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Foto: divulgação/Vanessa Reis

Entrevista | Vanessa Reis fala sobre suas inspirações e referências reais na escrita de seu novo livro

Escritora comenta seu processo criativo e seu amor pelo futebol

Desde nova, Vanessa Reis já possuía talento para a escrita, percebido até mesmo por seus professores da escola. Seu primeiro livro, Interseção (2024), chamou atenção do público pela representatividade, relatada de forma sutil, de sua protagonista. Agora, em retorno a um novo romance, a autora aproveitou o clima do ano de Copa do Mundo para unir duas paixões que carrega consigo: livros e esporte. 

Nascida em Jacobina, interior da Bahia, no final dos anos 80, Vanessa esbanja criatividade ao usar situações cotidianas que ocorreram em sua vida como inspiração para acontecimentos em suas obras. Formada em serviço social, a escritora também trabalha como servidora pública, e afirma gostar de ocupar seu tempo na internet “surtando com casais fictícios”. 

Foto: divulgação/Verus Editora

Em entrevista ao Entretetizei, ela compartilha um pouco sobre sua infância e o processo de escrita da sua nova obra, Camisa Onze (2026). Confira: 

Entretetizei: Camisa Onze é o seu segundo livro lançado. O que te levou a ser escritora?

Vanessa Reis: Eu sempre escrevi, acho que essa é a verdade. Sou filha de professora, e eu sempre gostei muito de ler e tive muita facilidade para a escrita. A minha antiga escola sempre incentivou muito nessa questão, qualquer apresentação cultural que tinha, a professora de literatura chegava e falava “a Vanessa vai fazer o texto”, “Vanessa vai criar a história”, então todo ano tinha uma exposição cultural e eu fazia algo relacionado.

Cresci ouvindo minha professora dizer que quando eu crescesse ela leria livros meus, e eu sempre dizia que era bobagem. Mas aí no lançamento do meu livro, Interseção, ela estava na primeira fileira, então ela foi para esfregar na minha cara. Então, eu acho que sempre foi muito natural esse caminho de escrever, mas também a partir do momento que me entendi como pessoa com deficiência, porque a minha deficiência é congênita, mas ela só foi dando os primeiros sinais depois de mais velha, eu precisava escrever. Era uma forma de acessar outros lugares enquanto minha cabeça estava se organizando. 

E: Você já relatou em suas redes sociais e em seu próprio perfil como autora que, além de escritora, também é uma leitora voraz e fã de futebol. Imagino que você tenha um time do coração. Qual é e de onde veio a paixão por esse time?

V: Eu sou torcedora do São Paulo desde 1998, foi o São Paulo que me escolheu. Mas é uma história engraçada, de meninas doidas apaixonadas por romance, porque quando eu estava na quarta série eu tive crush em um menino da minha turma e ele era são paulino. Ele tinha até uma mochila com o escudo do São Paulo, e ali eu pensei “preciso de assunto para falar com esse querido”. 

Eu assistia futebol por causa do meu avô, ele era minha babá, então cresci em mesa de barzinho, em oficina e assistindo futebol e esportes no geral. Ele torcia para todos os times, menos para o Vasco, então eu poderia torcer para qualquer um, menos esse. Mas então por conta desse menino que eu gostava, passei a prestar mais atenção nos jogos do São Paulo, para puxar assunto com ele no dia seguinte. Só que no decorrer do ano, eu já não tinha mais crush no menino, mas continuei assistindo aos jogos do São Paulo, por isso digo que o São Paulo me escolheu. 

E: O que te deu inspiração para o seu novo livro, Camisa Onze?

V: Então, eu sempre quis fazer um romance com sobre esportes, com o plano de fundo do futebol, mas nunca parei para fazer. Tenho um grupo de amigos, somos três, eu, a Rebeca e o Pedro, e a gente comenta sobre qualquer coisa. Aí o Pedro veio com uma seguinte informação: “Vocês se lembram de uma reportagem antigaça do Fantástico que um pai batizou a filha com o nome de Romário?”

Um tempinho depois, isso ficou na minha cabeça, e eu comecei a escrever algumas coisas que surgiam, que foram esses primeiros capítulos. Então voltei no grupo e disse: “Gente, vocês se lembram daquela conversa que a gente teve? Então, acho que tá nascendo uma história”.

E: Em Camisa Onze, a história é ambientada na Bahia, que também é a sua terra natal. Poderia dizer que você se baseou nas lembranças de sua infância para criar a descrição dos costumes familiares da Ana Romário, sua nova protagonista?

V: Sim! É algo que eu gosto bastante de ter nas minhas histórias. É o meu sotaque, são as particularidades de onde eu vim, de onde moro, a nossa forma de falar, de ver o mundo, porque isso é quem eu sou, sabe? Eu amo ser baiana, amo estar neste lugar. Eu amo ouvir as palavras que a gente só escuta aqui e comer as coisas que às vezes as outras pessoas não conhecem.

