Cultura e entretenimento num só lugar!

Cho Hena
Foto: reprodução/arquivo pessoal

Entrevista | Cho Hena conta como é ser intérprete de K-pop nos bastidores dos maiores shows do Brasil

Ela já traduziu para alguns dos maiores grupos de K-pop em solo brasileiro e, nesta entrevista, revela os bastidores, os dilemas e as alegrias de ser a voz entre artistas coreanos e fãs apaixonados

 

Traduzir é muito mais do que trocar palavras entre idiomas: é captar sentimentos, intenções e sutilezas culturais para criar conexões reais entre pessoas. E poucas pessoas sabem fazer isso com tanta dedicação quanto Cho Hena, intérprete coreano-brasileira de 36 anos, que já esteve nos bastidores (e no palco) de alguns dos maiores eventos de K-pop no Brasil. Sua trajetória começou quase por acaso, ao tentar acompanhar a irmã mais nova num show, Hena hoje é referência no meio, já tendo trabalhado com nomes como BTS, Stray Kids, VAV e A.C.E.

Cho Hena
Foto: reprodução/arquivo pessoal

Nesta entrevista exclusiva ao Entretetizei, Hena compartilha sua jornada, os desafios invisíveis da profissão, a importância de entender mais do que apenas o idioma e como tem sido ser a ponte entre duas culturas tão apaixonadas pelo K-pop. Confira:

Entretetizei: Como foi o seu primeiro contato com o K-pop? Isso sempre fez parte da sua vida ou apareceu depois?

Cho Hena: Eu sempre ouvi K-pop. Nasci na Coreia e, na época, não tinha muito acesso à internet. Então, era bem limitado o contato com outros gêneros de música. Mas nunca pensei que eu fosse, algum dia, trabalhar com ele.

E: Você já trabalhou com grupos como BTS, Stray Kids, VAV e A.C.E aqui no Brasil. Como começou essa história de trabalhar como intérprete nesse meio?

CH: Eu estava fazendo a minha faculdade de odontologia em Curitiba e a minha irmã mais nova viu nas redes sociais que um grupo chamado Nu’est viria a Curitiba para um show. Na época, quis fazer uma surpresa para ela, e achei que seria melhor eu trabalhar no evento, do que simplesmente comprar ingresso para o show. Ela era menor na época, então fiquei bem preocupada com como poderia ser o show. Mandei um e-mail para a produção local e, como eu já tinha experiência em outras áreas de tradução, acho que gostaram. Foi o meu primeiro trabalho como tradutora de shows.

E: Qual foi o primeiro grupo com o qual você trabalhou? E como foi essa primeira vez?

CH: Como mencionei, foi o Nu’est. Foi em 2013 e foi tudo muito novo para mim também. Eu não conhecia o grupo, então pesquisei sobre, e a minha irmã não parava de falar sobre eles para mim. Mas acho que foi tudo bem. Gostei muito da experiência e também continuaram me chamando para outros shows.

E: Muita gente acha que ser intérprete é só traduzir, mas quem vê de perto sabe que tem muito mais envolvido. O que você considera mais desafiador nesse trabalho?

CH: Uma das coisas mais desafiadoras, com certeza, é repassar a intenção do artista para o público. Às vezes, o artista fala uma frase que, em coreano, se encaixa perfeitamente, mas que, no raciocínio de brasileiros, pode ficar muito vago. Nesses momentos, eu preciso alterar a fala do artista para que o público possa entender o que ele quis dizer. Tem a questão da tradução literal, e gestos que na Coreia são positivos, mas que no Brasil podem trazer controvérsias.

E: Como você costuma se preparar para um evento? Você estuda o jeito que os artistas falam, gírias, expressões culturais?

CH: Sim, com certeza. Sempre que fecha algum artista, eu procuro vários vídeos de entrevistas dos mesmos, e até de programas de entretenimento, para entender um pouco melhor o jeito de cada integrante. Também procuro tendências de memes que estão em alta no Brasil, porque eles sempre pedem para ensinar.

