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roupas tradicionais asiáticas
Foto: reprodução/newhanfu

Especial | Do kimono ao saree: as roupas tradicionais asiáticas que não saem de moda

Cada uma com suas cores, tecidos e histórias, essas vestimentas tradicionais mostram que a Ásia nunca deixou de ser referência em identidade, resistência e muito estilo

Quando a gente fala de roupa tradicional, é fácil imaginar algo engessado, guardado no armário só para eventos muito específicos ou coisa de museu. Mas, na Ásia, as roupas típicas de muitos países não só sobreviveram ao tempo como ganharam novas formas de existir, seja nas ruas, nos palcos, nas novelas ou até nas coleções de moda contemporânea.

O que antes era símbolo de status ou espiritualidade hoje também vira look de ensaio fotográfico, editorial fashion e figurino de videoclipe. E não se trata só de estética: por trás de cada bordado, de cada manga larga ou amarração elaborada, existe uma história que atravessa gerações e carrega camadas de cultura, memória e pertencimento

Neste especial, o Entretê vai te apresentar os trajes tradicionais mais marcantes da Ásia, não só para explicar o que são e de onde vêm, mas também para mostrar como eles continuam vivos, se reinventando e ditando tendência até hoje:

Kimono: o traje japonês com séculos de história, milhares de estilos e que segue sendo presença constante na cultura pop e nos guarda-roupas japoneses

O kimono é provavelmente o traje asiático mais reconhecido fora da Ásia, mas a forma como ele é compreendido fora do Japão costuma ser bem simplificada perto da complexidade real que a peça carrega. Ele surgiu como vestimenta cotidiana da aristocracia japonesa durante o período Heian (794–1185), quando começou a ser usado com múltiplas camadas, e cada uma delas tinha uma função, tanto prática quanto simbólica. 

Ao longo dos séculos, o kimono foi evoluindo conforme as mudanças políticas e sociais do país. Durante o período Edo (1603–1868), ganhou uma linguagem mais codificada: o tecido, as cores e os padrões passaram a indicar o gênero, a classe social, a idade e até a estação do ano. O mais curioso é que a estrutura básica da peça quase não mudou desde então, retangular, com costuras simples, mangas amplas e uma forma de vestir que depende de dobras e amarrações, e não de costura modelada no corpo.

O que muita gente não percebe é que o kimono também foi uma ferramenta visual para expressar resistência, individualidade e até subversão. Durante o período Meiji, por exemplo, quando o Japão começou a se ocidentalizar rapidamente, o kimono passou a ser visto como um símbolo de atraso e foi deixado de lado pelas elites, que adotaram ternos e vestidos europeus. Mesmo assim, ele resistiu entre as mulheres, nas famílias tradicionais e em eventos religiosos. 

Foto: reprodução/BBC

A partir do século XX, passou a ser ressignificado não só como herança cultural, mas como arte portátil. A forma como os kimonos são tingidos, pintados e bordados é levada extremamente a sério e, em muitos casos, envolve técnicas milenares, como o shibori, que é uma espécie de tie-dye artesanal, e o yuzen, uma pintura manual com pincel direto no tecido.

Hoje em dia, o kimono deixou de ser roupa do dia a dia, para se tornar uma peça usada em cerimônias específicas, como casamentos, formaturas, o ano-novo e a cerimônia do chá. Existem diferentes tipos, como o furisode (com mangas longas, usado por mulheres solteiras), o tomesode (mais formal, para mulheres casadas) e o montsuki (kimono preto formal masculino). Além disso, há toda uma indústria de aluguel e personalização de kimonos, especialmente em cidades como Kyoto, em que turistas podem escolher estampas, tecidos e acessórios para usar durante o dia.

Nos últimos anos, com a onda do vintage e da releitura de tradições na moda, o kimono voltou a ganhar destaque entre jovens japoneses que querem se vestir de forma mais pessoal e conectada com a cultura local. Muitos combinam kimonos antigos com tênis, piercings, acessórios modernos e até bolsas ocidentais. Essa estética, conhecida como kimono kei, mistura o antigo com o contemporâneo sem medo de errar. 

Também há marcas que criam versões simplificadas ou com cortes inspirados em kimono para facilitar o uso no cotidiano. Ou seja: a peça deixou de ser uma cápsula do tempo e passou a ser um símbolo de identidade estilizada, viva e adaptável.

E não dá para esquecer o impacto visual do kimono fora do Japão. Da alta-costura europeia aos figurinos de Hollywood, ele influenciou coleções inteiras e segue sendo referência estética constante. Designers como Yohji Yamamoto, Issey Miyake e Rei Kawakubo usaram o kimono como base para desconstruir a silhueta ocidental na moda. Ao mesmo tempo, artistas pop como Madonna, Gwen Stefani, e várias idols de K-pop já vestiram versões estilizadas do kimono, o que levanta discussões sobre apropriação cultural. Ainda assim, dentro do Japão, a peça continua sendo ressignificada por quem entende o peso dela, não como figurino exótico, mas como forma de ocupar o presente com a história no corpo.