Então, as famílias do Bebeto e da Romário nasceram e foram criadas numa cidade fictícia, mas que é inspirada na minha cidade. Então, quem é daqui, quando lê, consegue perceber os lugarzinhos, com um nome um pouquinho diferente, mas consegue perceber. 

E: Em seu primeiro livro lançado, Interseção, Catarina, a protagonista, foi uma personagem com representatividade. Pode dizer se em Camisa Onze também veremos algum personagem com representatividade? 

V: Eu parto desse princípio de que as minhas protagonistas sempre vão representar alguém que está à margem da corponormatividade, que é aquele padrão. Então, Ana Romário é uma mulher negra. Não tinha como não fazer uma mulher negra, a gente está falando da Bahia. 

A mãe do Bebeto é uma mulher com deficiência, um leitor atento vai perceber o tipo de deficiência que ela possui. Tem capítulo que ela usa uma órtese, tem um capítulo que ela arrasta mais a perna, porque eu gosto de escrever de uma forma que as minhas personagens não sejam reconhecidas por uma característica. O técnico do time da Ana Romário, ele é um homem gay, e eu me lembro que durante a revisão, pontuaram o seguinte: “Ah, mas por que você não falou do marido do técnico antes?” Mas eu vou falar isso onde antes? Tem que ser natural. Não queria que fosse nada forçado, jogado. 

E: Sua personagem, Ana Romário, é uma jogadora de futebol. Qual você acredita ser a importância de colocar uma representação feminina em uma profissão muito mais valorizada na área masculina? 

V: É triste, né, a gente pensar que é chamado de país do futebol e não tem essa inclusão. Então, a minha primeira quebra de expectativa vem disso, os capítulos da Ana Romário jogando é casa cheia, é como a gente trata o futebol masculino. Eu acho que é tentar colocar nesse cenário tudo que a gente poderia ter se passasse a olhar com menos julgamento. 

Sim, é diferente, são mulheres jogando, mas o esporte é o mesmo, e algumas jogam muito melhor do que muitos homens do time que defendem a unhas e dentes. Então, tento trabalhar com essa quebra de expectativa do que eu gostaria realmente de ver. Estádio cheio, de ver o mesmo tipo de comentário, o mesmo tipo de reconhecimento para essas atletas, que se dedicam da mesma forma.

E: Em seu processo criativo, quais são suas etapas e suas maiores dificuldades? Teve alguma dificuldade específica que você passou para escrever Camisa Onze?

V: A minha maior dificuldade sempre é achar que tudo está horrível. Então, eu não posso reler. Porque se eu reler, vou apagar. E aí sempre tenho que lembrar que eu não posso consertar o que não existe. Eu coloco os meus objetivos mentais e as metas, então, crio regras para mim. Todos os dias durante uma hora, eu parava para escrever Camisa Onze. Eu tinha que escrever 250 palavras por dia, era a minha meta. 

Em Camisa Onze, tive que pegar várias informações de acordo com os anos em que vão passando. Eu preciso pensar nessa tabela de jogos, como vou distribuir a tabela de jogos do Campeonato Brasileiro pelos capítulos, como é a troca de carro, porque ninguém fica com o mesmo carro o tempo inteiro. 

E: Em seus livros, o gênero romance é o principal. Você pensa em escrever algum livro voltado para outro gênero? 

V: É engraçado, porque eu nunca tentei fazer outras coisas. Porém, no ano passado, fiz o roteiro de um jogo para videogame de fantasia. E eu gostei muito, achei muito legal, porque não tem limites, tudo é válido. Dava para criar muita coisa, mas eu nunca explorei de sentar e fazer algo nesse sentido, não.

E: Já tem algum outro projeto em mente para um próximo livro?

V: Então, eu acho que sim, mas não sei ainda porque eu só tenho um capítulo. Sou servidora pública, e foi algo que aconteceu, que é inspiração para minha história. Em frente a sala em que eu trabalhava, ficava uma sala de concessão de carteira para a pessoa idosa poder viajar para outros estados, já que eu trabalho na assistência. E aí, eu estava sentada na minha mesa, que fica paralela à porta. E uma senhora, muito bonita, entrou lá na sala, sentou do meu lado, e só me chamava de Clara. Tinha uma outra senhora na porta chorando, e eu não estava entendendo. Depois, essa senhora que estava chorando, voltou para falar comigo. Ela me disse que a mulher que tinha conversado comigo era a mãe dela, que tem Alzheimer. E ela falou que havia anos que não escutava a risada da mãe. 

E então me contou também que Clara era o nome da melhor amiga da mãe dela, de quando ela era jovem, e são algumas memórias que a mãe dela não conseguiu esquecer, com essa Clara. Então, a gente acredita que a Clara fosse parecida comigo, porque a mulher olhou para mim, me chamou de Clara e grudou em mim. Ela só falava nisso. Isso ficou na minha cabeça desde sempre, e eu fiquei com um desejo de escrever sobre uma amizade bem forte entre duas mulheres. Temos nome? Não. Mas aí a gente já pensa no romance.

 

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Texto revisado por Kalylle Isse

 

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