Ator e cantor brasileiro, conhecido por protagonizar O Rei Leão, Wicked e Kinky Boots, comenta inspirações, aprendizados e vivência de uma década em Madrid
Texto escrito por Vitória Oliveira
Em ascensão no teatro musical, Tiago Barbosa constrói nos palcos uma trajetória marcada pela versatilidade e intensidade. No Brasil, conquistou o público com personagens icônicos em produções como O Rei Leão, Wicked e Kinky Boots. Radicado em Madrid há dez anos, ampliou sua carreira internacional e se consolidou como referência para artistas brasileiros que buscam espaço no exterior.
Agora, Tiago se prepara para dar vida a Tom Collins na nova produção de Rent, na Espanha. O personagem, que representa coletividade, luta por direitos e serenidade, marca uma virada em sua trajetória, após o sucesso arrebatador de Lola em Kinky Boots. Para o ator, essa mudança significa não apenas o desafio artístico, mas também uma oportunidade de se conectar de forma mais profunda com seus colegas de elenco e com o público.
Nesta entrevista, Tiago fala sobre o processo de preparação para novos papéis, os aprendizados que carrega da vida internacional, o impacto de representar personagens tão diferentes e a importância de se manter firme em uma indústria desafiadora. Entre memórias, inspirações e reflexões, ele revela como a arte segue sendo sua forma de resistência e conexão com o mundo. Confira:
Entretetizei: Você estreia como Collins na nova produção de Rent, em Madrid. O que mais te atrai nesse personagem e como foi o processo de preparação para esse papel?
Tiago Barbosa: Tom Collins é um dos personagens emblemáticos desse espetáculo. Carrega consigo esse sentimento do coletivo e a luta pelos direitos. Depois de dois anos fazendo um papel que me rendeu tantos frutos, que foi o Kinky Boots, eu já estava desejando viver um personagem diferente daquilo que a Espanha estava acostumada a me ver. Collins é descanso e serenidade, de timbre grave e sorriso tímido. Lola era uma explosão a cada entrada em cena.
Neste processo, estou buscando o coletivo, de fora para dentro, pela primeira vez: me deixar afetar pelo coletivo, analisar cada companheiro e essa relação com eles…
E: Como você se prepara para interpretar personagens tão diferentes entre si, especialmente em musicais que exigem canto, dança e atuação ao mesmo tempo?
T.B: Eu busco o isolamento total para poder mergulhar nos estudos. Normalmente, peço ajuda e busco um preparador para me auxiliar nesse processo. Cada personagem me exigiu algo diferente, um mergulho único que marcasse aquele trabalho.
No Clube da Esquina, quando fiz o Milton, Vanessa Veiga me ajudou muito na pesquisa. Na leitura, fomos conhecer os melhores amigos do Milton, os músicos que trabalhavam com ele; estivemos na casa em que residiu e até no barzinho que frequentava. Vi todas as entrevistas dele possíveis e imagináveis no YouTube… Muitas horas de dedicação, frustração, acertos e equívocos para encontrar esse Milton, a voz do Milton.
Cada personagem é um mergulho.
E: Quando surge um novo convite ou oportunidade, quais são os elementos que você observa para decidir se aquele personagem é realmente para você? É algo mais intuitivo, de conexão pessoal, ou você avalia tecnicamente os desafios que ele traz?
T.B: Hoje, pela graça de Deus e pelos grandes amigos, parceiros, produtores e diretores que conhecem a minha entrega diária, comprometimento e implicação profissional. Eles sempre me desafiam com personagens que tiram meu fôlego. Assim foi com O Homem da Máscara de Ferro, com o Ulisses Cruz. Até hoje penso: “Meu Deus, isso foi incrível”.
E: Você menciona que Rent lhe trouxe de volta coisas que havia esquecido na corrida da vida. Quais sentimentos ou aprendizados esse processo despertou em você?
T.B: Foi um ano em que a ansiedade tomou conta do meu coração, e acho necessário falar sobre isso. O desejo de estar perto da família e dos amigos… Conciliar a carreira internacional e a vida pessoal é um pouco difícil. Sempre estive nos palcos e me sinto privilegiado por isso, mas, neste ano, algumas coisas me fizeram questionar até mesmo: “Será que esse é o caminho?”
A vida vai nos ensinando algumas coisas na marra mesmo. Há pouco tempo, uma atriz me disse: “Você sabe que te acham muito snob?”. Aquilo bateu no meu coração e me atravessou como a espada no peito de um guerreiro.
Como homem preto, ter posicionamento em meio a um mercado cruel sempre fará com que esse cara seja visto como esnobe, metido, “aquele que se acha”. Mas eu sei que metade desse caminho que construí — me autodivulgando (também com o apoio da minha irmã e assessora, Grazy Pisacane), vendendo meu peixe, sendo meu próprio empresário, tentando me manter vivo no Brasil com imagens, para não ser esquecido e aquecer esse mercado internacional — abriu caminho para muita gente que nunca havia pensado que isso seria possível, até mesmo dentro do Brasil.
É claro que desejo regressar ao Brasil, mas, às vezes, alguns posicionamentos chegam a ser cruéis e te fazem repensar. E é nesse momento que paro para rever aquele vídeo com a Julie Taymor, quando tudo que eu tinha era a vontade de ser um homem artisticamente respeitado.

E: Quais artistas ou obras te inspiram na sua trajetória no teatro musical?
T.B: Existe um brasileiro que mora na Alemanha há anos, e eu adoraria dar mais luz a tudo que ele faz e a todos os paradigmas que ele vem rompendo aqui na Europa. Ele se chama Benét Monteiro e protagoniza todos os maiores espetáculos na Alemanha.
Já para além do teatro musical, diria Cris Moura, Taís Araújo, entre outras referências e inspirações que tenho.
E: Você está radicado em Madrid há dez anos e construiu uma carreira sólida no Brasil e na Europa. Quais são as maiores diferenças entre o teatro musical no Brasil e fora do país?
T.B: Aqui, como homem negro, é um caminho bem difícil. Mas existe um lugar de reconhecimento e respeito profissional inigualável. Além do auxílio-desemprego, que só nós, artistas, sabemos que faria tanta diferença se tivéssemos no Brasil.
Mas, sobre o público, nada se compara ao público brasileiro.
E: Essa será a primeira vez que um musical ocupará um teatro público na Espanha. O que esse marco significa para você como artista?
T.B: Mais uma vez, o acesso a todos. Isso mexe muito comigo.
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Texto revisado por Kaylanne Faustino