E: Já passou por alguma situação em que não soube exatamente como traduzir o que foi dito ali na hora, tipo uma piada ou algo que só faria sentido pra quem conhece a cultura?

CH: Já, algumas vezes. O exemplo mais recente foi o show do Stray Kids, no qual o integrante falou outra casa e eu optei por traduzir como segunda casa. Pensei inúmeras vezes nas possibilidades em milésimos de segundos e optei por traduzir de forma que todos no estádio entenderiam. Com certeza, com a tradução literal, o sentido iria se perder ou até ser distorcido. Percebi que muitos não ficaram contentes com a minha decisão, mas faz parte do nosso trabalho. Não existe uma resposta única. Precisamos decidir e segurar as nossas decisões.

@joysthv7

o bangchan dizendo que o brasil é uma segunda casa #bangchan #straykids

♬ som original – 𝖩𝗈𝗒𝗌 | 𝐭𝐡𝐯⁷

E: Estar ali entre os artistas e os fãs pode ser uma posição de muita responsabilidade. Como você lida com essa pressão?

CH: Acho que o jeito como me coloco nesse ponto me ajuda a lidar com essa pressão. Sempre tive fascínio em ver essa relação de fã e artista, ainda mais em shows. A conexão entre eles é uma coisa maravilhosa. Já tive grupos que gostei, mas nunca fui tão fã de algo. E fico maravilhada com o resultado da emoção, tanto dos fãs quanto dos artistas, num show. Sou muito orgulhosa e muito grata de poder ser a ponte entre os dois. Penso que sempre preciso dar o meu melhor, continuar crescendo para que eu possa acrescentar de forma positiva.

E: Sendo coreana-brasileira, você sente que consegue fazer essa ponte entre as duas culturas de uma forma diferente?

CH: Poderia dizer que esse é o meu diferencial. Além de gírias e expressões culturais, o que faz muita diferença entre as duas culturas é o raciocínio. Se aconteceu X, depois Y, no raciocínio dos brasileiros, o próximo passo a ser tomado seria Z. Para os coreanos, com a mesma situação de X e Y, o esperado pode ser A. Além de ter fluência no idioma, entender os dois tipos de raciocínio faz com que eu entenda 100% a intenção do falante. E isso faz com que a sua tradução seja diferenciada.

E: Suas irmãs também trabalham como intérpretes. Como é dividir essa profissão em família? Rola mais parceria ou uma competição saudável?

CH: Os dois. Hahaha. Estou num momento em que trabalho coordenando equipe de tradutores e, também, fazendo parte da equipe de produção. Elas entendem bem as minhas exigências com a minha equipe, o que facilita muito o trabalho. Mas, às vezes, temos nossos debates em relação a como poderia ter sido melhor com outras atitudes.

E: Quem foi a primeira de vocês a entrar nesse mundo? E como foi puxar as outras pra essa área?  

CH: Eu e a minha irmã do meio. Eu já trabalhava com pequenas traduções para a comunidade coreana e corporativas. Mas, quando mandei o currículo para o Nu’est, perguntaram se eu teria outros tradutores, e, na época, só conhecia minhas irmãs que poderiam ser aptas. Hoje, criei um grupo fechado no KakaoTalk (rede social coreana) de tradutores coreano-português e continuo sempre procurando novos tradutores. Quando preciso, tento recrutar nesse grupo, depois, claro, de uma seleção com currículo e entrevista.

E: Vocês já trabalharam juntas no mesmo evento? Como é conviver nos bastidores sendo irmãs?

CH: Várias vezes. Brigas e entendimentos. Hahaha. Somos irmãs, mas temos jeitos um tanto diferentes. Discordamos, às vezes, de como solucionar um problema, mas também apoiamos e damos conselhos uma à outra. Muitas vezes, quando estou na coordenação, peço feedbacks de coordenadora para coordenadora. Levo muita bronca no processo, mas sempre separamos muito bem o profissional do pessoal. Isso é um ponto que nós três concordamos 100%. (Hahaha)

E: Além da intérprete que aparece no palco, também existem aquelas que atuam nos bastidores, com a equipe técnica. Quais são as diferenças entre esses papéis?

