Lucas Henrique decidiu compartilhar sua história de superação com os livros e, em pouco tempo, já havia acumulado milhares de seguidores
Em meio a um cenário simples, Lucas Henrique dos Santos, de 26 anos, fala para a câmera de seu celular sobre as leituras que realizou nos últimos tempos. Seria um tipo de vídeo comum no universo dos booktokers — criadores de conteúdo que falam de livros na internet —, se não fosse por uma diferença: Lucas compartilha como os livros têm desempenhado um papel fulcral para superar o vício em drogas. Autodenominado de Menino do Vício, o jovem já conta com 63 mil seguidores no TikTok, atraindo um público de leitores que se inspira pela sua história.
Natural de Jussara, Paraná, ele comenta que, embora sempre tenha tentado demonstrar alegria, escondia uma tristeza mascarada pelas substâncias. Os livros, reflete, foram uma espécie de refúgio quando ele decidiu parar de consumir drogas. Como gostava de ler quando era mais novo, decidiu entrar de cabeça no universo da literatura. “Percebi que precisava mudar quando vi como a minha vida toda estava sendo consumida pelas drogas. Não apenas o uso em si, mas também o quanto afetava a minha família. Minha saúde estava cada vez mais decadente, e meu emocional se desgastando; tinha pensamentos suicidas”, explica Lucas.
Em entrevista ao Entretetizei, Lucas revela como a leitura o ajudou a suportar momentos difíceis e, ainda, o papel das redes sociais em sua trajetória.
Entretetizei: Você lembra qual foi o primeiro livro que leu no seu processo de recuperação? O que ele te causou?
Lucas: Foi Percy Jackson e o Ladrão de Raios. Ele me trouxe uma sensação de êxtase que eu só sentia quando usava drogas. Mas, enquanto lia, não precisei usar e isso me fez querer ler mais e mais.
E: Por que você decidiu começar a postar vídeos sobre isso? Rolou alguma insegurança no começo?
L: Decidi fazer vídeos na internet para poder incentivar outras pessoas a largar os vícios junto comigo. Me usei de cobaia para tentar resgatar mais vidas além da minha. Tive, sim, insegurança no começo, como o que iriam falar de mim na cidade. Mas dei cara a tapa assim mesmo e segui com meu propósito.
E: Tem algum livro que você relê quando sente que pode vacilar ou quando precisa de força??
L: Não tenho um livro o qual releio, pois ganhei muitos livros dos seguidores, mais de 100. Mas quando eu não tinha muitos livros, relia Crepúsculo diversas vezes nos hospitais, enquanto cuidava do meu avozinho doente, que faleceu.
E: Como tem sido a resposta das pessoas nos comentários? Você sente que está ajudando outros como foi ajudado?
L: São muitas pessoas me ajudando, nas mensagens privadas também. Além de receber muito apoio, vejo comentários de pessoas que estão sendo motivadas a ler, e de pessoas que se inspiraram em mim para largar vícios.

E: Como começou o seu envolvimento com as drogas? Teve algum gatilho emocional ou foi algo mais gradual?
L: Eu sempre tive o emocional vulnerável, desde pequeno com depressão e fazendo acompanhamento psicológico. Eu cresci sem a presença do meu pai, que é ótimo, mas é separado da minha mãe. Aí conheci a maconha e me apeguei na felicidade momentânea, alguns anos depois conheci outras drogas.
E: Que tipo de preconceito ou julgamento você enfrentou (ou ainda enfrenta) por ter tido um problema com drogas?
L: As pessoas olham, julgam e riem, dizem que devo usar no escondido, fazem pouco caso. Para a sociedade, mesmo recuperado, você sempre será um drogado perdido.
E: Quais livros mudaram a sua vida? Por quê?
L: Um deles é Quinze Dias, do Vitor Martins, que me deu uma visão sobre amor-próprio ao meu corpo, pois tinha muitas dificuldades em aceitá-lo. Após a leitura, eu o aceito como é, sem aquela insegurança de antes.
Recentemente, li A Última Música, do Nicholas Sparks, e estou aproveitando a minha vida com minha família. Muitas vezes a morte está perto e nós não sabemos. Por isso o livro me tocou demais, agora quero recuperar os momentos que perdi no mundo das drogas.
E: O que você diria para quem está passando pelo que você passou, mas ainda não achou uma saída?
L: A força de vontade de largar o vício que tem dentro de você é maior do que sua vontade de usar. Você não nasceu com as drogas, mas com a força de vontade sim!
E: Existe algo que você gostaria que as pessoas entendessem melhor sobre o vício?
L: As pessoas não usam drogas apenas por usar, no fundo, é um escape da realidade. Elas estão pedindo socorro em silêncio, querem suprir alguma solidão, alguma decepção tão forte da vida que, no momento, só as drogas serão o escapatório.
Os usuários não precisam de julgamento, precisam de apoio, de ajuda e de amor. Aliás, são pessoas que além de problemas pessoais, agora tem o triplo de dificuldades com as drogas.
E: Quais são os próximos passos? Mais vídeos, talvez um livro seu, algum projeto novo?
L: Quero continuar com os vídeos e fazê-los chegar cada vez a mais pessoas e famílias que precisam de incentivo para largar essa vida terrível. Futuramente, tenho vontade de escrever um livro contando a minha história, além de um projeto para ajudar clínicas de reabilitação.
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Texto revisado por Larissa Suellen









