza precisa de mim”, ela explica simplesmente em determinado momento, dizendo que não tem interesse algum em se mudar do seu país, da sua terra.

Todo esse seu compromisso, assim como a naturalidade com que relata os bombardeios e as dificuldades de encontrar os restos mortais de seus familiares para enterrá-los, é atravessado por conversas em que Fatem mostra a Farsi seus irmãos, fala sobre como sua avó costumava fazê-la dormir com tapinhas nas costas e diz que seu maior sonho é comer frango e chocolate e poder respirar ar puro novamente.
Por alguns segundos, pode parecer que estamos apenas invadindo uma videochamada entre amigas, e são momentos como esses que o público se lembra que Fatem tem apenas 24 anos, mas já conhece e convive com uma violência que muitos de nós sequer somos capazes de imaginar.
Na Palestina, a morte coexiste com o desejo irremediável de viver, e esse costume é o que faz Fatem estar sempre sorrindo: em 24 anos, ela nunca conheceu uma Gaza que não estivesse ocupada pelas forças coloniais israeles, e o que ela poderia fazer diante disso senão tentar viver mesmo assim?

Enquanto assistia Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe, me lembrei do trecho de um ensaio publicado em julho de 2025, por uma jovem chamada Haya, filha de imigrantes palestinos nos Estados Unidos, em que ela diz:
“Palestinos têm essa habilidade de coexistir com a morte de uma forma que eu nunca vi igual. Vender frutas horas depois de enterrar um ente querido, limpar os escombros de suas casas demolidas ou bombardeadas, ajustar o tapete, varrer a bagunça e convidar pessoas para tomar um chá uma hora depois. A morte não era um homem de capuz escuro e uma foice, surpreendendo-os; a morte era um vizinho. Para alguns, era um presente” (tradução livre).

De forma semelhante, Fatem explica a Farsi em uma das primeiras trocas entre as duas no documentário:
“Sinto muito orgulho,” diz Fatem. “Somos fortes e corajosos, e pessoas muito importantes no mundo. Nós nos acostumamos a ser assim desde que éramos crianças. O que quer que façam conosco, como quer que tentem nos destruir, ou mesmo se eles nos matarem, nós vamos rir e viver nossas vidas, quer eles queiram ou não. Eles não podem nos derrotar.”
A busca por algum vestígio de normalidade se torna palpável em Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe. O desejo pela vida persiste mesmo entre ruínas e cercado de morte, e o sorriso no rosto dos palestinos é fruto do orgulho de um povo que, sem nada a perder, carrega o coração na mão e resiste.
Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe chega aos cinemas dia 27 de novembro.
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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura










