Com uma trajetória marcada por grandes composições, a artista inaugura um novo ciclo criativo, explorando novas formas de expressar sua identidade brasileira
Jenni Mosello entende que a sinceridade é o que sustenta qualquer artista, e é essa verdade que tem guiado sua carreira. Nascida em Curitiba e criada em Roma, a cantora e compositora cresceu entre culturas, sons e referências que contrastam em sua identidade plural.
Com uma trajetória marcada por grandes composições – entre elas Chico, Fé nas Maluca e VIP, que lhe renderam indicações ao Latin Grammy –, a artista, dando sequência ao último álbum, HOSTIL, agora se volta para um novo projeto autoral, mais íntimo e conectado à sua essência brasileira.
Atualmente, ela vive o início de uma era brava em todos os sentidos da palavra, como ela mesma define. Um momento em que se desafia como artista, compositora e mulher, testando limites e falando sobre temas que até pouco tempo não tinha coragem de expor.
Entre o medo e a empolgação, ela mergulha em um processo criativo novo, despido de filtros e movido por uma vontade genuína de se mostrar por inteiro. É uma fase que mistura força e vulnerabilidade, prometendo muitas surpresas.
Assim como o jazz e o blues, que tiveram forte influência no início de sua carreira, Jenni explorou a liberdade rítmica, a improvisação e os vocais expressivos para conquistar o público. Sua trajetória é intensa: brilhou nos palcos do The X Factor, onde foi vice-campeã, conquistando fãs com sua atitude e com versões diferentes de músicas famosas que chamaram a atenção do público.
A entrada da artista no pop nacional e sua consolidação como compositora de grandes artistas, como Carol Biazin, Di Ferrero, Iza, Veigh e Lucy Alves, ocorreram com um ritmo memorável (com rápido crescimento e reconhecimento) e cativante, refletindo sua capacidade de unir técnica e emoção em cada produção.

Os olhares internacionais também se voltaram para Mosello. Ela participou de campings de composição com compositores de artistas internacionais, trabalhou em projetos com Demi Lovato e Sam Smith e foi convidada para o She Is The Music, iniciativa de Alicia Keys que incentiva a presença de mulheres na indústria da música – tudo isso com a arte literalmente no pescoço, tatuada, como se exibisse uma parte de sua essência.
Os olhos de jabuticaba, que sua avó dizia enxergar nela, talvez tivessem outro significado, mas, assim como a fruta, Jenni se mostrou um símbolo da força incontestável do nosso talento nacional e segue plantando novas sementes com seu trabalho.
Em entrevista ao Entretetizei, Jenni fala sobre vulnerabilidade, reflete sobre o processo criativo, celebra conquistas em premiações e conta um pouco mais sobre o poder de se enxergar com o próprio olhar na nova fase em que vive:
Entretetizei: Jenni, você cresceu entre Curitiba e Roma, duas culturas bem diferentes. Nas redes sociais, você escreve: “Nasci com olhos de jabuticaba, diz minha avó; aprendi a enfeitá-los com a minha mãe…” De que forma esses dizeres, os laços familiares e essa dualidade entre as cidades influenciaram o seu modo de olhar o mundo, de criar e de se expressar artisticamente?
Jenni Mosello: Crescer entre o Brasil e a Itália me mostrou uma dualidade muito interessante — e, ao mesmo tempo, uma semelhança que nem todo mundo percebe. São dois países de sangue quente, que vivem tudo no auge da emoção. A Itália me ensinou a amar a arte clássica, o drama e a beleza da intensidade; o Brasil me ensinou a transformar qualquer dificuldade em ritmo, sorriso e música. Acho que esse contraste me formou como artista: aprendi a viver e criar com paixão, com intensidade e com um olhar que busca beleza tanto no caos quanto na delicadeza.
E: Muitas iniciativas e coletivos de composição reforçam a ideia de que a criação coletiva pode ser tão potente quanto a individual. O que essa troca entre artistas e produtores ensinou a você sobre o processo de compor e sobre a força das conexões na música?
J.M: Eu adoro criar em grupo. Acho que a força da composição coletiva está justamente na troca de vivências – é o que faz uma música se tornar mais rica e inesperada. Eu cresci vendo o mundo a partir do meu ponto de vista, então somar o olhar de outras pessoas na hora de criar é algo que me fascina. Essa troca de perspectivas e experiências faz a gente chegar a lugares que sozinha talvez eu
nunca imaginasse. É isso que me encanta na música e na criação coletiva: o encontro de mundos diferentes dentro de uma mesma canção.
E: Muitas das suas letras falam sobre força e vulnerabilidade caminhando juntas. Você entendeu que expor suas fragilidades também podia ser uma forma de poder?
J.M: Eu nunca encarei a ideia de expor minhas vulnerabilidades como uma escolha consciente ou uma estratégia de força. Foi algo que aconteceu por necessidade, um impulso natural. As músicas, muitas vezes, falam comigo antes mesmo de eu
entender o que estou dizendo – escrevo antes de perceber que aquilo é exatamente o que eu precisava ouvir. É um processo catártico, quase terapêutico, e essencial para o meu bem-estar. Acho que o poder acaba surgindo justamente
daí, do espaço que eu dou para as minhas fragilidades existirem dentro da minha arte. Não é racional, é instinto – da pele, da caneta e da voz.

