A série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, dirigida por Andrucha Waddington, mergulha na vida da pantera de minas e na violência de gênero que marcou sua trajetória.
A produção Ângela Diniz: Assassinada e Condenada revisita o caso de assassinato que impactou o Brasil na década de 70 e retrata os últimos dias de vida da socialite mineira Ângela Diniz, assassinada pelo namorado Doca Street em 30 de dezembro de 1976, na Praia dos Ossos, em Búzios (RJ). A série convida o público a refletir sobre liberdade feminina, machismo, feminicídio e violência de gênero, temas que seguem urgentes quase 50 anos depois do crime.
Ângela não se enquadrava nos estereótipos da moça recatada e de família. Era livre, ousada e buscava viver sem amarras, uma mulher transgressora. “Essa história estava para ser contada há 49 anos”, afirmou Andrucha, durante coletiva de imprensa realizada na última terça-feira (11), em São Paulo.
Ela não foi somente uma vítima de feminicídio: Ângela foi transformada em ré no julgamento de seu próprio assassinato. Na década de 70, ser uma mulher desquitada era como ser uma mulher desqualificada socialmente. Após a sua morte, parte da imprensa e a defesa do acusado a descreveram com termos pejorativos como “vagabunda”, “louca”, “péssima mãe” e uma “prostituta de alto luxo da Babilônia”, como disse Evandro Lins e Silva, ex ministro do Superior Tribunal Federal e advogado de defesa de Doca Street. Ele chegou a sustentar a tese de que ela provocava e merecia, além de ter utilizado a legítima defesa da honra para livrar o criminoso da cadeia e culpar a vítima por suas liberdade e escolhas.
Reflexões sobre o poder da história de Ângela e o machismo estrutural

Para Marjorie Estiano, que interpreta Ângela, o processo de viver a personagem foi também um mergulho íntimo e pessoal. “Ter feito a Ângela foi um processo psicanalítico. Uma mulher que se permite ao prazer é algo muito importante na sociedade brasileira. A gente sente muita culpa por sentir prazer, por se divertir, e a Ângela se autorizava a se dar prazer, a viver. A beleza da vida é viver. Eu me identifico com essa falta de autorização, para mim a vida sempre foi trabalho, compromisso, então foi uma oportunidade de me experimentar no prazer e na liberdade. A gente vai conseguindo com o tempo e exercício“, refletiu a atriz.
Marjorie ainda destacou que interpretar uma mulher tão à frente de seu tempo a fez revisitar questões pessoais e entender de forma mais profunda, a persistência da violência de gênero no Brasil. “Para mim foi um divisor de águas trabalhar com o Andrucha, e representa uma outra relação com o audiovisual. Eu não conhecia a história da Ângela. Ele me convidou, topei, depois fui ver o que era. Aí ele me mandou o podcast Praia dos Ossos, que me deixou enlouquecida. É um trabalho muito completo, extenso, é uma pesquisa muito rica. Me deu uma identificação pessoal porque é algo que me impacta diretamente, o fato de ser uma violência de gênero. Eu não só já sofri inúmeras violências como vou continuar sofrendo, porque essa é uma realidade. A gente está aqui tentando trabalhar na reeducação, na transformação de pensamento da sociedade, mas essas transformações são mais lentas. A gente consegue comprovar isso de acordo com as leis. A teoria da legítima defesa da honra caiu em 2023. A gente ainda continua formulando novas leis de proteção à mulher o que reflete, pra mim, que a mentalidade não mudou, a gente ainda continua ameaçada”, contou a atriz reforçando que essa visão retrógrada e conservadora ainda permeia a sociedade atual e é mais real do que nunca. Infelizmente, a luta contra a violência de gênero e o patriarcado continua.
O diretor Andrucha Waddington explica que o projeto buscou retratar a sociedade machista e conservadora que marcou a década de 1970 no Brasil, um machismo estrutural que ainda está presente nos dias atuais. “A gente tentou trazer um realismo, um cuidado em retratar a época, que era muito mais fã do fascismo estrutural. Era uma sociedade conservadora que não suportava uma mulher como a Ângela”, explicou.
Ele também detalhou como queria retratar a vida dessa mulher transgressora e a complexidade de trazer essa história tão forte e impactante para as telas sob seu olhar e o olhar de sua equipe: “Foi um trabalho muito coletivo. A gente tentou trazer o realismo com, ao mesmo tempo, um cuidado de retratar a época. Era uma época em que o machismo estrutural era muito violento, você vê que nenhum dos homens presta ali. O Tuca é o mais bonzinho e, ainda assim, faz algumas coisas ruins. Tem aquela coisa conservadora da sociedade mineira. As amigas acolhiam essa personalidade libertária da Ângela, mas a sociedade não suportava. Foi muito complexo abordar toda essa história. Trazer isso para o público é trazer algo que continua acontecendo no Brasil e no mundo. É algo inadmissível.”, destacou o diretor.
Libertação e desconstrução dos estereótipos femininos