CH: Os dois são traduções consecutivas, nas quais o falante termina de falar e, logo em seguida, traduzimos. Mas, ainda assim, a diferença é grande. Quem traduz a fala do artista precisa de um raciocínio rápido, entendimento 100% dos dois idiomas, além da desenvoltura na fala. Tanto que, na maioria das vezes, a exigência da equipe coreana para tradutor de palco é que a pessoa seja apta para fazer tradução simultânea (em que o tradutor inicia sua tradução mesmo antes de terminar a fala do falante). Quem trabalha na parte técnica é um trabalho árduo tanto quanto, pois precisa saber dos termos técnicos e, dependendo da área, um entendimento mínimo sobre o assunto. Pensando nisso, desenvolvi, junto com as minhas irmãs, um glossário com os termos técnicos e explicação de cada um.

Os dois ramos podem ser diferentes, mas ambos exigem muito preparo e dedicação contínua.

E: Como é lidar com produção, técnico de som, luz, equipe coreana e brasileira ao mesmo tempo? O ritmo é muito diferente do que rola no palco?

CH: Às vezes, é até mais difícil do que a própria tradução. As duas equipes possuem jeitos de trabalho muito diferentes. O ritmo, geralmente, é muito acelerado também. Teve um momento da minha carreira no qual a pressão para lidar com os dois lados foi muito alta. Com o tempo, aprendi a lidar, com o conselho de várias pessoas com quem já trabalhei. Algumas delas são tópicos que sempre são pontuados nas reuniões iniciais com a equipe de tradutores: ser neutro. Querendo ou não, tradução é o intermediário de dois lados. Nunca deve tomar partido, independente da situação.

E: Para quem trabalha nos bastidores, é preciso entender um pouco sobre produção ou o foco continua sendo só a tradução mesmo?

CH: Entender o funcionamento da produção, com certeza, é de grande ajuda no trabalho dos tradutores. Não é fácil para quem tem pouca experiência. São inúmeros diretores, geral ou de uma área, coordenadores, produtores, produtores locais, operadores e muito mais. Entendendo os cargos, o funcionamento da produção, além dos meus limites e deveres, a mensagem que me foi passada pode ser direcionada para as pessoas certas de forma mais eficiente. Caso contrário, a mensagem pode simplesmente se perder ou ser passada muito tarde, o que atrapalha o funcionamento da produção.

E: Você sente que existe uma diferença de reconhecimento entre quem está visivelmente no palco e quem fica por trás das câmeras?

CH: Para o público, talvez, por desconhecerem que existem outros tradutores por trás dos bastidores. Mas, dentro do trabalho, com certeza não. Em shows que exigem vários dias de montagem, os tradutores por trás das câmeras são os que mais trabalham. O que depende é o quanto aquele tradutor está repassando bem as mensagens de forma eficiente, como sua tradução está fazendo diferença e auxiliando a acelerar o trabalho.

E: E o pessoal da produção coreana, no geral, costuma ser mais exigente ou tranquilo?

CH: Depende da equipe. Mas, em geral, são sim mais exigentes. O K-pop, hoje, é um dos mercados de música mais desenvolvidos em relação aos shows, com muitas ideias inovadoras, trazendo novidades e tecnologias. Isso fez com que, lá, fosse mais fácil e barato conseguir equipamentos e dispositivos, pois, para eles, já é padrão. Infelizmente, nós ainda não estamos com esse padrão de equipamentos devido a vários pontos, mas temos equipes e pessoas muito competentes, fazendo com que sejam elogiados por coreanos também. Fico muito orgulhosa quando traduzo para repassar essas mensagens.

E:  Você também escreveu a letra da música Minha Razão, do A.C.E. Como surgiu esse convite?

