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Foto: divulgação / João Raphael Ramos / Galera Record

Entrevista | João Raphael Ramos transforma mitologias africanas em fantasia para jovens leitores

Em entrevista, o escritor revela como uniu fantasia, ancestralidade e afrofuturismo em livro de estreia

E se os filhos de divindades africanas vivessem no Rio de Janeiro contemporâneo? É o que imaginou João Raphael Ramos ao escrever Orixás: O Poder dos Filhos do Tempo, novo livro da Galera Record que chegará às livrarias no dia 31 de agosto. A obra, voltada para o público infanto-juvenil, seguirá a história dos jovens Akin, Ayô, Mali, Jana, Raoni, João e Zian — descendentes diretos dos Orixás. 

Desta forma, em seu romance de estreia, o autor constrói uma narrativa que se desenrola a partir das mitologias afro-brasileiras, refletindo sobre a magia do cotidiano. Na história, os personagens precisarão enfrentar uma sombra ancestral que se alimenta das histórias dos mundos dos vivos e dos espíritos, denominada MAAFA. 

Assim, ao receber o chamado do Tempo Espiralar — um local de confluência entre memória, ancestralidade e destino —, eles visitarão momentos decisivos da história. Nesta jornada, defrontam-se com ajoguns, reequilibram seus Oris e despertam forças adormecidas. Porém, há outros desafios, como rivalidades, dúvidas e segredos que desafiam seus laços de amizade. 

Apaixonado por literatura fantástica, Ramos é também sociólogo, educador e doutorando na área de educação antirracista. Ainda leciona para o ensino médio nas redes particular e pública do Rio de Janeiro, como professor de sociologia e filosofia. Em entrevista ao Entretetizei, o escritor revela mais sobre o processo de criação do livro, suas maiores inspirações, antirracismo e muito mais. Confira!

O que levou João Raphael Ramos a escrever ficção 
Foto: divulgação/Galera Record
Entretetizei: Orixás: O Poder dos Filhos do Tempo é seu primeiro romance. Como foi transformar anos de pesquisa acadêmica sobre educação antirracista e culturas africanas em uma história de fantasia?

João Raphael Ramos: Apesar de ser meu romance de estreia, eu escrevo desde os 13 anos de idade. No meu primeiro livro — na época eu não tinha computador —, eu escrevi num caderno, à mão, a lápis. Esse livro tem 544 páginas e está guardadinho até hoje. Eu não escaneei, não passei para o computador, nada. Depois, cheguei a publicar alguns contos a partir de 2013, quando passei a fazer parte do processo de formação de escritores da Flupe, na segunda turma. Mas, como você bem disse, eu venho da academia. 

Atualmente, estou cursando o doutorado em educação antirracista na UFRJ. Apesar de ser um acadêmico, sou, antes de tudo, um leitor. Antes mesmo de escrever, sou leitor. Sou muito fã de ficção fantástica e de ficção científica também.

Eu trago como uma das grandes inspirações para a minha vida o Tolkien e O Senhor dos Anéis. Tenho até uma tatuagem com os escritos do anel. E divido com o Tolkien as iniciais do nome: ele é John Ronald Reuel, J.R.R., e eu sou João Rafael Ramos, J.R.R. também.

Como leitor, sempre me incomodou muito na ficção fantástica não poder olhar para a minha ancestralidade e perceber ela representada, principalmente a urbana. A gente lê muito a mitologia nórdica — pela qual também sou apaixonado —, mas olhar para isso e perceber: “Poxa, a gente tem uma ancestralidade de matriz africana que também carrega magia”.

Acho que é muito importante dizer que o meu livro busca resgatar um pouco esse lugar da magia que está mais próxima da gente, no nosso cotidiano, mas que muitas vezes a gente não percebe. O dia a dia não deixa a gente perceber a magia que tem à nossa volta.

Enquanto acadêmico, ao longo dos meus estudos, eu sempre tive contato com vários conceitos em que pensava: “Nossa, parece que estou falando de fantasia. Parece que isso vem da literatura fantástica. Isso caberia em uma história”. E Orixás surge a partir disso. Eu trago no livro vários conceitos que eu mesmo estudei na universidade, a começar pelo conceito de tempo espiralar.

Inspirações acadêmicas para a escrita de Orixás: O Poder dos Filhos do Tempo
E: E como você explicaria esses conceitos?

