Autora de Brilhante Maví, Queren Ane comenta saúde mental, pressão por perfeição, redes sociais e o impacto da literatura jovem na vida dos adolescentes
A escritora carioca Queren Ane começou a escrever, ainda na adolescência, como uma forma de aliviar o estresse pré-vestibular. Hoje, suas histórias se orientam por narrativas leves, que abordam temas como fé, emoções e a complexidade que é o período da juventude.
Brilhante Maví aborda saúde mental e a pressão por perfeição
Em maio, a autora publicou a obra infantojuvenil Brilhante Maví, que discorre sobre a saúde mental da Geração Z, as expectativas irreais das redes sociais e outros dilemas inerentes a esse período da vida. No livro, o leitor conhecerá Maví, que é considerada a “garota perfeita”. Representante da turma do nono ano, filha primorosa, uma ótima amiga e influenciadora digital.
No entanto, por trás da fachada de uma garota que consegue resolver tudo sempre, está uma menina sufocada por tantas responsabilidades. Com tantas cobranças que faz a si mesma, ela acaba em situações bem estressantes. Ainda no começo do livro, a protagonista se vê em um perrengue de aspecto gramatical. Maví é campeã das Olimpíadas de Português e está determinada a consertar um simples erro ortográfico em um mural da escola. Só que a menina cria um caos ao rasgar o pôster do diretor ao meio.
E esse perfeccionismo da personagem surge em diversos aspectos: ao lidar com as pressões familiares, nas competições estudantis e ao enfrentar um coração partido que não sabe como remendar. Agora, a jovem precisará aceitar o fato de que nem tudo pode ser consertado.
Ficção jovem e histórias que acolhem adolescentes
Queren Ane também é a mente por trás de Meu sol de primavera (2024), além de ser coautora das obras Corajosas 1 e 2 (2023-2024) e Redimidas (2025). Hoje, é autora best-seller e um dos maiores nomes da ficção cristã jovem no Brasil. Em entrevista para o Entretetizei, ela fala sobre processo criativo, relação com a leitura e o contato com leitores jovens. Confira.
Quem é Queren Ane? Conheça a autora de Brilhante Maví

Entretetizei: Como você começou a escrever?
Queren Ane: Fui uma criança muito criativa e me divertia muito com as histórias que criava na cabeça. Ainda na infância comecei a ter diários e acredito que essa prática me ajudou a amar escrever.
No final do ensino médio, eu comecei a rascunhar meu primeiro romance nas páginas de um diário como forma de escapar da pressão do pré-vestibular. Nunca finalizei aquela história, mas também nunca parei de escrever desde então. De lá pra cá, colecionei histórias inacabadas até que escrevi meu primeiro livro, hoje publicado como Meu sol de primavera.
E: O que te atraiu para a ficção voltada para o público jovem?
QA: Ah, eu sou apaixonada pelo mundo adolescente. É como viver mil vidas em um único momento de tão intenso que é. Gosto de observar adolescentes, suas conversas, dilemas, dores, risadas, as relações, a maneira como eles estão descobrindo o mundo e a si mesmos dentro dele. Fico fascinada em ver como eles mudam, crescem e amadurecem. Também acredito que a ficção pode ser uma ponte para gerar identificação, acolhimento, conforto e trazer esperança nessa fase tão vibrante, embora tão complexa e desafiadora da vida.
Como nasceu Brilhante Maví
E: Como surgiu a ideia para escrever Brilhante Mavi?
QA: A Maví não nasce de uma ideia, mas sim de várias e do desejo de contar uma história identificável para uma geração de garotas que lidam com pressões escolares, rivalidades, competições, busca pela perfeição, dificuldade de dizer não, relacionamentos tóxicos, conflitos familiares e se deparam com o coração acelerando mais do que deveria.
Decidi colocar tudo isso num dos maiores palcos da adolescência: a escola. Em parte, por ter vivido essas nuances do ambiente escolar caótico e em parte porque adoro observar as interações dos alunos em escolas do meu bairro. A escola é um lugar de muitas histórias e foi justamente ali que a história da Maví encontrou seu lugar.
Saúde mental, perfeccionismo e pressão social
E: Como você trabalhou os temas de saúde emocional e pressão por perfeição na narrativa?
QA: Muitas meninas sentem a necessidade de manter uma imagem e sustentar um padrão de perfeição para serem vistas, amadas, validadas, para pertencer. Com o tempo, isso pode acumular enorme sofrimento emocional e ansiedades.
Trabalhar esses temas na narrativa foi natural pelo fato de eu já ter enfrentado algo assim e por ver que, infelizmente, cada vez mais as meninas – e meninos – têm enfrentado questões de saúde emocional como ansiedade e depressão. Infelizmente, muitas das vezes esses sentimentos são sufocados por eles mesmos, invalidados pelos outros e encarados como apenas uma “fase”.
É triste ver que muitos jovens não são vistos e respeitados por quem são. Eles sentem, sofrem, sonham, lidam com diversas pressões diárias e precisam ser amados, acolhidos, ouvidos, redirecionados e encorajados na vida. De certa forma, escrever Brilhante Maví foi uma forma de dizer que eu os vejo, eu sei como se sentem e eu espero que descubram que não precisam caminhar sozinhos. E, mais do que isso, não precisam caminhar com tantas bagagens. A vida pode ser mais leve.