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A leitura errada mais comum sobre o kimono é a de que ele é uma peça exclusivamente feminina ou romântica, mas a verdade é que o kimono é multifacetado e sempre esteve associado a poder, espiritualidade, luto, sexualidade e arte. Ele pode ser extremamente rígido em seus códigos formais, mas também permite uma liberdade visual enorme. Vestir um kimono exige técnica, mas também carrega uma emoção difícil de explicar, e talvez seja justamente essa tensão entre tradição e individualidade que faz com que ele nunca pareça ultrapassado.

Hanfu: a vestimenta ancestral da China imperial que virou símbolo de orgulho cultural entre os jovens chineses

O hanfu é o traje tradicional da etnia Han, que representa a maior parte da população chinesa, e tem registros históricos que remontam há mais de três mil anos. Ao contrário do que muita gente imagina, ele não é uma peça única com corte fixo, mas sim um conjunto de estilos de roupa que evoluíram ao longo de várias dinastias, desde a Zhou até a Ming. A estrutura básica do hanfu envolve túnicas amplas, mangas largas e uma modelagem que não marca o corpo, com sobreposições sutis e uso de faixas para ajustar as peças. O traje também era dividido por gênero e classe social, e cada dinastia deixava sua marca na silhueta, nas cores, nos bordados e na forma de usar. Durante muito tempo, ele foi usado tanto por homens quanto por mulheres em todas as esferas da sociedade, da corte imperial até os trabalhadores rurais.

Com a chegada da dinastia Qing no século XVII, o hanfu foi praticamente banido do uso cotidiano, já que os governantes manchus impuseram seu próprio estilo de vestimenta  – o qipao para as mulheres e o changshan para os homens — como uma forma de consolidar poder político e diferenciar visualmente as etnias. Esse apagamento do hanfu como traje nacional durou séculos, e o que restou dele foi preservado em pinturas, esculturas, textos históricos e trajes usados por atores de ópera tradicional. Durante o século XX, com as guerras e a Revolução Cultural, até mesmo as roupas tradicionais foram vistas como símbolo do velho regime e, por isso, ficaram ainda mais marginalizadas.

Mas a partir dos anos 2000, um movimento independente de jovens chineses começou a resgatar o hanfu como símbolo de identidade e orgulho nacional. Esse fenômeno, chamado de Hanfu Revival, não partiu do governo nem de instituições oficiais, mas da internet, especialmente de fóruns e redes sociais onde fãs da cultura tradicional começaram a pesquisar, costurar e usar as roupas por conta própria. A partir daí, surgiram marcas especializadas, lojas de aluguel, ensaios fotográficos e eventos culturais inteiros dedicados ao hanfu. O uso das roupas deixou de ser apenas cerimonial e começou a invadir as ruas, os parques, os metrôs, as cafeterias e as universidades. Hoje, é comum ver jovens em cidades como Chengdu, Hangzhou e Xi’an usando hanfu com tênis, mochilas modernas e smartphones na mão.

Foto: reprodução/Vogue

Uma das características mais marcantes do hanfu é o fato de que ele não tem costura modelada como nas roupas ocidentais. Ele é composto por retângulos de tecido que se dobram e se sobrepõem ao redor do corpo, criando formas que acompanham o movimento e nunca apertam ou marcam a silhueta. Isso faz com que o traje tenha uma fluidez visual muito forte, especialmente quando usado ao ar livre, com tecidos leves como seda, gaze ou algodão fino. Os padrões bordados normalmente têm significado simbólico: flores, nuvens, dragões, garças e montanhas aparecem com frequência, cada um representando conceitos ligados à longevidade, sabedoria, nobreza ou espiritualidade.

O hanfu também serve como porta de entrada pra redescobrir outras camadas da cultura chinesa tradicional, como a caligrafia, a poesia clássica, a música de cítara, o chá cerimonial e a etiqueta antiga. Muitos dos jovens que começaram a usar hanfu por estética acabaram mergulhando em estilos de vida inteiros baseados na história antiga. Isso fez com que deixasse de ser apenas roupa e passasse a ser identidade visual de toda uma subcultura que resiste ao apagamento do passado e quer reconstruir uma conexão com o que foi interrompido. Mesmo em meio à modernidade acelerada da China de hoje, ele virou uma maneira silenciosa de reafirmar valores e narrativas que foram descartadas por muito tempo.

Apesar disso, o uso do hanfu ainda levanta debates acalorados dentro da própria China. Tem quem ache que o movimento é nacionalista demais, ou que exclui outras etnias e estilos. Outros defendem que ele é um símbolo legítimo de resistência cultural e que ajuda a reequilibrar a balança após séculos de imposições. No meio disso tudo, estilistas começaram a criar versões híbridas entre hanfu e streetwear, criando uma estética própria que já apareceu em capas de revistas, programas de TV e até desfiles de moda internacionais. Seja como peça histórica, moda cotidiana ou símbolo político, o hanfu deixou de ser um traje antigo e virou uma linguagem viva.