JRR: Tempo espiralar é um conceito da Leda Maria Martins. Eu acabo fazendo esse caminho de volta: esses conceitos já estão presentes em uma literatura mais acadêmica e eu busco reinterpretá-los dentro de uma literatura fantástica. Ela tem um livro muito bom chamado Performances do Tempo Espiralar: Poéticas do Corpo-Tela, no qual ela traz a interpretação do tempo a partir de uma perspectiva não linear, a partir de uma perspectiva espiralar. E aí eu trouxe esse conceito: como seria trabalhar uma ficção fantástica em que os personagens percebem o tempo de uma forma não linear e viajam por esse tempo, quebrando um pouco esse paradigma do tempo ocidental, de passado, presente e futuro?

em outro conceito, que é como eu chamo esses sete personagens principais que se unem para combater essa grande ameaça. Eu chamo esse encontro de confluência. Confluência é um conceito que chega até mim a partir do filósofo Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, que eu tive a honra de conhecer em vida. Antônio Bispo falava dessa magia e ancestralidade presentes no seu próprio discurso sobre o que é a confluência. Quando ele diz que um rio, quando se encontra com outro rio, não deixa de ser o primeiro rio: ele é o primeiro rio e carrega também consigo o segundo. Esse encontro entre esses sete jovens é mais do que um encontro em si: é uma confluência justamente porque cada um carrega o seu próprio tempo espiralar. Eles têm uma missão em conjunto, mas também podem carregar uns aos outros. 

Quando eles se unem, eu os chamo de Supraviventes. Supravivente também é outro conceito que vem para mim a partir do Luiz Antônio Simas e do Luiz Rufino, quando explicam sobre como a população negra, ao longo da história, sobrevive, e como a gente precisa ultrapassar essa ideia de sobrevivência para chegar a uma vivência plena — que é o que a população branca tem. Mas como a gente traz a ancestralidade, a gente pode chegar a outro lugar, que é o lugar da supravivência: algo para além da vivência plena, que para a população negra seria recuperar o valor desse sagrado que anda com a gente, essa ideia de que nosso espaço vem de longe e não caminhamos sós. 

Chamo eles de supraviventes na medida em que parte da missão deles também é reencontrar o seu ori ancestral, a sua cabeça, aquilo que os assenta enquanto sujeitos nesse mundo fantástico, mas ao mesmo tempo muito próximo da gente, que é o Rio de Janeiro. 

A história começa no carnaval. O carnaval é a representação dessa união do sagrado com o profano, da festa com o cultuar, porque na medida em que a gente festeja, a gente também está cultuando.Esses sete jovens se unem para combater essa ameaça ancestral que é a MAAFA. MAAFA é um conceito que surge para mim a partir das minhas leituras acadêmicas, da Marimba Ani. Maafa significa, em suaíli, a grande tragédia. A Marimba Ani usa a Maafa para explicar o que acontece com a população negra durante o período do tráfico atlântico: a desconexão com o seu local de moradia ancestral e com a sua própria ancestralidade. O escravizado que vem deixa até o nome para trás, ou seja, perde tudo aquilo que representa identidade para ele. 

Quando chega vivo, é obrigado a trabalhar e precisa sobreviver, mas também carrega consigo o axé dos seus ancestrais. De alguma maneira, ele vai tentar fazer com que suas crenças originárias sobrevivam.São vários os conceitos que vou organizando a partir dessas leituras acadêmicas. Faço esse esforço de reinterpretar esses conceitos de maneira muito respeitosa, claro, respeitando todo mundo que me ajudou a chegar até aqui, a aprender e a falar sobre eles com mais propriedade. Mas também podendo manobrar esses conceitos para o que eu quero, que é fazer com que as pessoas compreendam que dá para ver magia na ancestralidade dos orixás, que dá para ver essa magia a partir do corpo, em um sistema de magia que dialoga com a corporeidade, um valor tão importante.

Para mim foi muito interessante, um movimento que gostei muito de ter feito para produzir este livro: essa reinterpretação desses conceitos que surgem das minhas leituras no mestrado e no doutorado.

Representatividade em obras infantojuvenis
E: E por que você decidiu que essa aventura fosse vivida por personagens jovens?

JRR: Eu acho que a juventude carrega em si essa alegria de viver e essa vontade de mudar o mundo. Eu sou um homem jovem, com meus 36 anos agora, mas muita coisa do que vivi e venho percebendo na minha trajetória — da militância até me tornar professor e acadêmico. Eu estou em sala de aula e dialogo com essa juventude que me faz sentir cada vez mais jovem, no sentido de estar sempre sabendo qual é o meme da hora, o que eles estão falando, como estão olhando para o mundo e se colocando nele.

Ao mesmo tempo, é o momento mais crucial da vida no que diz respeito à possibilidade de pensar o futuro. Vejo que a juventude hoje está sendo bombardeada de imagens que não correspondem com a realidade o tempo inteiro, pelas redes sociais, por exemplo. Isso faz com que tenham mais dificuldade de entender como é possível moldar o nosso futuro de maneira natural. Em especial, falando da juventude negra, tem que dialogar com a sobrevivência diante de um Estado que é racista, um Estado que mata um jovem negro a cada 23 minutos. Eu incorporo na minha escrita essa juventude com todos os dilemas que fazem parte desse momento.