A atriz Camila Márdila, que interpreta Lulu, uma das amigas de Ângela, comentou que, embora a tese da legítima defesa da honra não exista mais como lei, a mentalidade que a sustentava ainda é a origem de todo esse discurso machista e conservador que persiste: “Fiquei impactada pelas escolhas de Marjorie e Andrucha, que bancaram essa Ângela libertária, sem medo, que não tinha dono e não se desculpava por querer viver tudo o que tinha direito. Homens e mulheres ainda não estão preparados para isso. A nossa sociedade ainda continua conservadora. Acho que a série vai dividir opiniões porque ainda vai ter gente que vai olhar e dizer que ela merecia ser assassinada”, afirmou a atriz.
Yara de Novaes, que vive Maria, mãe de Ângela, que tenta reforçar o estereótipo da mãe conservadora, afirma que a série permite desconstruir a imagem engessada da mulher ideal e que as mulheres podem ser livres do jeito que quiserem ser: “Normalmente, para defender a Ângela, usa-se o estereótipo de que ela era amantíssima com os filhos, uma mulher como ela deve ser. E a Marjorie fez isso, ela fez uma mulher libidinosa, desejosa, e isso é uma libertação para nós”.
Com um olhar sensível e crítico, Andrucha reforçou que a série busca não só revisitar o crime, mas promover uma reflexão sobre o papel da mulher na sociedade atualmente e sobre o papel do machismo e a violência de gênero ainda vivos. “Ângela Diniz era uma mulher à frente de seu tempo, e o que ela representava incomodava profundamente. Esse incômodo é o que a série busca expor, busca discutir”, concluiu o diretor.
Doca Street e a masculinidade tóxica

Para Emílio Dantas, que interpreta Doca Street, o desafio foi encarnar um personagem que representa a masculinidade tóxica ainda presente na sociedade. O ator também refletiu sobre o poder de Ângela como uma mulher livre, transgressora e moderna e que, se o caso acontecesse nos dias de hoje, também não entenderiam essa mulher: “49 anos atrás, a gente pensa, poxa, até hoje… mas também acho que é necessário a gente entender quem seria esse Doca hoje, colocar essas datas lado a lado e entender que hoje ele estaria no Congresso, teria uma equipe de marketing junto com ele, porque o máximo de avanço tecnológico ali era televisionar o julgamento e apelar com o melhor advogado que fosse. Mas acho importante entender também quem seria a Ângela hoje. Não é só um atraso no nosso comportamento. Essa Ângela hoje estaria sendo muito mais massacrada na internet, na vida, enfim…”, avaliou o ator.
Ele ainda define o seu personagem como um retrato de uma masculinidade tóxica muito presente atualmente: “É um homem que vive do status, da vaidade. É alguém que quer ser visto”.
Impacto pessoal e o legado na sociedade

Outro cuidado da equipe ao revisitar o caso foi o de dar protagonismo à vítima e à história de Ângela e não ao seu algoz. “Nosso cuidado foi o de não transformar a tragédia em espetáculo. A série é sobre a assassinada, não sobre o assassino. Se quiséssemos explorar o escândalo, teríamos dado mais espaço ao Doca, e não fizemos isso”, pontuou o diretor Andrucha.
Joaquim Lopes, que interpreta um dos amores de Ângela, refletiu sobre como o processo impactou pessoalmente sua forma de enxergar a sociedade, o machismo, o poder e a impunidade: “Para mim, pessoalmente, tem uma coisa muito forte porque eu virei pai de duas meninas gêmeas de quatro anos de idade. Então, poder fazer parte dessa história que está fomentando esse tipo de discussão é muito importante pra mim, porque eu quero que elas cresçam em um mundo onde não tenham que passar por isso. É muito impressionante como o ser humano tem essa necessidade de dizer o que uma pessoa é , e geralmente vai para algo pejorativo. A Ângela era uma mulher livre, com desejos, como todas as outras. Para mim, pessoalmente, é muito importante que essa conversa volte com força total, que a gente consiga superar isso o mais rápido possível para que as minhas filhas possam crescer em um mundo mais justo, mais livre”, contou o ator.
Estrelada também por Antônio Fagundes, Thiago Lacerda, Camila Mardila, Thelmo Fernandes, Joaquim Lopes e Renata Gaspar, Ângela Diniz: Assassinada e Condenada terá seis episódios, exibidos semanalmente pela HBO Max e na HBO. Os dois primeiros episódios foram lançados nesta quinta-feira, 13.
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Texto revisado por Larissa Couto @larscouto