Foto: reprodução/amino
Hanbok: o traje tradicional coreano que reflete elegância, resistência e ainda é usado de forma orgulhosa por coreanos em datas comemorativas e na cultura pop

O hanbok é o traje tradicional da Coreia e sua estrutura como conhecemos hoje foi consolidada durante a dinastia Joseon (1392–1897), embora já houvesse registros de formas similares desde o período dos Três Reinos, que começa por volta do século I. Ele é composto por peças separadas que criam uma silhueta muito característica: no caso das mulheres, a chima (saia longa e ampla) é combinada com um jeogori (casaco curto com fechamento em fita), enquanto os homens usam o baji (calça larga e confortável) com o mesmo tipo de casaco. A modelagem ampla, que não marca as formas do corpo, tem um fundo filosófico ligado à harmonia e ao conforto, um reflexo direto dos princípios do confucionismo que moldaram a sociedade coreana por séculos.

O hanbok sempre foi pensado pra permitir movimento, leveza e uma visualidade fluida, e isso faz com que ele seja reconhecido de longe.

Foto: reprodução/korea herold

Durante os séculos de dominação chinesa e, depois, da ocupação japonesa no início do século XX, o hanbok se tornou um símbolo de resistência cultural. Os coreanos continuaram usando suas roupas tradicionais no cotidiano até meados dos anos 1960, quando a modernização acelerada do país começou a tornar o traje menos prático frente ao vestuário ocidental. Mesmo assim, ele nunca deixou de ser usado em momentos importantes da vida, como casamentos, aniversários, cerimônias públicas e feriados nacionais como o Chuseok e o Seollal. Nessas datas, é comum ver famílias inteiras vestindo hanbok com cores vivas e tecidos brilhantes, especialmente as crianças, que costumam ser as mais fotografadas. Existe também o costume de vestir um bebê com hanbok em seu primeiro aniversário, uma cerimônia chamada doljanchi, onde cada item do traje tem um significado de proteção e bons desejos para o futuro da criança.

Foto: reprodução/best of korea

O hanbok também tem diferentes versões dependendo da ocasião, da classe social e até da estação do ano. Na corte real, os trajes eram muito mais elaborados, com tecidos bordados a ouro, cores restritas (como o vermelho escarlate para rainhas) e acessórios como coroas, joias de jade e penteados complexos. O hanbok do povo comum era mais simples, feito com algodão ou cânhamo, mas ainda assim respeitava as proporções tradicionais. Além disso, há variações regionais que modificam o comprimento do jeogori ou o tipo de amarração da fita, além de diferentes nomes e usos para acessórios como a norigae (pingente decorativo) e os sapatos de seda bordados. As cores também têm significados específicos: o branco representa pureza e humildade, o azul está ligado à esperança, o vermelho à paixão e o preto à sabedoria.

Com a popularização do K-pop, dos doramas e da cultura coreana no mundo inteiro, o hanbok passou a aparecer com cada vez mais frequência em videoclipes, ensaios fotográficos, dramas de época e até premiações internacionais. Grupos como BTS, BLACKPINK, ATEEZ e LE SSERAFIM já usaram versões modernizadas do hanbok em performances e clipes, ajudando a popularizar o traje entre fãs estrangeiros e a criar uma estética visual que mistura o tradicional com o futurista. Esses modelos adaptados mantêm as formas originais do hanbok, mas são feitos com materiais translúcidos, cortes assimétricos, cores inusitadas ou aplicações metálicas. É uma forma de manter a essência da cultura enquanto se dialoga com a linguagem global da moda pop.

Foto: reprodução/weverse

Hoje em dia, existe toda uma indústria de hanboks modernos na Coreia do Sul. Algumas marcas produzem trajes para o dia a dia com tecidos leves e cortes simplificados, que podem ser usados no escritório ou em compromissos casuais. Já outras apostam em hanboks de luxo para casamentos ou editoriais. Em cidades como Seul, é comum encontrar lojas de aluguel de hanbok perto de palácios históricos como o Gyeongbokgung, onde tanto turistas quanto locais se vestem com trajes tradicionais para passear e tirar fotos. O uso do hanbok nessas experiências urbanas acabou se tornando uma parte importante da identidade visual da Coreia, com direito a hashtags, desafios no TikTok e até concursos de look tradicional.

O mais interessante é que o hanbok, ao contrário de outros trajes tradicionais que às vezes são vistos como trajes de fantasia histórica, segue sendo tratado na Coreia como uma peça funcional, com peso emocional real. Há um carinho coletivo pela roupa, e isso se reflete no cuidado com que ela é vestida, guardada e passada entre gerações. Mesmo com a pressão da globalização e o avanço da moda ocidental, o hanbok não virou peça de museu. Ele continua sendo parte da vida cotidiana em diversos contextos, e sua presença constante no imaginário coreano ajuda a reforçar uma sensação de continuidade cultural em um país que passou por transformações intensas em muito pouco tempo.

Ao Dài: o vestido tradicional vietnamita que atravessou guerras, revoluções e virou símbolo nacional de elegância e resistência feminina

O Ao Dài é o traje tradicional mais emblemático do Vietnã e, ao contrário de outras roupas típicas asiáticas com formas amplas ou retas, ele aposta na valorização da silhueta com um corte justo e ao mesmo tempo fluido. A peça combina um vestido longo com fendas laterais profundas, usado por cima de calças ajustadas ao corpo. O resultado é uma imagem de leveza e sofisticação que virou sinônimo de feminilidade vietnamita. Embora suas origens estejam nos trajes usados pela aristocracia durante as dinastias Nguyen, especialmente no século XVIII, a forma atual do Ao Dài foi consolidada apenas nos anos 1930, quando influências ocidentais começaram a se infiltrar na moda local. A versão moderna, com corte acinturado e colarinho fechado, foi criada por designers vietnamitas como uma tentativa de unir tradição e modernidade, e acabou virando o modelo oficial usado até hoje.