Vou dar o exemplo de um dos personagens que mais gosto, o Akin — que tem o nome do meu filho, nascido depois que comecei a escrever o livro. Ele é um jovem órfão de pai e mãe que cresceu vendendo balas nas ruas. Ele está ali entre os 17 e os 18 anos e descobre que tem uma ancestralidade batendo à porta e a responsabilidade de ser a representação de Exu, aquele que abre todos os caminhos. A responsabilidade dele é manter esses caminhos abertos para que a MAAFA possa ser derrotada. Ele se vê nesse momento de grande responsabilidade, e acho que isso representa muito o jovem de hoje.

Olho para esses caminhos todos abertos, para essas encruzilhadas por onde o Akin vai caminhar, como sendo os caminhos pelos quais os jovens precisam atravessar e seguir em direção ao futuro que escolheram para si.

A juventude traz muito dessa energia vibrante que, depois que ficamos mais velhos, ficamos querendo resgatar. Se essa corporeidade é tão importante na minha escrita, ela deve ser representada por essa juventude.

E: Qual você acha que é o papel da literatura para fazer que o jovem negro — que talvez nunca tenha se visto em papel de destaque, de protagonismo — ver que ele pode, sim, ter outros caminhos?

JRR: Acho que a literatura é essencial, porque a gente pode estar lidando com uma realidade que às vezes não permite nem vislumbrar o futuro, em um momento em que vivemos tudo no imediatismo, onde tudo é para ontem. O que resta para o amanhã?

A literatura e as palavras têm essa magia. Um dos personagens que vai caminhar com esses jovens, mesmo que não fisicamente, é um griô. Um griô é nada mais, nada menos do que um guardião das palavras, da sabedoria a partir da oralidade. A palavra tem um poder muito forte na construção desse saber que vai nos permitir vislumbrar o futuro à nossa frente.

A literatura mudou a minha vida e a minha trajetória. De leitor, passei a ser escritor; de escritor, passei a ser professor. Hoje eu ensino para fazer com que o meu aluno também se empodere das possibilidades à sua frente e se organize para se movimentar. O tempo nada mais é do que movimento. Se a gente não se movimenta, o mundo movimenta a gente — e deve ser o contrário, nós é que devemos movimentar o mundo. Acredito que a literatura tem esse papel de fazer o jovem entender que ele pode e deve movimentar o mundo e projetar o futuro. Isso é essencial para pensar uma condição de vida que ultrapasse a sobrevivência e a vivência plena, e chegue à supravivência.

E: O afrofuturismo ainda é um conceito relativamente novo para boa parte do público. Como você explicaria esse movimento para alguém que nunca ouviu falar sobre ele?

JRR: O afrofuturismo ultrapassa as barreiras de diferentes gêneros da literatura. É um movimento que envolve as artes como um todo: a pintura, a música, a escultura. O afrofuturismo trata de ser uma resposta justamente à necessidade da possibilidade de se pensar um futuro diverso. Ou seja, pensar um futuro onde também haja pessoas negras e onde elas representem papéis de protagonismo.

Posso pensar isso a partir do cinema, da música, da literatura e de vários elementos culturais. Sobretudo, o afrofuturismo é isso: um movimento cultural que resgata a possibilidade de construção de futuros possíveis, que sejam diversos e que tenham pessoas pretas em lugar de protagonismo.

E: E você, como professor do ensino médio, convive diariamente com adolescentes. Essa experiência influenciou de alguma forma na construção dos diálogos e dos conflitos dos personagens?

JRR: Certamente. Parto primeiro da minha própria adolescência na década de 90, que foi muito diferente porque a gente estava começando a ter contato com os primeiros computadores chegando aos lares, a internet discada. De lá para cá, as mudanças tomaram um rumo feito trem-bala. As mudanças hoje ultrapassam a nossa própria possibilidade de apreender o que está acontecendo.

Parto desse movimento da minha adolescência e depois trago como referência a adolescência de hoje. Tenho uma personagem, a Iomedê. A Iomedê é filha de Ogum, e Ogum é o orixá da tecnologia. Ela é uma personagem que vai passar por uma experiência escolar muito distinta porque é autodidata e superdotada, trazendo no seu arcabouço de habilidades essa coisa de trabalhar e pensar o mundo a partir da tecnologia.

Na construção dessa personagem, trouxe questões vividas por várias alunas minhas. Esse diálogo e contato direto com a juventude me fez, em grande parte, pensar o arquétipo de cada um dos sete personagens. Foi difícil trabalhar com sete personagens e desenvolvê-los de maneira que não parecessem rasos, que tivessem seus conflitos, desenvolvimento pessoal e coletivo.

