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Foto: divulgação/assessoria Andrea Tenorio

Daniela Chindler transforma o Theatro Municipal em experiência viva de memória e afeto

Educadora e criadora da visita teatralizada revela em entrevista ao Entretetizei como une teatro, educação não-formal e história para ressignificar o patrimônio cultural carioca

Com mais de três décadas dedicadas à educação não-formal, Daniela Chindler consolida-se como uma das principais referências na criação de experiências culturais que unem conhecimento, sensibilidade e participação do público. Em entrevista ao Entretetizei, a educadora detalha o processo de criação da visita teatralizada do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, projeto que sintetiza sua trajetória: o uso da linguagem artística como ferramenta de mediação e transformação social. A iniciativa, que dialoga com a Belle Époque carioca e avança até os dias atuais, reafirma o olhar de Daniela para a história como algo vivo, acessível e atravessado por múltiplas vozes.

Mais do que uma visita guiada, o trabalho no Theatro Municipal propõe uma experiência imersiva, em que figurinos de época, dramaturgia e narrativa conduzem o público por diferentes momentos do teatro e da cidade. Daniela destaca, na entrevista, a escolha por um roteiro que valoriza protagonismos femininos e negros, conectando passado e presente sem perder o rigor histórico. Fiel à sua atuação na educação não-formal, ela defende que o objetivo central é provocar encontros significativos, aqueles que tocam, emocionam e permanecem reafirmando o teatro como espaço de memória, aprendizado e pertencimento.

Confira a entrevista na íntegra:

Entretetizei: Como surgiu a ideia de criar uma visita teatralizada para contar a história do Theatro Municipal?

Daniela Chindler: Desde 1997 escrevo roteiros para visitas em edifícios históricos. O primeiro projeto foi elaborado para a Academia Brasileira de Letras e ficou 15 anos em cartaz. Depois fiz roteiros para visitas em igrejas do Centro histórico do Rio de Janeiro, para o Grande Templo Israelita que fazia parte da vida da Praça Onze (região que foi toda posta abaixo) e para o centenário do prédio que abriga o CCBB carioca. Também montamos roteiros para São Paulo e Belo Horizonte. Então, eu já tinha segurança neste formato que reúne a linguagem do teatro, da música, da contação de histórias e da mediação em espaços museológicos, mas como dizem, um escritor sabe escrever o livro que já foi escrito, o próximo é um novo desafio.  

A ideia de criar uma visita teatralizada para o Theatro Municipal não nasceu agora. Tinha tentado alguns anos atrás e a gestão da época não se interessou.  A gestão atual do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, presidida por Clara Paulino, valoriza a cultura como instrumento de transformação social. Eu tinha trabalhado com a Clara no IPHAN e quando fui procurá-la, ela topou na hora. 

E por que fazer uma visita no Theatro Municipal? Parafraseando uma personagem do espetáculo “eu pergunto e eu mesmo respondo”: porque acredito que este seja um dos edifícios mais bonitos que temos. É irresistível. Me sinto muito sortuda de ter tido o privilégio de escrever esse roteiro. Oh sorte!

E: Quais momentos e aspectos da história do Theatro Municipal ganham destaque no espetáculo?

DC: Optei em ter como cenário a Belle Époque carioca, quando damos adeus ao Império e saudamos a República. No final do século XIX nos tornamos um país. É na virada do século, em 1905, que a Avenida Central é construída com seus imponentes edifícios e alguns anos depois será inaugurado, em 1909, o Theatro Municipal. Assim abrimos o espetáculo na época que as ideias tomaram corpo e as portas foram abertas. Um recurso das visitas teatralizadas são os figurinos de época. Roupas de outros tempos ajudam os espectadores a embarcarem em uma volta ao tempo e a moda feminina dos primeiros anos do século XX é linda, com suas saias longas e chapéus pomposos. 

