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Rubel
Foto: divulgação/Bruna Sussekind

Entrevista | “Precisei me recolher”: Rubel fala sobre instinto, simplicidade e o processo de criação do seu 4º álbum de estúdio

Em entrevista ao Entretê, o cantor reflete, entre outros assuntos, sobre inspirações para o novo disco, processo de criação e trajetória de carreira até o quarto álbum

O cantor e compositor Rubel está de volta com seu quarto álbum de estúdio, Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?, um trabalho que marca um retorno à MPB de raiz, mais íntima e reflexiva. Após o elogiado As Palavras, Vol. 1 & 2 (2023), o artista reencontra o formato voz e violão, agora enriquecido por sutis arranjos orquestrais que não ofuscam a essência de suas composições.

O novo disco surge após um período intenso de turnês e também de transformações internas, incluindo uma cirurgia cardíaca e um mergulho mais profundo na espiritualidade. Os temas de finitude, fé e tempo permeiam o projeto. Isso acontece tanto nas letras quanto na sensibilidade musical.

Foto: divulgação/Bruna Sussekind

Rubel também assina a produção do álbum, gravado em casa, e se envolveu em todos os detalhes criativos. Além disso, o trabalho é acompanhado por um curta-metragem dirigido por Larissa Zaidan, que expande o universo emocional das canções para o audiovisual.

Desde que ganhou notoriedade com o álbum Pearl (2013), Rubel lançou quatro discos de estúdio, colaborou com nomes consagrados como Gal Costa e Milton Nascimento e teve composições incluídas em trilhas de novelas e campanhas publicitárias. Sua paixão pelo audiovisual também se traduziu em outros projetos: ele foi roteirista do programa Lady Night (2017) e coautor da série Tá Tudo Certo (2023), produzida pela Disney, ao lado do escritor Raphael Montes.

Em 2023, Rubel precisou interromper a turnê de As Palavras por conta de uma cirurgia no coração, após o diagnóstico de prolapso na válvula mitral; experiência que, além de marcar sua trajetória pessoal, também inspirou a atmosfera delicada e existencial deste novo álbum.

Em entrevista ao Entretê, ele compartilhou um pouco sobre as inquietações que moveram esse processo criativo, as referências que o inspiram, as transformações internas e como amadureceu sua relação com a música, com a arte e consigo mesmo: 

 

Entretetizei: Em Grão de Areia, você canta: “O teu silêncio, a tua voz não cala, barulha o tempo todo aqui”. Desde As Palavras Vol. 1 & 2 (2023), houve um intervalo nos lançamentos, mas esse silêncio também “barulhou” em quem te acompanha. Como foi esse período criativo entre um disco e outro? Que ruídos internos te moveram até Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?

Rubel: Esse período entre os discos foi um período de turnê, em que eu tava levando As Palavras ao palco, com uma banda de 15 pessoas. Foi um movimento muito intenso de shows grandes e “para fora”, era um show de muitos arranjos, com uma banda enorme. E foi um período em que eu senti vontade de retomar a estética da voz e violão, de me permitir fazer novamente um disco quase “pelado”, com poucos elementos, acreditando no poder da canção e da minha voz. Na força que tem esse tipo de som íntimo. Foi quase um contraponto ao que eu vivi nas Palavras. Eu gosto muito desse movimento de ir pra fora e voltar pra dentro, e assim repetidamente. Porque te coloca em movimento, você tá o tempo todo sendo desafiado e transformado. 

E: Em que momento você percebe, dentro de si, que uma nova era está começando? Isso acontece no silêncio, numa palavra, numa melodia?

R: Ótima pergunta. Acho que tem duas coisas. Tem uma chave interna, de sentir que eu tô girando alguma chave. Isso tem a ver com ficar obcecado com um novo gênero, ou tem a ver com o ciclo de pessoas que eu ando, ou com uma fase do namoro que eu to vivendo – acho que a era é atravessada por tudo isso, nosso gosto, nossas vivências. E tem um aspecto que é a própria música falando. De repente eu começo a compor umas canções e percebo, epa, tem uma cara nova aqui se apresentando, e ela aponta para esse lugar. O que é bonito é que é tudo junto. A vida, as referências, a música que sai. Realmente são eras – na vida e na arte – que caminham juntas. 

Foto: divulgação/Henrique Barreto

E: Seu novo álbum é atravessado por espiritualidade, finitude e reflexões sobre o tempo. Como esses temas surgiram no seu cotidiano durante o processo de criação? Foi algo mais solitário ou você dividiu essas inquietações com outras pessoas?

R: Eu costumo guardar essas meditações metafísicas para mim para não incomodar meus amigos com os mistérios do planeta, hehe. Às vezes nem para meu analista eu falo. Existe um tipo de reflexão e um tipo de diálogo com a fé que é muito precioso, e tem que ser muito protegido. No momento que você joga para o mundo, e verbaliza, aquilo pode perder a força ou virar algo diferente pela limitação da linguagem. Então muito do que aconteceu relativo a esses temas foi vivido aqui dentro, e bem guardado, até virar música. Mas teve um aspecto concreto que foi meu aprofundamento no candomblé, minha religião. No início do ano, no meio do processo do disco, eu precisei me recolher no terreiro para um processo de imersão que foi absolutamente transformador na minha relação com a fé e a vida. 

