O único livro publicado por Emily Brontë atravessou séculos, críticas severas, adaptações controversas e multidões de leitores que ainda discutem se ali existe amor ou apenas ruína
Quando Emily Brontë publicou seu primeiro e único romance usando o pseudônimo Ellis Bell, a Inglaterra vitoriana reagiu com choque. O enredo foi taxado de imoral, brutal e impróprio para uma autora mulher. Brontë, que vivia isolada no interior de Yorkshire, criou uma história que recusava convenções: personagens mergulhados em ódio e desejo, paisagens que refletiam angústias internas e um mundo no qual o amor não cura, mas destrói.

Ao contrário das narrativas sentimentais populares na época, O Morro dos Ventos Uivantes (1847) desmontava qualquer ideia de romance idealizado. Brontë expôs as contradições humanas antes mesmo da crítica literária ter ferramentas para isso, e apenas décadas depois o livro começou a ser reconhecido como uma antecipação do romance psicológico moderno.
Agora, mais de 175 anos após sua publicação, O Morro dos Ventos Uivantes continua a nos perseguir. Lido como romance, tragédia, denúncia, a pauta que a história carrega parece jamais se esgotar.
Narrativa em camadas: quando o livro transforma o leitor em investigador
Um dos aspectos mais revolucionários da obra é sua estrutura. A história é contada por dois narradores: Lockwood, o inquilino que mal compreende o que vê, e Nelly Dean, a governanta que testemunhou quase tudo, mas relata os eventos filtrados por emoções, memórias falhas e julgamentos pessoais.
Essa narrativa produz versões conflitantes, dúvidas constantes e a sensação de que nunca sabemos toda a verdade. É um jogo literário que transforma o leitor em intérprete ativo, forçado a decidir o que é fato e o que é distorção. A técnica antecipa debates que só se tornaram centrais no século XX.
Heathcliff, Catherine e a ferida aberta do amor obsessivo
O relacionamento entre Heathcliff e Catherine é frequentemente citado como um dos mais intensos da literatura, e também é um dos mais controversos. Por muito tempo, parte do público enxergou nessa história um amor trágico destinado a sobreviver à morte. Hoje, a crítica moderna enxerga algo mais complexo: padrões de abuso emocional, codependência, humilhação e violência psicológica.
Heathcliff não é apenas um amante devotado. É um homem consumido pela necessidade de controle e vingança. Catherine, por sua vez, vive dilacerada entre o desejo e as pressões sociais para ascender por meio de um casamento vantajoso. Ambos se amam a ponto de se arruinarem, e o romance não oferece redenção para a primeira geração. A cura vem apenas com os descendentes, que tentam interromper o ciclo de dor que herdaram.
Essa dinâmica ressoa no presente justamente porque reconhecemos nela comportamentos que hoje identificamos como tóxicos. Emily Brontë já discutia, sem nomeá-los, temas que só muito depois seriam associados à psicologia moderna.
Classe, raça e o corpo estrangeiro de Heathcliff
Outro ponto de debate é a origem de Heathcliff. Brontë o descreve como “moreno”, “de aparência exótica”, alguém que causa estranhamento e suspeita. Ele é encontrado vagando pelas ruas de Liverpool, um porto marcado pela imigração e pelo tráfico colonial. A crítica contemporânea levanta a possibilidade de que Heathcliff seja um corpo racializado em uma sociedade rigidamente branca.
Essa leitura pós-colonial reconfigura o romance. A marginalização que ele sofre não se deve apenas à pobreza, mas também ao que ele representa: o estrangeiro, o intruso, o que não se encaixa. A violência que ele devolve ao mundo pode ser lida como resposta à exclusão estrutural.
A versão cinematográfica de 2011, dirigida por Andrea Arnold, acentua esse aspecto ao escalar um ator negro para o papel. Foi uma interpretação polêmica, mas alinhada às discussões modernas sobre raça e identidade.
O cenário como espelho da alma
A paisagem de Yorkshire é um dos elementos mais marcantes da obra. Os pântanos, a ventania constante, as colinas isoladas e a sensação de desamparo funcionam como extensão emocional dos personagens. O ambiente não é cenário, é sintoma. A geografia bruta reforça a brutalidade interna e cria um clima gótico-naturalista raro na literatura inglesa.
Essa fusão entre natureza e psicologia deu ao romance sua estética particular, tão poderosa que ainda influencia produções audiovisuais, capas, ensaios fotográficos, videoclipes e a própria cultura pop.
Adaptações cinematográficas
Apesar de os fãs afirmarem que nenhum dos filmes foram capazes de transmitir a intenção da obra, a cada década surge uma nova leitura do romance de Emily. Até o momento o livro ganhou 8 produções.
A versão de 1939 transformou a história em romance clássico de Hollywood, estrelando Merle Oberon e Laurence Olivier.
Nos anos 1990, Ralph Fiennes interpretou um Heathcliff mais contido e melancólico.
Em 2011, a estética crua de Andrea Arnold trouxe uma leitura radical sobre raça e abandono com a escalação de James Howson, única adaptação de um Heathcliff como um homem racializado. Kaya Scodelario interpreta Catherine.