E: Você começou no jazz, mergulhou no dark pop e hoje transita entre compor para outros artistas e criar projetos autorais como foram JENNI, FEMMINA e HOSTIL. O que essa caminhada te ensinou sobre o seu modo de criar e sobre quem você é na música?
J.M: Acho que o maior aprendizado da minha caminhada foi entender que a sinceridade é o que sustenta qualquer trajetória artística. No começo, por vir de uma família sem ligação com a música, eu me deixei guiar muito pelas expectativas dos outros. Tinha essa fome enorme de fazer dar certo, então acabei me moldando às opiniões de quem eu acreditava entender melhor a indústria.
Com o tempo, percebi que o verdadeiro segredo está em ser o mais honesta possível comigo mesma e com quem me escuta. Essas “máscaras” foram caindo, e eu fui me entregando de forma cada vez mais real – para o público e para mim.
A análise, que eu faço há mais de uma década, também me ajuda a transformar tudo isso em arte, para que o que eu canto seja, de fato, um reflexo de quem eu sou por dentro.
E: Você já comentou que compor é como “viajar por muitos mundos” e que, “na música, somar é dividir”. Como é transitar entre criar para si e criar para outros artistas? Em que medida essas experiências se alimentam e se transformam?
J.M: Acho que é inevitável uma experiência influenciar a outra, porque a gente vive
de trocas. Eu sempre digo que nós, compositores, somos como esponjas: tudo o que vivemos, sentimos e observamos vai sendo absorvido, e quando compomos, liberamos um pouco desse mundo que ficou dentro da gente. Compor para outros artistas me fez entender ainda mais quem eu sou como artista e como compositora. Ao visitar diferentes realidades e estilos, fui descobrindo o que realmente faz sentido para mim e o que não faz. Com o tempo, essa prática me deu clareza e maturidade para separar o que é meu e o que pertence ao universo do outro artista. Hoje, consigo entrar completamente no mundo deles sem perder o meu, mas também com a soma de todas as vivências que já tive ao compor ao lado de outros artistas e em meus próprios projetos.
E: Do palco ao estúdio, das canções autorais às parcerias internacionais e indicações ao Grammy: como você define o ponto de virada que essas conquistas representaram na sua carreira – e o que elas acenderam em você para construir a próxima fase?
J.M: É incrível poder receber essas nomeações e ver de perto essas conquistas. Elas me fazem ganhar cada vez mais confiança de que estou no caminho certo. Ainda assim, acho que dentro do mundo artístico é muito difícil parar e realmente perceber o tamanho dessas vitórias. Tenho conversado bastante com amigos da indústria sobre isso, porque a gente vive num ritmo em que tudo o que fazemos só ganha forma muito tempo depois – às vezes, anos. É um trabalho de longo prazo e o retorno raramente é imediato. Por isso, eu tento celebrar cada sessão, cada processo criativo e me lembrar constantemente do porquê faço o que faço. Poder trabalhar com música todos os dias já é, pra mim, a maior conquista. Viver de arte, me sustentar com o que amo é o maior privilégio que eu poderia ter. Tudo o que vem a partir disso são presentes – frutos de sementes que foram plantadas lá atrás, com muito suor e dedicação.

E: E qual letra de música, palavra ou sensação você escolheria para definir essa nova era que está construindo na nova fase da sua carreira? Pode dar algum spoiler do que podemos esperar dos próximos passos?
J.M: Essa nova era é uma era muito brava em todos os sentidos da palavra. Estou forçando meus limites como artista, como compositora, como mulher, como tudo. Estou falando sobre coisas que nunca falei antes, fazendo músicas de um jeito completamente novo e explorando minha brasilidade de uma forma que até hoje eu não tinha tido coragem de colocar no mundo. Estou muito ansiosa para lançar essa fase e, ao mesmo tempo, morrendo de medo – porque me sinto um pouco pelada na frente dos outros. Mas acho que justamente por isso vai ser uma fase muito especial, muito verdadeira e muito minha.
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Texto revisado por Cristiane Amarante @cris_tiane_rj