E: O ato de nomear as coisas pode causar revoluções internas. Natália Souza, escritora e poeta brasileira, já disse que é “como acender uma luz em um quarto escuro”. Você passou por uma cirurgia no coração recentemente; de que forma essa experiência mexeu com a sua forma de sentir, compor e, principalmente, dar nome às coisas nas suas músicas?

R: O enunciado dessa pergunta é, na verdade, o coração do meu disco anterior, As Palavras. Ele era em grande medida uma reflexão sobre o poder que as palavras têm de codificar o mundo, mas, acima de tudo, transformá-lo. No momento que você nomeia a sensação, você consegue domá-la. A palavra não é algo abstrato. É uma ferramenta do mundo real, talvez uma das mais poderosas. Mas, enfim, a cirurgia mudou radicalmente minha forma de sentir, mas pela via oposta. Não das palavras, mas da sensação. Sentir seu coração sendo mexido, sentir a cicatrização, sentir o processo todo de uma cirurgia mexe em lugares que estão para muito além da palavra. É uma mudança física, do corpo, da nossa parte bicho, do nosso instinto de sobrevivência. Você desliga um pouco a cabeça que se preocupa e liga um bicho que só quer viver – esse aspecto é lindo. 

E: Você retorna ao formato voz e violão, mas agora cercado por orquestras de cordas e sopros. Como foi encontrar o equilíbrio entre o íntimo e o grandioso nesse novo trabalho?

R: O grandioso estava a serviço do íntimo. Esse era o critério que guiava. O violão era protagonista e a orquestra coadjuvante, a serviço dele. Eu amo discos que tem orquestras quase invisíveis, que você sente, mas não necessariamente percebe a presença o tempo todo. Então o trabalho com o Henrique Albino, arranjador, foi muito nessa direção, de achar um ponto exato em que a orquestra fazia a canção crescer sem roubar a cena. 

E: O projeto audiovisual que acompanha o álbum, dirigido por Larissa Zaidan, traz personagens solitários e uma estética melancólica. O que veio primeiro: as imagens ou as músicas? Como foi criar essas duas linguagens em paralelo?

R: Primeiro vieram as músicas, depois o filme. Ele é inteiramente uma criação da Lari. Ela pensou o roteiro, o universo estético, ela dirigiu. É uma interpretação visual muito pessoal do que as músicas despertaram nela. Eu fui mais produtor/expectador/incentivador daquilo. Acho o resultado fascinante, de uma sensibilidade absurda. E, no fim, era bem assim que eu imaginava o som. Melancólico, mas realista e vivo. 

E: A canção Ouro é uma das minhas favoritas do novo álbum. Seu trabalho reflete uma maturidade artística que conversa com grandes nomes da música brasileira, além de trazer influências literárias muito fortes nas letras. Como essas referências, tanto musicais quanto literárias, influenciaram seu processo de criação e ajudaram a dar vida às histórias e atmosferas das suas músicas, especialmente em Ouro?

R: Essa música Ouro é totalmente autobiográfica, sobre minha relação com uma grande amiga. Então a letra toda são pequenas “cenas” de histórias que a gente viveu juntos, ou que marcaram a vida dela, ou invenções do que ela poderia ter vivido. Não sei exatamente que influências foram essas, porque o processo era muito intuitivo e a principal influência era ela mesmo, o jeito dela viver. Mas as coisas que eu amo acabam aparecendo, né. Eu vejo alguma coisa do Jorge Ben nessa música, de uma escrita meio despreocupada, que é generosa com a primeira coisa que vem à cabeça, algumas frases que parecem não caber exatamente na métrica, mas acabam cabendo. Alguns trechos quase falados. A harmonia para mim tem um diálogo da bossa nova com a soul music. Ela passeia por tudo isso. 

E: Você produziu o álbum em casa e tocou vários instrumentos. Como foi essa experiência mais artesanal e íntima na produção? O que isso transformou na sua relação com a música?

R: Foi maravilhoso poder dar vazão a todas as ideias que eu tinha, sem filtros. Foi um processo importante para ganhar a segurança de que eu posso me aventurar na produção e ter domínio técnico do som para chegar exatamente no resultado que eu imagino. Às vezes é bem-vindo ter outras pessoas que vão trazer outros ingredientes e ajudar com elementos inesperados. Mas, para um disco como esse, era fundamental chegar exatamente na textura, na sensação que eu queria. Dominar a produção é uma forma de garantir que o som vai ter essa cara autoral do início ao fim – da criação da canção até a mix final. Isso passa, as pessoas sentem. 

E: Você já citou a Billie Eilish como alguém que te inspira pela forma de criar, pela liberdade, pela estética ousada e pela entrega pessoal. Mesmo num álbum mais íntimo, você também faz escolhas muito marcantes, como o filme que acompanha as faixas. Em que medida esse tipo de referência te influenciou na concepção desse trabalho?

R: Acho que esse tipo de artista como a Billie me norteou a simplesmente acreditar nas minhas ideias. Sem concessão alguma. Fazer o som que eu sentia e queria escutar, sem me preocupar tanto se isso seria comercial ou vendável, esquisito ou popular. Artistas que conseguem ser autorais e muito verdadeiros e ainda assim dialogar com um público grande me dão uma esperança na arte, na indústria, no público. A Billie é minha rainha, o Tyler meu reizinho, vou fazer o que?

 

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Texto revisado por Alexia Friedmann

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