Durante os períodos coloniais e de guerra, o Ao Dài passou a carregar uma carga simbólica ainda mais forte. Nas décadas de 1940 e 1950, o traje virou uma espécie de uniforme de mulheres intelectuais, estudantes e ativistas ligadas aos movimentos de independência. Já durante a Guerra do Vietnã, ele era usado tanto como símbolo nacionalista no Vietnã do Norte quanto como uma peça de resistência silenciosa no Vietnã do Sul. Mesmo diante da violência, do caos e da pressão ocidental para padronização, o Ao Dài resistiu como um lembrete da identidade vietnamita. Após a reunificação do país, passou por uma leve queda de popularidade, sendo considerado conservador por parte da juventude. Mas a partir dos anos 1990, com a reabertura econômica, o Ao Dài voltou com força, tanto no Vietnã quanto entre a diáspora vietnamita ao redor do mundo.

Foto: reprodução/asiatica travel

Hoje, o Ao Dài é mais do que uma roupa de festa: ele é um item obrigatório em diversos contextos formais e educacionais. Em muitas escolas vietnamitas, especialmente no ensino médio, as alunas usam uniformes baseados no Ao Dài branco, que representa pureza e juventude. Mulheres que trabalham em companhias aéreas, bancos e eventos do governo também usam versões coloridas e customizadas como uniforme corporativo. Nos casamentos, o traje ganha bordados elaborados, tecidos em seda pura, cores simbólicas como vermelho e dourado, e acessórios como coroas ou véus de renda. Também é comum que a noiva e o noivo usem versões coordenadas do Ao Dài no ensaio fotográfico pré-casamento, reforçando o status da roupa como peça-chave nos rituais de passagem.

Apesar de ser um traje altamente tradicional, o Ao Dài tem uma versatilidade enorme. Designers contemporâneos têm criado versões com tecidos mais leves, mangas transparentes, cortes assimétricos e até fendas mais ousadas, sem abrir mão do formato clássico que o define. Alguns modelos trocam o colarinho fechado por decotes mais baixos, outros apostam em estampas modernas, florais estilizados ou cores fora do tradicional. Em desfiles internacionais, o Ao Dài já apareceu reinterpretado como peça de alta-costura, e há estilistas vietnamitas que trabalham exclusivamente com ele, criando roupas sob medida que misturam referências antigas com desejo contemporâneo. A peça também aparece com frequência em concursos de beleza, apresentações culturais e editoriais de moda.

Foto: reprodução/asiatica today

Um dos fatores que fazem o Ao Dài continuar tão presente no imaginário coletivo é a maneira como equilibra beleza e praticidade. Ao contrário de muitos trajes cerimoniais, não é pesado, nem cheio de camadas complicadas. Ele é ajustado ao corpo, mas confortável de usar, e essa combinação permite que transite com facilidade entre o tradicional e o cotidiano. Para muitas vietnamitas, usar um Ao Dài não é só uma escolha estética, mas um gesto de conexão com suas raízes e com um ideal de elegância que resiste à passagem do tempo. Em tempos de globalização e fast fashion, continua sendo um exemplo de moda com contexto, com alma e com uma ligação direta à história de um país que nunca deixou de lutar por sua identidade.

Além disso, o Ao Dài é uma peça com protagonismo feminino, o que o diferencia de muitos outros trajes tradicionais asiáticos marcados por estruturas masculinas ou por contextos religiosos. Ele celebra o corpo da mulher vietnamita sem objetificá-lo, valorizando curvas de forma suave e sofisticada. Mulheres da política, da televisão, do jornalismo e das artes continuam usando Ao Dài em ocasiões importantes, ajudando a manter a peça como símbolo nacional ativo, e não apenas decorativo. Sua imagem continua sendo uma das mais poderosas da cultura visual do Vietnã, e provavelmente vai continuar sendo por muitas décadas.

Chut Thai: o traje tradicional da Tailândia que carrega a identidade do país em cada dobra, seda e acessório

O Chut Thai, que literalmente significa traje tailandês, é um conjunto de vestimentas tradicionais usadas na Tailândia tanto por homens quanto por mulheres, e sua história acompanha diretamente as mudanças políticas, religiosas e estéticas que o país atravessou nos últimos séculos. Ao contrário de um modelo único, o Chut Thai é um guarda-chuva de variações que mudam conforme a região, a classe social, o gênero e o evento. Mas o modelo mais icônico e difundido atualmente é o feminino, composto por uma saia longa chamada pha nung ou sinh, uma blusa ajustada ao corpo, geralmente de manga curta ou sem mangas, e uma faixa ou xale de seda que é colocada sobre um dos ombros, conhecido como sabai. Esses elementos combinados criam uma imagem marcante de elegância e sofisticação, com tecidos ricamente trabalhados e bordados à mão que muitas vezes incluem fios de ouro ou prata.