Fazer com que esses sete jovens trabalhem juntos foi como dizer para os meus alunos: “Está vendo? Dá para todo mundo trabalhar junto”. Hoje tem sido uma grande dificuldade encontrar uma galera disposta a trabalhar em equipe, a pensar o mundo a partir do coletivo. Acho que foi isso que meus alunos trouxeram de importante para mim: pensar como o mundo pode estar acabando e sete jovens ainda conseguirem trabalhar em grupo, ainda que tragam suas próprias trajetórias, dificuldades, preconceitos e vivências. 

E: Você citou anteriormente que gosta muito do Tolkien. Existem mais autores ou obras que inspiraram a sua escrita?

JRR: Com certeza. Vou falar de autores brasileiros que conheço e que já trabalham o afrofuturismo dentro dessa perspectiva: o Stefano Volp, o Ale Santos, o Fábio Kabral e a Lu Ain-Zaila.

De fora, tem a Chimamanda Ngozi Adichie, sou apaixonado pelo trabalho dela. Além do Tolkien, tem o George R. R. Martin, leitura que chegou para mim quando eu tinha 18 ou 19 anos, quando comecei a ler Game of Thrones.

Há também autores que foram meus professores, como o Renato Nogueira, que produz uma literatura infantil de muita qualidade e fala de amor e filosofia africana; a Katiúscia Ribeiro, que também fala de filosofia africana. Nesse contexto, acabo unindo autores da literatura e do afrofuturismo no Brasil com autores que estão trabalhando na academia na construção de conceitos que nos ajudam a pensar o mundo a partir dessa ancestralidade negra.

E: Existe algum personagem do livro com quem você sente uma conexão especial? 

JRR: O Akin é um deles. Gostei muito de escrever o arco dele por causa dessa ideia de pensar o filho de Exu trabalhando os caminhos e as encruzilhadas da vida.

A Mali é uma personagem que gostei muito de escrever e com quem tenho conexão porque gosto muito de samba, e ela é passista de uma escola de samba. A Iomedê, que é filha de Ogum e trabalha com tecnologia. Pensar em uma mulher negra em um lugar de destaque na tecnologia foi inspirado na Nina da Hora, que foi uma grande referência para mim.

Tem o Raoni, que é filho de Oxóssi. Eu sou filho de Ogum e Oxóssi. Pensar esses arquétipos para trabalhar dois personagens tão diferentes, como a Iomedê e o Raoni, me fez conectar bastante com o movimento que a caça e a conexão com a floresta significam, e também com a construção da tecnologia que a Iomedê traz.

Tem a Jana, que é filha de Iemanjá e tem um arco muito interessante relacionado à questão da imigração hoje, sobretudo pelos mares. Essa travessia atlântica nunca deixou de acontecer: se o Atlântico é um grande cemitério, hoje o Mediterrâneo também é, com imigrantes africanos saindo do norte da África em direção à Europa e ficando pelo caminho. O arco da Jana foi muito interessante de escrever porque me fez me ligar nisso.

A Zian é filha de Iansã e tem uma relação e um arco com a guerra que é muito interessante.

De maneiras diferentes, acabo me conectando com todos os personagens, mas em especial com o Akin, que levou o nome do meu filho antes de ele nascer. Acho que simboliza bastante.

E: O livro possui algumas semelhanças com Percy Jackson — uma obra que introduziu muitos jovens à mitologia grega. Faz sentido para você essa comparação? Você deseja que, assim como na obra de Rick Riordan, as pessoas queiram saber mais sobre as mitologias africanas e sobre os orixás?

JRR: Total! Eu li os quatro primeiros livros da série do Percy Jackson e na época me apaixonei por essa ideia de introduzir os jovens na literatura de fantasia e na mitologia grega. É uma comparação que me deixa muito feliz, por pensar que é possível construir a partir das nossas mitologias e apresentá-las para os jovens. Se eu conseguir fazer metade do que Percy Jackson fez no Brasil, já estou feliz demais.

Ficaria muito feliz se essa comparação fosse metade verdade. Meu livro tem um pouco esse caráter. Apesar de trabalhar os orixás e a filosofia banto e iorubá em especial, ele não é um livro religioso. Trabalho a partir da licença e com todo o respeito às religiões de matriz africana, mas pode ser que tenha no meu livro coisas diferentes do que as pessoas veem na religião. Mas se este livro levar as pessoas a conhecerem os orixás dentro de outra perspectiva – de potência, magia e fantasia -, vou estar muito feliz.

 

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Revisado por Marina Barrelli de Carvalho

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