E: Como você mistura leveza e humor com temas mais profundos?
QA: Sempre adorei a comédia romântica. Desde os filmes às séries e livros que li. Além disso, me considero uma pessoa bastante divertida. Acredito que esse aspecto da minha personalidade permeou minha escrita de modo natural, sabe?
Não costumo pensar “como tornar essa cena engraçada?”, simplesmente escrevo uma cena e, quando percebo, estou aos risos com os personagens. Amo histórias cotidianas que são marcadas por alegrias e lutas reais, lágrimas em meio ao riso e riso em meio às lágrimas. Afinal, a vida é agridoce, repleta de contrastes e eu gosto de trazer essa leveza, esse humor ao falar de temas sérios.
E: O que significa para você escrever ficção cristã jovem no Brasil hoje?
QA: Há dez anos eu escrevo ficção cristã juvenil e decidi escrever para esse público justamente para, de alguma forma, abordar os desafios reais que jovens brasileiros enfrentam enquanto transmito princípios e valores cristãos.
Os jovens de hoje estão sendo bombardeados de informações, sufocados por expectativas, confusos diante de tantas referências e, muitas vezes, perdidos sobre quem são e o que esperar do futuro. Por isso, é uma alegria e grande honra escrever histórias onde posso unir os dilemas da adolescência a mensagens de fé, esperança e propósito.
Bastidores da escrita de Queren Ane
E: Como é a sua rotina de escrita?
QA: Desde que fui publicada pela Mundo Cristão, tenho mantido uma rotina matinal de escrita. Gosto de me dedicar aos meus projetos na parte do dia em que me sinto mais criativa – e também no período em que meus filhos estão na escola. Escrever ao longo dos anos deixou de ser um momento de inspiração e, sim, de transpiração. Quando sento e dou o melhor.
Às vezes, o melhor é uma linha, mas continuo tentando. A rotina de escrita me dá intencionalidade e constância no ofício. Isso me ajuda a driblar os dias difíceis, o bloqueio criativo, a síndrome do impostor e a avançar num livro em que as palavras ainda não saiam com tanta facilidade.
E: De onde vêm suas referências e inspirações?
QA: Costumo dizer que a vida é minha maior fonte de inspiração para contar histórias. Como autora de romance contemporâneo, as relações do dia a dia são muito fascinantes para mim. Realmente adoro observar as pessoas, escutar suas experiências, sentar e jogar conversa fora.
Afinal, eu cresci rodeada de histórias da vida comum e acredito que elas são tesouros valiosos. Também me inspiro muito nas narrativas bíblicas, arquétipos, mensagens e principalmente nas palavras de Jesus. Suas parábolas me encantam pelo fato de serem histórias simples, do dia a dia, mas com uma capacidade absurda de transmitir verdades profundas.
Além disso, gosto de ter contato com a cultura pop por meio de filmes, séries e músicas, além de acompanhar minhas autoras favoritas. E, claro, conversar bastante com adolescentes. Simplesmente amo!
Os jovens estão lendo mais?
E: O que mudou na sua relação com a escrita depois de ser publicada?
QA: Antes de ser publicada, eu já mantinha uma rotina semanal de escrita, além de estudos sobre escrita criativa e formas de melhorar como escritora. Mas a escrita ainda era um hobby, embora eu aspirasse a ser uma escritora profissional. Com a primeira publicação por uma editora gigante como a Mundo Cristão, eu lembro de pensar “nossa, agora é de verdade”.
Minha relação com a escrita ficou mais organizada, íntima e profissional. Passei a ter prazos definidos para entrega de manuscritos, receber orientações extremamente importantes do meu editor, compreender melhor o mercado editorial e também a observar o impacto que minhas histórias têm na vida dos leitores.
Encarei a escrita com maior intencionalidade, propósito e profissionalismo. Continuo escrevendo porque sou apaixonada por contar histórias, mas hoje também carrego uma responsabilidade maior sobre o que escrevo e o alcance que minhas histórias podem ter.
E: Como você entende o interesse do público jovem brasileiro pela leitura?
QA: A literatura jovem cresceu muito nos últimos anos. Vejo uma geração que está tomando gosto pela leitura e, aos poucos, mudando o cenário que o Brasil ainda enfrenta quando o assunto é formar leitores. Acredito que o acesso mais fácil à tecnologia, os livros digitais, as feiras literárias e, em especial, os movimentos de redes sociais têm despertado o interesse pela leitura em milhares de jovens brasileiros.
Sobretudo, sigo acreditando nesse desejo intrínseco que temos por boas histórias porque somos feitos delas. Lemos para nos entreter, nos encontrar, pertencer, viajar, sonhar, para compreender melhor a nós mesmos e o mundo ao nosso redor.
Os jovens também buscam ver a si mesmos e seus dilemas nos livros. Por isso, me alegro de ver como o público jovem tem despertado para a literatura. Isso também me motiva a continuar escrevendo para eles.
E você, já conhecia os livros de Queren Ane? Conta para a gente em nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X. E, se você gosta de trocar experiências literárias, venha participar do Clube de Leitura do Entretê para conversar sobre leituras incríveis!
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz









