Como o equilíbrio entre dever, lucidez e afeto molda um dos adultos mais complexos de Jujutsu Kaisen
[Contém spoiler]
Entre personagens explosivos, impulsivos ou moldados por traumas intensos, Kento Nanami se destaca em Jujutsu Kaisen por um traço raro nas narrativas shonen: ele é um adulto plenamente funcional, consciente de si e emocionalmente maduro.

Em um universo dominado pelo caos das maldições, Nanami encarna a figura que assume responsabilidades não por vocação heróica, mas por dever e é justamente essa postura que o torna um dos personagens mais humanos da série.

A psicologia de Nanami se constrói a partir de três eixos que se entrelaçam com coerência e complexidade: a exaustão, a lucidez e uma compreensão amarga do mundo que o cerca. Esses elementos não o definem como alguém derrotado pela realidade, mas como alguém capaz de encará-la sem ilusões.
A maturidade como armadura
Nanami não se deixa seduzir por discursos grandiosos. Ele não busca glória, reconhecimento ou qualquer tipo de exaltação. Sua motivação é objetiva, quase desprovida de brilho: cumprir o que precisa ser feito. Essa racionalidade, frequentemente interpretada como distanciamento, funciona como uma armadura emocional cuidadosamente construída.

Ele compreende, com uma precisão quase cirúrgica, seus próprios limites, os deveres que carrega, os riscos do trabalho e o impacto de cada decisão. Trata-se de um personagem que pensa antes de agir, que mede antes de golpear e que respira antes de se lançar ao perigo. A maturidade não o torna imune, apenas o torna mais consciente das fissuras que o acompanham.
O peso da vida adulta em um universo hostil
A breve passagem de Nanami pelo mercado corporativo é um dos momentos mais reveladores de sua complexidade psicológica. Ele reconhece a proximidade simbólica entre trabalhar até o esgotamento e enfrentar maldições: em ambos os casos, algo é lentamente corroído – às vezes o corpo, às vezes o espírito.

Esse detalhe narrativo adiciona uma camada profundamente realista e melancólica ao personagem. Nanami vive deslocado dos dois mundos que experimenta. No escritório, era diferente demais; na feitiçaria, é sensato demais. Essa sensação persistente de não pertencimento gera uma solidão silenciosa, comum a muitos adultos que carregam muito mais do que demonstram.
O papel do adulto responsável
Em uma história guiada por jovens movidos por impulsos e ideais, Nanami ocupa outra função: a do adulto que precisa manter os pés no chão enquanto tudo ao redor ameaça desmoronar. Sua famosa regra de não trabalhar após o horário comercial, embora frequentemente usada como alívio cômico, expressa algo mais profundo: um limite emocional traçado para não se perder em um ofício que exige mais do que oferece.

Ele sabe quando recuar, quando descansar e quando pedir apoio – atitudes que, dentro de Jujutsu Kaisen, adquirem contornos quase heróicos. Nanami demonstra que responsabilidade não é sinônimo de autoimolação, mas de equilíbrio.
Empatia na medida certa
Nanami não é frio, ele apenas aprendeu a sentir de forma madura. Sua empatia se expressa pela presença, pela orientação precisa e pela honestidade. Ele se importa genuinamente com seus colegas, especialmente com Itadori, mas revela esse afeto por meio de gestos discretos, nunca por grandiloquência emocional.

É um cuidado que não exige reconhecimento, que não dramatiza a própria existência e que jamais se coloca como sacrifício. Sua empatia é adulta: ponderada, consciente e responsável.
Itadori e o afeto como responsabilidade: o contraponto a Satoru Gojo
A relação de Nanami com Itadori revela uma de suas camadas mais profundas: a capacidade de equilibrar afeto e responsabilidade sem transformar nenhum dos dois em peso. Nanami se importa genuinamente com o protagonista – que tem apenas 15 anos e que perdeu tudo –, mas não se deixa levar por idealizações. Ele enxerga Itadori não apenas como uma promessa, mas como alguém que precisa de orientação, segurança e honestidade – três pilares que ele oferece sem hesitação.

Esse vínculo ganha ainda mais relevância quando contrastado com a forma como Gojo se relaciona com Itadori. Enquanto Gojo trata o garoto como um prodígio com potencial quase ilimitado, Nanami aborda Itadori como um indivíduo real, com vulnerabilidades e limites que precisam ser respeitados. Gojo incentiva com brilho, Nanami sustenta com base. Gojo desafia, Nanami protege. Um ensina o extraordinário, o outro ensina o necessário.

É essa combinação de afeto, prudência e responsabilidade que transforma Nanami em uma figura quase paternal – não no sentido sentimental, mas no ético. Ele educa pelo exemplo, não pelo espetáculo.
A beleza trágica de Nanami
O fascínio que cerca Nanami nasce de sua percepção nítida da própria mortalidade. Ele sabe que seu tempo é limitado, que os perigos do mundo jujutsu são inevitáveis e que seu papel sempre esteve destinado a ser temporário. Ainda assim, escolhe permanecer não por heroísmo, mas por princípios que carrega silenciosamente.

Sua morte, portanto, não representa apenas a queda de um personagem querido, mas a perda de um pilar emocional da narrativa. Nanami era a força que sustentava o equilíbrio enquanto os mais jovens aprendiam a caminhar.
O que torna Nanami emocionalmente inesquecível?
Nanami ressoa porque traduz experiências adultas que raramente ganham espaço no shonen: o cansaço que se acumula com o tempo, a responsabilidade que nunca diminui, a necessidade de impor limites para não desmoronar e a pressão silenciosa de corresponder a expectativas que parecem sempre crescer. Ele encarna a maturidade que muitos reconhecem no próprio cotidiano e que, por isso, se torna imediatamente identificável.
Dentro desse contexto, sua função narrativa ganha ainda mais força. Jujutsu Kaisen apresenta mentores diversos, mas Nanami representa um tipo específico e profundamente humano de mentor adulto – um que não existe para oferecer sabedoria mística, explicar regras do mundo ou encarnar poder absoluto, mas para mostrar que crescer implica assumir escolhas difíceis.

Diferente de figuras tradicionais dos shonen, que muitas vezes operam como ícones quase inalcançáveis, Nanami guia pelo exemplo cotidiano: pelo equilíbrio, pela responsabilidade e pela forma como administra o próprio desgaste. Ele ensina Itadori não a ser extraordinário, mas a ser íntegro.
Por isso sua presença deixa marcas tão profundas: Nanami é o mentor que sustenta o mundo silenciosamente, e sua ausência revela o quão essencial ele era. A maturidade que carrega não é enfeitada nem retórica: é vivida, pesada e real. E, justamente por isso, ele se tornou um personagem que emocionou tanto o público do mangá, quanto do anime.

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Texto revisado por Simone Tesser @simone_alleotti









