Antes de maratonar outra novela turca, vale entender as diferenças – e também as semelhanças – entre árabes e turcos. Vem com a gente!
Com a popularidade das novelas turcas pelo mundo e o aumento das notícias sobre Israel e Palestina, os temas “turcos”, “muçulmanos” e “árabes” vêm sendo cada vez mais comentados e pesquisados, principalmente por curiosos que têm, como objetivo, entender mais cada um. Mas você sabia que nem todo árabe é muçulmano e que turcos não são árabes?
Pois é. Para alguns, essa informação pode parecer óbvia, mas como um portal que é referência em cultura turca, o óbvio precisa ser dito. É de extrema importância entendermos os contextos nos quais estamos inseridos, para evitar confusões, desentendimentos – e até mesmo para você não se envergonhar no meio daquela conversa super bacana. Então continue a leitura, porque vamos te explicar!
Árabe é uma religião ou uma etnia? E nem todo árabe é muçulmano, isso procede?
Sim, nem todo árabe é muçulmano! E por quê? Simples: árabe é uma etnia, assim como quando alguém fala que é “brasileiro” ou “americano”. Já muçulmano refere-se à religião, neste caso, oriunda do islamismo – assim como quando alguém fala que é evangélico, católico ou umbandista. Fez sentido?
E não para por aí: existem outras religiões presentes nos países árabes, como o cristianismo (em diferentes ramos, como o catolicismo, o ortodoxismo e o maronitismo), além de comunidades judaicas e drusas. Essa diversidade mostra que o mundo árabe é formado por povos e crenças diferentes, unidos principalmente pela língua árabe e por aspectos culturais compartilhados, e não apenas pela religião, da mesma forma que os turcos contam com uma diversidade religiosa (como veremos a seguir).

Nas novelas turcas e filmes/séries sobre o Oriente Médio, vemos a presença de muitos hábitos da religião e da cultura, sempre variando de acordo com o local. Mas uma coisa é certa: você nunca verá um árabe chamando outro árabe de turco, nem um turco chamando outro turco de árabe. É por isso que é importante entendermos as diferenças!
Historicamente, os povos árabes se originaram na Península Arábica e se expandiram a partir do século VII, durante o crescimento do islamismo, levando sua língua e cultura para regiões do Norte da África e do Oriente Médio. Essa expansão moldou boa parte da herança cultural árabe que conhecemos hoje. Entenda mais sobre as religiões árabes a seguir.
Quais são as religiões árabes?
Apesar de o islamismo ser predominante na maior parte dos países árabes, ele não é o único. Há cristãos em países como Líbano, Síria, Egito e Jordânia, comunidades judaicas em Marrocos e Tunísia, e também grupos drusos e bahá’ís, cada um com suas próprias tradições. Essa pluralidade religiosa reforça que “árabe” não é sinônimo de “muçulmano”, mas um termo que abrange uma ampla diversidade cultural, linguística e espiritual. Interessante, né?
Ou seja, você vai encontrar famílias libanesas, sírias, egípcias e outras etnias árabes que são católicas, celebrando as mesmas datas comemoradas pelos cristãos católicos no Brasil ou aquelas famílias muçulmanas, que seguem o que a religião prega. Uau, é muita diversidade!

Muçulmano e islamismo é a mesma coisa?
Não exatamente, mas os dois termos estão interligados. Islamismo é o nome da religião, enquanto muçulmano é quem segue essa fé. Ou seja, assim como quem segue o cristianismo é cristão, quem segue o islamismo é muçulmano.
O islamismo é baseado nos ensinamentos do profeta Maomé (Muhammad) e no livro sagrado Alcorão (Qur’an), que orienta princípios de fé, ética e comportamento. É uma religião que prega a paz, a solidariedade e a espiritualidade – valores que, muitas vezes, são mal interpretados por falta de informação.
Os turcos também são árabes?
A resposta é: não. Apesar de muitas pessoas confundirem, os turcos não são árabes e os árabes não são turcos. Ambos se referem a etnias diferentes, o que pode soar até como ignorância ou ofensa, caso alguém chame um árabe de turco ou um turco de árabe. Por isso, é importante entender essa diferença para usar os termos com segurança no dia a dia.

Um fato interessante é que a Turquia é um país laico, ou seja, garante a separação entre governo e religião, sem adotar uma fé oficial. Apesar disso, o país é majoritariamente muçulmano, com uma cultura que traz consigo muitos costumes do islã – lembrando que islã refere-se à fé seguida pelos muçulmanos (cuidado para não se confundir). Assim como os países árabes, a Turquia tem uma forte presença muçulmana, mas isso não os torna o mesmo povo.
Historicamente, os árabes têm origem na Península Arábica, enquanto os turcos vêm de povos turcos da Ásia Central, que migraram e formaram o Império Otomano. Essa diferença de origem explica por que eles falam línguas diferentes, têm raízes culturais próprias e identidades nacionais distintas.

