Autora ainda comenta inspirações e novos projetos
Marcela Talavus lançou, pela Editora Euphoria, a edição definitiva de Quente Como o Inferno, um dos sucessos do dark romance brasileiro. A nova versão chega com capa exclusiva, ilustrações internas, diagramação detalhada e conteúdos inéditos, oferecendo uma experiência de leitura mais imersiva. A pré-venda já está disponível no site da editora, com brindes colecionáveis para os primeiros compradores.
Mais do que uma atualização gráfica e textual, o relançamento reafirma a força do dark romance LGBTQIAPN+, um gênero que cresce cada vez mais no país. A autora busca explorar temas como fé, desejo, dilemas morais e representatividade queer em narrativas sombrias e intensas.
Em entrevista exclusiva, Marcela Talavus falou sobre o processo de criação da obra, os desafios de lidar com temas sensíveis e o impacto do protagonismo queer da sua obra.
Entretetizei: O que motivou a publicação da edição definitiva de Quente Como o Inferno e quais novidades ela traz em relação à versão original?
Marcela Talavus: Quente Como o Inferno é uma história que existe há bastante tempo, mas ainda é cercada por leitores leais. Eu e a editora Euphoria queríamos oferecer ao público uma versão mais sombria, madura e fiel à obra como livro original, incorporando correções, revisões e conteúdos adicionais que não estavam presentes em outras edições. Além de trazer uma capa com ambos os protagonistas, ilustrações internas, diagramação detalhada, subtítulos e um texto mais lapidado. São mudanças pensadas para criar uma nova imersão na leitura.
E: Como nasceu a ideia de construir a relação entre Caleb Heilel, o Senhor do Inferno, e Benjamin Parker, filho de um pastor?
MT: A ideia foi colocar em choque o que parece sujo e o que parece puro, subvertendo os papéis de mau e bom. Quis explorar como ambos podem se transformar pela dor, pelo amor e até pelo desejo. De certa forma, um grumpy x sunshine.
E: O livro mistura fé, desejo e dilemas morais. Qual foi o maior desafio ao tratar de temas tão sensíveis?
MT: Certamente equilibrar a intensidade do desejo e da repreensão com a complexidade da fé e dos dilemas morais e imorais dos personagens, de forma que cada elemento permanecesse verdadeiro e provocasse reflexão sem tirar a ternura e o calor do romance.
E: A ambientação sombria e mística de Quente Como o Inferno é muito marcante. Como você construiu esse cenário e quais referências literárias ou culturais ajudaram nesse processo?
MT: Escolhi a Califórnia porque carrega, no imaginário popular, o hedonismo de Hollywood, algo que se encaixava perfeitamente em Caleb Heilel. Entre as referências, obras como Constantine, Um Amor para Recordar, Californication, Lúcifer e o Auto da Compadecida foram aliadas na hora de construir o universo de Holy Paradise e além. Quanto aos livros, O Fantasma da Ópera, Dom Casmurro e A Divina Comédia foram peças da literatura que me impulsionaram. Músicas também, com bandas como Hozier, Muse, Dorothy, AC/DC e Chase Atlantic.
E: Como você enxerga a presença de protagonistas LGBTQIAPN+ dentro de um gênero ainda de nicho como o dark romance?
MT: É uma oportunidade de tornar os livros mais diversos, já que personagens queers quase sempre ficaram em papéis secundários. O dark romance lida com zonas de sombra e com a quebra de normas, algo que ressoa com a experiência LGBTQIAPN+. No protagonismo, esses personagens levantam novos conflitos, impasses e estigmas; isso gera identificação e riqueza psicológica no gênero. É ótimo saber que existem dark romances e romances diversos sobre pessoas, no geral. Até pouco tempo, um beijo entre dois personagens masculinos em uma HQ causou polêmica e censura em uma Bienal. Hoje, editoras como a Euphoria, e outras, levantam essa bandeira e ocupam espaço em eventos literários, com cada vez mais protagonistas LGBTQIAPN+.
E: Em Sathanis, spin-off de Quente Como o Inferno, você amplia o mesmo universo. Como foi esse processo de expansão narrativa?
MT: Sathanis é um spin-off independente, cercado por uma trama que traz os protagonistas de QCI como ameaça, mas se apresenta com seus próprios acontecimentos, dramas e personagens. A expansão acontece na ambientação, uma Califórnia mais contida, menos hollywoodiana, mas ainda dentro do universo de Holy Paradise. Minha intenção era aprofundar o universo já criado, explorando um cenário mais jovem e alternativo, incluindo nele personagens de QCI, como Gadreel e uma breve continuação do destino de Caleb e Benjamin.
E: Na sua visão, por que o dark romance tem atraído cada vez mais leitores no Brasil?
MT: O dark romance relembrou a um público o prazer da leitura como entretenimento, muito além da leitura que busca intelectualidade. Muitos desses livros nos convidam a ler por lazer, mas isso não exclui a reflexão, pelo contrário: tudo o que é intelectual, dramático ou surreal que se encontra no caminho — tudo o que se aprende, identifica ou compreende — é consumido sob o mesmo deleite. É literatura adulta e contemporânea, que brinca com convenções, limites e se acrescenta ao cenário já consolidado de outros gêneros. Isso é quase mágico em um país e mundo dominados pelo alto consumo de telas, onde o tempo e a leitura se tornaram privilégios. Ainda assim, o dark romance vem e se dá acessível, abrindo espaço para novos autores e novos leitores, viabilizando o que antes parecia reservado ao ideal. Ler ou escrever é diversão, dimensão, imaginação.
E: O dark romance frequentemente provoca reações fortes, seja de encantamento ou de choque. Como você lida com a recepção crítica e com os debates que surgem em torno do gênero?
MT: Acredito que a função de um livro seja justamente provocar: causar reações, subverter ideias, gerar discussões. Críticas são partes desse diálogo, na medida da civilidade.
E: Qual mensagem ou reflexão você gostaria que permanecesse no leitor após o fim da leitura?
MT: Penso assim: você se divertiu? Sentiu emoções? Alguma crença se formou ou se quebrou? Descobriu uma nova palavra ou termo? Permitiu-se mergulhar em algo além do mundo caótico e exigente em que vivemos? Se você disser sim para algumas dessas perguntas, então sua leitura já valeu a pena — não é preciso amar ou odiar as coisas. Quanto à mensagem do livro: por um tempo, alguém até pode tentar dizer quem você é ou quem deveria ser, mas chega o momento em que só você pode decidir como as coisas realmente serão. Os extremos são prisões conceituais, bem e mal existem em diferentes porções em cada pessoa ou coisa, e cabe a nós buscar equilíbrio. E acima de tudo, o livre-arbítrio, isso sim tem um valor inestimável, mesmo que tenha seu custo.
E: Quais são seus próximos projetos literários? Há planos de continuar explorando o universo criado nesta obra?
MT: Não pretendo explorar mais o universo de Quente Como o Inferno ou de Sathanis. No momento, estou trabalhando em novos projetos que fogem do sobrenatural.
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz @analuztraduz