Mas não ficamos congelados no passado. A partir do momento que elenco e visitantes entram no coração do teatro, na plateia, os anos começam a correr e chegamos até os dias de hoje.

E por falar em dias hoje, o olhar contemporâneo está presente no roteiro, muitas falas trazem histórias que tem o protagonismo feminino, como passagem que falam de Nair de Teffé, Isadora Duncan e Fernanda Montenegro, assim como de pessoas negras, como Chiquinha Gonzaga ou quando falamos da montagem de Orfeu da Conceição.

Foto: divulgação/assessoria Andrea Tenorio

E: Como a linguagem teatral contribui para transformar a visita em uma experiência diferente de uma visita guiada tradicional?

DC: Hoje muitos museus trabalham com a medição incorporando recursos originais, como objetos mediadores, música, malas para famílias, bonecos etc. Tem muitos espaços pesquisando formas de mediar que tragam uma experiência para os visitantes. Somos uma resposta dentre tantas possíveis. Mas existem diferenças conceituais. Um educador de museu que trabalha com mediação e o faz bem, de alguma forma distinta fará um percurso pelo espaço ou pela galeria para cada grupo que receber. A mediação pressupõe uma conversa e uma conversa é mais de uma pessoa falando. Este mediador vai organicamente criando seu roteiro de acordo com o repertório dos visitantes. A Visita Teatralizada, neste sentido, está mais próxima do teatro, existe um texto ensaiado. Mas isso não é bom ou ruim, é diferente. 

Gosto de citar Ana Maria Machado quando ela diz que, ao ler ficção, o leitor aceita suspender temporariamente sua descrença na realidade factual para entrar no universo imaginário.  O leitor, e aqui seria o espectador, concorda em considerar como “verdade” o universo que está sendo a ele apresentando, se entrega a narrativa, permitindo-se ser levado pela história. É isso que torço para estarmos conseguindo fazer: convidamos as pessoas dos dias de hoje para embarcarem conosco em uma aventura que começa em 1900. Essa é a magia de uma visita teatralizada.

O pedagogo espanhol Jorge Larrosa Bondía, descreve muito bem o que devemos buscar em nossas ações: “(…) a experiência é, em espanhol, “o que nos passa”. Em português se diria que a experiência é “o que nos acontece”; em francês a experiência seria “ce que nous arrive”; em italiano, “quello che nos succede” ou “quello che nos accade”; em inglês, “that what is happening to us”.

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.

Em primeiro lugar pelo excesso de informação. A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma antiexperiência.

Nós buscamos a experiência. Desde que me conheço por gente, desde os 21 anos, trabalho com educação não formal e o que almejo todos os dias é contribuir para que as pessoas vivam experiências.

E: Quais foram os principais desafios de realizar um espetáculo em um espaço histórico como o Theatro Municipal?

DC: O que escolher contar foi meu maior desafio. São tantas as possibilidades que no primeiro momento fiquei congelada. A única certeza que eu tinha era que não seria uma visita com foco na arquitetura. Falo do mármore, do vitral, das pinturas, do ar-condicionado, mas esses dados são pontuações dentro de um passeio por uma época.

O segundo desafio foi parar de escrever. Depois que eu passei da etapa inicial que era o medo de não saber escrever esse roteiro, eu desembestei a escrever. Terminava uma lauda e mandava para o diretor. Lá pelas tantas ele começou a pontuar que estava ficando grande demais.  E aí o terceiro desafio foi permitir que o elenco sugerisse cortes para o texto caber no tempo de uma hora e pouquinho. Dizem por aí que escrever é cortar, né? Mas dá um dó danado.

E: Que tipo de experiência o público pode esperar ao participar dessa visita teatralizada?

DC: Mergulhar em uma época, se apaixonar ainda mais por essa joia que é esse prédio que temos a sorte de ter na nossa cidade. E daria a dica para que após a visita os espectadores fossem buscar as referências como esta: https://eliseuvisconti.com.br/theatro-municipal-pano-de-boca/ 

 

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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