Em 2003 a obra também ganhou um musical, dirigido por Suki Krishnamma.
A oitava e nova adaptação, que está prevista para 2026 e será estrelada por Margot Robbie e Jacob Elord, que interpretará Heathcliff O trailer sugere uma abordagem sensual e sombria, capaz de encantar parte do público e incomodar outra, já provocando discussões sobre erotização excessiva e romantização da violência.

Além disso, a escalação de Elordi para interpretar um personagem descrito como racial incomodou os leitores, já que este detalhe acrescenta muito à trama da história.
A escolha de olhar para uma narrativa que carrega tanta dor e mágoa de uma forma sexy revela outro fenômeno: tendemos a romantizar histórias que não foram criadas para esse fim.
Um clássico que incomoda, e é por isso que resiste
Ler O Morro dos Ventos Uivantes no século XXI é encarar uma obra que nunca buscou conforto. Ao contrário de outros romances da época, Brontë não oferece lição de moral, apenas mostrando seres humanos tomados por sentimentos extremos e incapazes de escapar deles.
Abordando temas sociais ainda vivos até os dias atuais, como a violência doméstica e exclusão que segue determinadas posições sociais, a obra permite debates sobre raça, classe e gênero.
O interesse dos jovens modernos pelo livro nasce justamente da estrutura narrativa apresentada por Emily, que carrega uma ambiguidade moral – uma história sem heróis óbvios, onde o que torna os vilões um vilão são sentimentos que o leitor conhece bem.
Em meio a debates sobre violência, saúde mental e dinâmicas de poder, o romance parece mais vivo do que nunca. Cada geração volta a ele porque se vê refletida no caos, no desejo e na escuridão das relações humanas.
Podemos abominar Heathcliff e criticar Catherine. Podemos rejeitar a ideia de amor descrita na história. Mas, ainda assim, retornamos ao romance porque ele toca algo profundo, que as narrativas românticas mais convencionais não alcançam.
O Morro dos Ventos Uivantes nos obriga a admitir que o amor, em sua forma mais primitiva, raramente é puro. Muitas vezes é fúria, orgulho, medo, solidão. Justamente por não oferecer respostas fáceis, o livro continua sendo um espelho incômodo, inquietante e irresistível.
Emily Brontë escreveu que, se tudo desaparecesse e apenas uma pessoa permanecesse, isso lhe bastaria para existir. A frase atravessou séculos porque revela um desejo tão universal quanto perigoso: o de ser amado a qualquer custo.
É por isso que seguimos lendo. Porque ainda buscamos entender por que, às vezes, amar e perder-se são quase a mesma coisa. Porque, mesmo quando sabemos que o abismo está logo ali, há algo em nós que continua a escutar os ventos de Yorkshire.
Sobre a autora

Emily Brontë (1818-1848) foi uma romancista e poetisa inglesa, imortalizada por seu único romance, O Morro dos Ventos Uivantes, um clássico da literatura mundial conhecido por sua intensidade de paixão e ódio, ambientado nos pântanos de Yorkshire, e usou o pseudônimo masculino de Ellis Bell para a publicação. Irmã das também escritoras Charlotte e Anne Brontë, Emily viveu uma vida reclusa e misteriosa, com uma forte ligação à natureza, deixando um legado literário profundo e eterno apesar de sua curta vida e pouca produção literária.
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Texto revisado por Larissa Couto @larscouto