Na maioria das novelas turcas, você verá cenas em que os personagens fazem orações, seguem algum ritual específico do islã ou usam a famosa expressão “Selam aleykum” (saudação turca ou árabe que significa “que a paz esteja convosco”). Outras expressões muito marcantes são: “Mashallah” (“Deus quis” ou “o que Deus quis”), usada em momentos de gratidão, admiração e louvor e “Inshallah” (“Se Deus quiser”), usada para expressar a esperança. Se você é fã raiz, então já conhece todas essas!
Você sabia? Árabes migraram sendo confundidos como turcos!
Durante o período do Império Otomano (entre os séculos XVI e XX), a Turquia conquistou diversos territórios árabes, o que gerou uma vasta mistura cultural e, até hoje, algumas confusões. Quando imigrantes sírios, libaneses e palestinos chegaram ao Brasil (e a outros países), traziam passaportes otomanos, e por isso muitos foram chamados de “turcos”, mesmo sendo árabes. É daí que vem o costume brasileiro de chamar famílias árabes de “turcas” – um reflexo histórico que ainda sobrevive no nosso vocabulário. Isso se tornou uma briga histórica, e, por isso, a importância de não confundirmos cada povo.
Quais as línguas faladas na Turquia e nos países árabes? E como é o alfabeto de cada um?
Outro tópico importantíssimo: os turcos têm o idioma turco como língua oficial, adotado após a queda do Império Otomano, quando o país passou por um grande processo de modernização e reforma cultural. Foi nesse período que se criou o alfabeto turco moderno, baseado no alfabeto latino, substituindo o antigo alfabeto árabe-otomano.
Antes dessas mudanças, a escrita e a fala eram diferentes, e dialetos como o turcomano eram comuns. Alguns ainda resistem em pequenas comunidades do interior, especialmente em regiões como Mardin, na fronteira com a Síria, país majoritariamente árabe. A dizi Uzak Şehir, grande fenômeno do momento, mostra muito a relação intercultural entre turcos e curdos, segundo maior povo existente na Turquia – tema que será comentado numa futura matéria – e hábitos característicos da região, já que a novela se passa em Mardin, mistura de religiões, etnias e nacionalidades. Ainda na dizi, a família Albora, principal da trama, é uma família tradicional curda – e aprende-se muito assistindo aos capítulos.

Já nos países árabes, os idiomas mais predominantes são o árabe, o inglês e o francês, uma mistura que reflete diretamente a história e as influências coloniais de cada região. Enquanto o árabe é a língua nativa e unificadora, o francês ganhou força em países do norte da África, como Marrocos, Tunísia e Argélia, que foram colônias francesas. Já o inglês é amplamente usado em nações como Egito, Jordânia e Líbano, seja por influência britânica ou pela globalização.
O alfabeto árabe é um dos mais antigos ainda em uso e é escrito da direita para a esquerda, com caracteres cursivos e traços que mudam de forma conforme a posição na palavra. Além de ser usado na língua árabe, ele também inspirou outros sistemas de escrita, como o persa e o urdu, mostrando como a cultura árabe deixou sua marca muito além de suas fronteiras.
Na Turquia também existe o cristianismo ou outras religiões?
Sim. Apesar do islamismo ser a religião predominante, como citado anteriormente, a Turquia é um país laico, o que garante espaço para outras crenças. Há pequenas comunidades de cristãos ortodoxos, católicos e armênios, além de judeus e grupos menores que preservam tradições antigas.
Um exemplo histórico interessante é a Casa de Maria, localizada perto de Éfeso, considerada por muitos como o local onde Maria, mãe de Jesus, teria vivido seus últimos anos. Esse tipo de patrimônio mostra como a Turquia, mesmo majoritariamente muçulmana, abriga memórias e práticas religiosas de diferentes culturas, reforçando a diversidade e a riqueza histórica do país.

Curiosidades: você sabia?
- Turcos leem o alcorão em árabe, sendo que, a maioria não é fluente em árabe, mas aprende o necessário para entender o livro sagrado;
- A Turquia faz fronteira com muitos países, o que gera uma relação cultural mista e diversa. Um dos exemplos é Mardin, que faz fronteira com a Síria, país árabe-sírio;
- O Brasil abriga a maior comunidade de libaneses e seus descendentes fora do Líbano — há mais libaneses no Brasil do que no Líbano!
- A culinária árabe e turca é muito apreciada ao redor do mundo, incluindo o Brasil, com fortes comunidades, principalmente em São Paulo;
- Uma curiosidade é que, na Turquia, nomes de pessoas e lugares muitas vezes têm significados poéticos. ‘Deniz’, por exemplo, quer dizer ‘mar’; ‘Aylin’, ‘luz da lua’; e ‘Can’, nome muito comum em novelas turcas, significa ‘alma’.
- O chamado para as orações, conhecido como ezan, é ouvido cinco vezes por dia em praticamente todas as cidades turcas, sendo um dos sons mais marcantes para quem visita o país.
Entender essas diferenças é essencial não só para apreciar melhor as novelas turcas, mas também para respeitar a complexidade cultural e religiosa que elas retratam – e até compreender melhor o que vem acontecendo pelo mundo. A Turquia e os países árabes compartilham pontos históricos e religiosos, mas possuem identidades próprias, com idiomas, costumes e tradições únicos que merecem ser conhecidos e valorizados.
Enquanto o mundo árabe carrega uma herança marcada por diferentes impérios e uma rica diversidade entre seus povos, a Turquia se destaca como uma ponte entre o Oriente e o Ocidente: um território onde línguas, crenças e histórias convivem há séculos. É dessa mistura que nasce o encanto que a gente vê nas telas e que continua despertando a curiosidade e o fascínio do público brasileiro. Ao longo do tempo, o Entretê vai te explicar mais tópicos relacionados ao Oriente Médio e à Turquia, então continue com a gente!
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Texto revisado por Larissa Couto @larscouto