Durante o século XIX, a Tailândia passou por um processo de modernização acelerado impulsionado pelo contato com potências ocidentais, e a realeza começou a adotar trajes europeus em eventos oficiais para demonstrar sofisticação e abertura diplomática. Com isso, o uso do Chut Thai foi diminuindo nas cortes e se restringindo ao campo e a rituais religiosos. Porém, na década de 1960, a rainha Sirikit, uma das figuras mais influentes da monarquia moderna tailandesa, decidiu resgatar o uso do traje tradicional como forma de promover a identidade nacional. Ela trabalhou com especialistas em têxteis e designers locais para desenvolver oito variações formais do Chut Thai feminino, cada uma adequada a um tipo específico de evento — desde recepções internacionais até festivais tradicionais — e a padronização que ela criou segue sendo usada até hoje.

Foto: reprodução/thai today

O Chut Thai, embora muito associado a ocasiões formais e à realeza, é também uma vestimenta de uso cerimonial comum entre a população. Durante festivais como o Loi Krathong, o Songkran (ano novo tailandês) ou celebrações religiosas em templos budistas, muitas mulheres tailandesas optam por vestir o traje completo com todos os acessórios: brincos, pulseiras, colares e flores no cabelo, geralmente jasmim ou orquídeas. O traje masculino, embora menos conhecido internacionalmente, também tem sua força simbólica. Ele inclui calças largas e pregueadas chamadas chong kraben, combinadas com camisas de colarinho alto, faixas e, em algumas ocasiões, jaquetas bordadas. Em casamentos tradicionais, os noivos costumam vestir Chut Thai completos, e o traje da noiva pode variar entre versões luxuosas de brocado dourado ou seda vermelha, com coroas tradicionais conhecidas como chada.

O detalhe que mais chama atenção no Chut Thai está nos tecidos. A seda tailandesa, famosa mundialmente, é tecida manualmente em várias regiões do país, especialmente na província de Surin e na região de Isan. Cada padrão, cor e textura carrega uma origem local, e muitas famílias ainda produzem seus próprios tecidos da forma artesanal, passando os segredos do tear de geração em geração. Há uma lógica estética que liga os elementos do traje a conceitos religiosos budistas, como equilíbrio, simetria e respeito ao corpo. As cores escolhidas também podem seguir os dias da semana, uma tradição ainda viva na Tailândia: por exemplo, usar rosa às terças ou amarelo às segundas, sendo esta a cor preferida para eventos ligados ao rei, nascido em uma segunda-feira.

Foto: reprodução/thai today

Apesar da tradição forte, o Chut Thai não está parado no tempo. Designers tailandeses contemporâneos como Prapakas Angsusingh e Thep Thewphaingam vêm reinterpretando a estética tradicional com cortes mais modernos, misturas de tecidos e até aplicações que flertam com a moda ocidental. Além disso, concursos de beleza como o Miss Universe Thailand frequentemente apostam em versões atualizadas do traje como forma de destacar a identidade cultural do país no palco internacional. O mesmo vale para videoclipes de artistas pop locais e produções de televisão, principalmente os lakorns históricos, que são dramas de época amados pelos tailandeses e que mantêm viva a iconografia do traje tradicional.

O Chut Thai é, acima de tudo, um marcador visual da cultura tailandesa que nunca deixou de ter função prática, simbólica e política. Ele aparece tanto em casamentos e festivais quanto em campanhas de turismo, e se tornou uma maneira eficaz de representar a Tailândia de forma elegante sem precisar de legenda. É uma roupa que conversa com espiritualidade, estética e nacionalismo de um jeito muito próprio. Usar Chut Thai não é apenas se vestir bonito, é colocar no corpo a história de um país inteiro e a continuidade de uma herança que segue viva, bordada com as mãos de quem ainda acredita que tradição e futuro podem caminhar juntos.

Baro’t Saya: a roupa tradicional das Filipinas que mistura influência indígena, colonização espanhola e orgulho feminino em cada detalhe

O Baro’t Saya é considerado o traje feminino tradicional mais emblemático das Filipinas e representa uma síntese visual do passado complexo e multifacetado do país. Seu nome é uma junção das palavras baro (blusa) e saya (saia), e o conjunto inclui uma blusa de tecido leve, geralmente transparente, com mangas volumosas, uma longa saia estampada ou lisa, um avental chamado pañuelo usado sobre os ombros e, em alguns casos, um véu ou lenço para cobrir a cabeça. A estrutura da peça mistura elementos da cultura indígena pré-colonial com características trazidas pelos colonizadores espanhóis, que dominaram as Filipinas por mais de três séculos. Isso explica por que o traje lembra, de forma distante, vestidos europeus do século XIX, mas com tecidos, cortes e jeitos de usar que são totalmente locais. O Baro’t Saya não é uniforme: ele muda conforme a região, o status social, a ocasião e até a década em que foi usado.