CH: Trabalhando com o A.C.E, nas vezes em que veio com o grupo VAV, surgiu uma amizade de colegas de trabalho. Conversamos algumas vezes sobre trabalhos no Brasil, recomendei covers de músicas brasileiras, e ele me contou que tinha vontade de fazer uma música brasileira própria. Fiquei muito feliz e me dispus a ajudar, se fosse preciso. Pouco tempo depois, ele me fez o convite para escrever a letra. Fiquei bastante surpresa, mas aceitei, porque gosto de desafios.

E: A letra foi criada direto em português ou teve uma versão em coreano como base?

CH: Foi criada diretamente em português. Nós dois achamos melhor que, traduzida do coreano para o português, não seria uma boa ideia, que não poderíamos repassar a real emoção. Assim, tive que me basear 100% no raciocínio dos brasileiros para criar.

E: A música tem uma carga emocional forte. Você colocou algo pessoal na letra ou foi mais inspirado no conceito do grupo?

CH: Discutimos juntos como seria o tema da letra, e lembrei que ele sempre comentava como tinha saudade dos fãs e momentos no Brasil. Também, o A.C.E quis fazer uma letra mostrando apoio à pessoa amada. Assim, pensamos que essa pessoa amada poderiam ser os fãs, e que a música seria algo para retribuí-los.

E:  Tem vontade de escrever mais músicas? Já recebeu outros convites como letrista?

CH: Foi uma experiência e tanto. Acredito que, numa segunda, terceira, próximas, eu poderia me sair melhor. Ainda não recebi outros convites, mas quem sabe?!

E: Existe algum artista ou grupo com quem você ainda não trabalhou, mas adoraria ter essa oportunidade?

CH: Eu sempre gostei de lidar com desafios. É um ponto positivo e, talvez, também negativo: querer sempre algo mais desafiador. Assim, tenho uma lista na minha cabeça de artistas que poderiam ser mais trabalhosos, talvez? Seja pela quantidade de equipe ou pela exigência. Seventeen e Blackpink, com certeza, são alguns deles.

E: Você tem algum bias no K-pop? Aquele artista que você admira, acompanha ou tem um carinho especial?

CH: Apesar de eu trabalhar com K-pop, não tenho muitos artistas que acompanhe ou dos quais sou fã. Mas, na época de estudante, eu tive um carinho muito grande pelo Super Junior. Na primeira vinda deles, eu não trabalhei no show, o que me deixou muito triste na época. Mas, na última, eu fui uma das coordenadoras, e foi uma gratidão e nostalgia sem fim.

E:  E pra fechar: se você pudesse voltar no tempo e dar um conselho pra Hena que tava só começando nesse caminho, o que você diria?

CH: Deve estar quebrando a cabeça entre odonto e tradução. Só continua, você dá conta dos dois.

Pare de tomar para si as dores de discussão e discórdia entre as partes. Isso só vai te consumir por dentro. Se você parar, tudo se torna mais leve. Também não fique triste pelas críticas. As construtivas, você aceita e melhora. O resto… infelizmente, é o preço, mas não precisa carregá-las com você.

Vai chegar um momento em que inveja e intrigas ao seu redor vão fazer com que você se sinta, de novo, numa profissão ingrata. Eu ainda não achei a resposta para isso. Mas também tem muitas coisas positivas esperando por você: reconhecimento, amizades, oportunidades. E a gratidão por ter tudo isso é um sentimento que não tem preço.

 

Você já foi em algum show onde a Cho Hena estava trabalhando como intérprete? Compartilhe com a gente nas redes sociais do Entretê – Facebook, Instagram e X – e nos siga para ficar por dentro de todas as novidades no mundo do entretenimento e da cultura.

 

Leia também: BTS: tudo o que você precisa saber antes do comeback mais aguardado do K-pop

 

Texto revisado por Larissa Suellen

plugins premium WordPress

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Acesse nossa política de privacidade atualizada e nossos termos de uso e qualquer dúvida fique à vontade para nos perguntar!