Durante o período colonial espanhol, que começou no século XVI, as mulheres indígenas filipinas eram obrigadas a se vestir de maneira mais modesta segundo os padrões católicos da época, e o Baro’t Saya nasceu dessa imposição, mas foi ressignificado ao longo do tempo. No início, o baro era uma blusa de algodão ou cânhamo, com corte reto e simples, enquanto a saya era apenas uma peça de tecido enrolada ao redor da cintura. Mas, à medida que o tempo passava, essas peças foram sendo elaboradas, ganhando tecidos mais sofisticados como seda e abacá, cores mais vibrantes e formatos que equilibravam pudor e vaidade. A chegada de técnicas de bordado espanholas e o uso de rendas finas transformaram o Baro’t Saya numa roupa visualmente impactante, especialmente nas grandes cidades e entre a elite criolla (filipinos de origem espanhola nascidos no arquipélago).

Foto: reprodução/bayo

No século XIX, o Baro’t Saya foi se tornando cada vez mais simbólico para a identidade feminina filipina. A partir desse período, surgiu uma variação chamada Maria Clara, nome inspirado na personagem de um romance clássico do escritor José Rizal, considerado herói nacional. A personagem representava a mulher ideal da época — recatada, virtuosa, educada — e seu traje passou a ser associado à feminilidade tradicional filipina. A blusa ficou mais estruturada, com mangas em forma de asa de borboleta e colarinhos fechados. A saya ganhou mais volume e pregas, enquanto o pañuelo virou quase uma peça obrigatória. A partir daí, o Baro’t Saya passou a ser vestido em eventos formais, apresentações artísticas, cerimônias religiosas e retratos de família. E mesmo com o surgimento de roupas ocidentais modernas, ele nunca sumiu totalmente da cena cultural do país.

Hoje em dia, o Baro’t Saya continua sendo usado em ocasiões especiais como festas escolares, casamentos, festivais regionais e feriados patrióticos como o Dia da Independência. É comum que estudantes do ensino médio e universitário participem de apresentações de dança tradicional vestindo o traje completo, com direito a saias rodadas, cabelos presos com flores e brincos de pérola. Em produções de cinema e televisão que retratam o período colonial ou a luta pela independência, o figurino do Baro’t Saya é sempre presente. Ao mesmo tempo, estilistas filipinos contemporâneos vêm reinterpretando a peça de maneira ousada e inovadora: alguns mantêm a estrutura clássica, mas apostam em cores neon, transparências dramáticas, bordados desconstruídos e até misturas com jeans e couro. Essa fusão entre o antigo e o novo tem conquistado espaço até nas semanas de moda internacionais.

Foto: reprodução/bayo

Um exemplo notável dessa ressignificação moderna do Baro’t Saya foi a aparição da Miss Universo Filipinas 2018, Catriona Gray, em um vestido inspirado no traje tradicional, mas reinterpretado como peça de gala em sua final no concurso. O look, desenhado por Mak Tumang, viralizou não só pela beleza, mas pelo impacto cultural de ver um ícone tradicional sendo exaltado em uma plataforma global. Também é cada vez mais comum ver o Baro’t Saya presente em editoriais de moda local, capas de revistas e projetos de identidade visual promovidos por artistas da nova geração, que se apropriam do traje como símbolo de poder e orgulho feminino, principalmente diante da crescente valorização das raízes asiáticas na cultura pop mundial.

O que faz o Baro’t Saya seguir relevante é justamente essa capacidade de adaptação. Ele carrega a memória da colonização, da imposição religiosa, da luta por independência e da resistência cultural, mas se transformou em uma peça de afirmação, elegância e identidade. A mulher filipina moderna pode usá-lo tanto como parte de uma performance artística quanto como um gesto silencioso de pertencimento. Mesmo com o calor tropical, o tecido delicado e a formalidade que o traje exige, ele continua sendo escolhido por quem quer mostrar de onde veio, o que representa e o que não está disposta a apagar da própria história.

Saree: o vestido tradicional da Índia que atravessa milênios e continua sendo símbolo máximo da feminilidade e diversidade cultural

O saree é uma das peças mais antigas e reconhecíveis da moda tradicional indiana, usado há pelo menos 5 mil anos, com registros arqueológicos e iconográficos que comprovam sua presença desde a civilização do Vale do Indo. Diferente de uma roupa pronta, o saree é um longo tecido — que pode variar entre 4,5 e 9 metros — enrolado e drapeado em volta do corpo de formas que mudam radicalmente de acordo com a região, religião, casta e ocasião. A versatilidade do saree é uma das suas maiores características: não existe um jeito único de usá-lo, e cada comunidade indiana tem seu próprio estilo, técnica de amarração e tecido preferido. Isso faz com que o saree seja muito mais que uma peça, ele é um universo inteiro de tradições têxteis e simbologias.

Historicamente, o saree sempre foi uma peça exclusiva para mulheres e é considerado uma manifestação do papel feminino dentro das sociedades indianas. Em algumas culturas locais, o ato de vestir um saree envolve rituais, passes de mão específicos para acomodar o tecido e, claro, a combinação com uma blusa chamada choli e uma saia por baixo. O tecido pode ser de algodão simples para o dia a dia ou de seda pura com bordados intrincados, fios de ouro (zari), miçangas e espelhos para ocasiões especiais. Durante séculos, o saree foi usado por mulheres em todas as classes sociais, desde camponesas até rainhas, e sua importância transcende moda: ele tem função social, religiosa e cultural.

Foto: reprodução/koshi

No sul da Índia, por exemplo, o saree é usado com dobras maiores e tecidos mais leves para enfrentar o calor, enquanto no norte, regiões frias preferem tecidos mais pesados, como o brocado. As cores também têm significados profundos: o vermelho é a cor tradicional das noivas, simbolizando fertilidade e prosperidade; o branco é usado em rituais de luto e meditação; o amarelo e o laranja são ligados à espiritualidade e celebrações. O saree também é objeto de forte expressão regional por meio de diferentes técnicas de tecelagem e estampas, como o Banarasi de Uttar Pradesh, o Kanjeevaram do Tamil Nadu, e o Patola de Gujarat, todos reconhecidos internacionalmente pelo acabamento luxuoso.

Nos tempos modernos, o saree segue sendo uma roupa cotidiana para muitas mulheres indianas, especialmente em áreas rurais e entre gerações mais velhas, mas também aparece em versões repaginadas para o uso urbano, festas e ambientes profissionais. Estilistas contemporâneos começaram a experimentar novas formas de drapeado, tecidos mistos e combinações de cores para adaptar o saree às exigências da moda global, sem perder a essência tradicional. Celebridades indianas e internacionais, como Aishwarya Rai, Deepika Padukone e Priyanka Chopra, frequentemente exibem sarees em tapetes vermelhos e eventos internacionais, o que reforça sua presença na cultura pop global.

Foto: reprodução/indian mart

O saree também carrega em si debates importantes sobre gênero, identidade e apropriação cultural. Por um lado, ele é visto como um símbolo de empoderamento e tradição para muitas mulheres que o vestem com orgulho. Por outro, há críticas em relação às expectativas sociais que ele pode impor sobre feminilidade e comportamento. No entanto, o fato de o saree ser uma peça tão multifacetada permite que ele seja reinventado constantemente por quem o usa, seja para expressar religiosidade, para construir uma imagem pública ou simplesmente por estética. Essa capacidade de adaptação é uma das razões pelas quais o saree continua vivo, vibrante e essencial em um país que está sempre mudando.

Por fim, não dá para falar de saree sem mencionar sua complexidade técnica e cultural, que muitas vezes envolve anos de aprendizado para vestir corretamente, combinar com joias e maquiagem, e entender o significado das cores e padrões. É uma roupa que pede cuidado, atenção e respeito, mas que recompensa quem se dedica a conhecê-la com um visual único, carregado de histórias e pertencimento. Mais que uma peça, o saree é uma narrativa visual que atravessa gerações, continentes e contextos, mantendo a Índia no centro da moda tradicional mundial.

Kebaya: a blusa tradicional da Indonésia que une influências locais e coloniais em um símbolo de elegância feminina

O Kebaya é uma peça tradicional que faz parte do vestuário feminino da Indonésia e também de países vizinhos como Malásia e Singapura, e sua história é resultado da mistura entre a cultura indígena e a influência colonial portuguesa e holandesa que dominou a região por séculos. Tradicionalmente, o kebaya é uma blusa justa, geralmente feita de renda ou tecidos finos, com mangas compridas ou três quartos e detalhes bordados, combinada com um sarong, uma saia longa e estampada que envolve a cintura e chega até os tornozelos. Embora o kebaya seja muitas vezes considerado um traje formal ou festivo, especialmente em ocasiões como casamentos e celebrações oficiais, ele também tem uma versão mais simples usada no dia a dia por mulheres em regiões rurais.

Historicamente, o kebaya surgiu no século XV, ganhando forma a partir das roupas usadas pelas mulheres da corte e das comunidades indígenas da Indonésia. Durante o período colonial, os europeus trouxeram tecidos, técnicas de costura e cortes que influenciaram o design do kebaya, que ganhou detalhes rendados e ajustes mais delicados, mantendo ao mesmo tempo sua essência tradicional. A blusa passou a simbolizar a feminilidade e o refinamento das mulheres nativas, sendo adotada em diferentes variações regionais, como o kebaya encim de Java e o kebaya kutu baru de Bali, que diferem nos tecidos, cores e formas de bordado.

Foto: reprodução/larney

O kebaya também tem um papel político e social importante. Durante a luta pela independência da Indonésia, o traje foi usado como símbolo de identidade nacional e resistência cultural contra a dominação estrangeira. Mulheres que participaram do movimento independentista costumavam usar o kebaya como forma de afirmar sua ligação com as tradições locais e seu orgulho pelo país. Além disso, o kebaya é frequentemente visto em eventos oficiais, como cerimônias estatais e apresentações culturais, reforçando sua posição como uma peça que transcende o uso cotidiano e se torna marca de identidade nacional.

Na Indonésia contemporânea, o kebaya é um símbolo forte do feminismo tradicional, já que combina delicadeza visual com um corte que valoriza a postura e a presença da mulher. Embora algumas versões modernas adotem tecidos sintéticos e designs simplificados para facilitar o uso, os modelos mais tradicionais ainda são feitos com rendas delicadas e bordados manuais, exigindo tempo e habilidade para serem produzidos. Os acessórios que acompanham o kebaya, como colares de ouro, pulseiras e até flores no cabelo, reforçam o aspecto cerimonial da peça. Também é comum ver o kebaya em celebrações familiares importantes, como aniversários e casamentos, especialmente entre as famílias javanesas.

Foto: reprodução/larney

Nos últimos anos, o kebaya tem sido reinterpretado por designers contemporâneos que buscam equilibrar tradição e modernidade, criando versões que podem ser usadas no dia a dia, no trabalho ou em eventos informais. Algumas estilistas apostam em cores vibrantes, cortes assimétricos e misturas com tecidos ocidentais, tornando o kebaya uma peça versátil que dialoga com a moda global. Além disso, o kebaya tem ganhado destaque em editoriais internacionais e desfiles, contribuindo para a visibilidade da cultura indonésia no cenário mundial. Sua popularidade também ultrapassa as fronteiras da Ásia, sendo apreciada por comunidades da diáspora e entusiastas da moda tradicional.

O que diferencia o kebaya de outros trajes asiáticos é sua capacidade de ser ao mesmo tempo simples e sofisticado, permitindo que seja usado em contextos variados, desde uma cerimônia formal até um encontro casual, dependendo do tecido, do corte e dos acessórios escolhidos. Ele é a prova viva de que a moda tradicional pode ser flexível e atual sem perder a sua raiz cultural. Por tudo isso, o kebaya segue sendo uma peça fundamental para entender a identidade feminina indonésia e seu diálogo constante com o passado e o presente.

Deel: o casaco tradicional mongol que une funcionalidade e identidade em meio às vastas estepes da Ásia Central

O Deel é a roupa tradicional mais emblemática da Mongólia, usada há séculos por pastores nômades que enfrentam as condições extremas da estepe asiática. Trata-se de um casaco longo, geralmente confeccionado em lã grossa, algodão ou seda, que envolve o corpo com uma sobreposição fechada na lateral, presa por botões ou fitas. O corte é pensado para proteger contra o frio intenso e os ventos fortes, permitindo ao mesmo tempo liberdade de movimento para montar cavalos e realizar as tarefas diárias da vida nômade. Apesar de sua simplicidade aparente, o Deel é uma peça cheia de detalhes que indicam a região de origem, a classe social e até o estado civil de quem o usa, seja homem, mulher ou criança.

A origem do Deel é antiga, remontando à época em que os mongóis viviam como tribos nômades e guerreiros, e precisavam de roupas que funcionassem tanto para o dia a dia quanto para o combate. O tecido grosso e as sobreposições proporcionam proteção contra o frio da Sibéria e da Mongólia, mas o casaco também é elegante na sua forma, com mangas largas e gola alta que ajudam a manter o calor. No passado, o Deel era feito de peles de animais e lãs, mas hoje em dia pode ser encontrado em tecidos variados, desde algodão para uso cotidiano até sedas bordadas para cerimônias e festivais tradicionais. A escolha das cores também tem significado: tons escuros eram preferidos para o uso diário, enquanto cores vivas, como vermelho, azul e amarelo, eram reservadas para ocasiões especiais.

Foto: reprodção/UNESCO

Durante festivais como o Naadam, que celebra a cultura mongol com competições de arco e flecha, corrida de cavalos e luta livre, o Deel é a peça central do vestuário dos participantes e espectadores. Além disso, o traje é usado em casamentos e celebrações familiares, onde versões mais luxuosas e ricamente bordadas demonstram status social e prestígio. O Deel também tem um papel importante na preservação da identidade cultural mongol, especialmente em tempos de globalização e urbanização, quando as gerações mais jovens vivem em cidades como Ulaanbaatar e acabam se afastando da vida nômade tradicional. A roupa serve como um elo visual com a história e os valores ancestrais.

Cada região da Mongólia tem variações no design do Deel, com diferenças em comprimento, tipos de gola, bordados e até formas de fechamento. Homens tendem a usar versões mais simples e robustas, enquanto as mulheres geralmente escolhem peças com bordados delicados e acessórios que complementam o traje, como cintos coloridos, chapéus tradicionais e botas de couro. A maneira de usar o Deel também pode indicar o estado civil ou a profissão de quem o veste, um código visual que é bem conhecido nas comunidades locais. Essa codificação é parte do que torna o Deel uma peça viva, que vai muito além da função prática.

Foto: reprodução/UNESCO

Na Mongólia moderna, o Deel vem ganhando um lugar de destaque não apenas como traje tradicional, mas também como inspiração para a moda contemporânea. Designers locais e internacionais já começaram a incorporar elementos do Deel em coleções que misturam tradição e inovação, criando casacos, vestidos e acessórios que dialogam com a estética mongol, mas adaptados às tendências globais. Eventos culturais e competições internacionais também ajudaram a projetar o Deel para além das fronteiras do país, despertando interesse em um público maior que valoriza peças que contam histórias profundas e são cheias de significado.

O Deel é, acima de tudo, um símbolo da resistência e adaptação de um povo que vive em uma das regiões mais desafiadoras do planeta. Ele representa a relação íntima entre cultura, clima e modo de vida, mostrando como a moda tradicional pode ser funcional e ao mesmo tempo carregada de significado. Vestir um Deel é mais do que se proteger do frio: é carregar no corpo um legado milenar que mantém vivas as raízes mongóis, celebrando a conexão com a terra, a história e a comunidade.

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Texto revisado por Kaylanne Faustino e Angela Maziero Santana

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