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Dragões da Ásia
Foto: reprodução/dragão home

Especial | Dragões da Ásia: conheça as lendas que unem culturas milenares e ainda influenciam o entretenimento até hoje

Presença constante em mitos, festas e até em animes e K-dramas, os dragões são mais do que criaturas fantásticas na Ásia

Dragões existem em praticamente todas as mitologias do mundo. Da serpente Níðhöggr que roía as raízes da Yggdrasil na mitologia nórdica ao dragão de São Jorge na tradição cristã europeia, essas criaturas costumam aparecer como forças do caos ou da destruição, simbolizando o mal que precisa ser derrotado. Mas na Ásia, a história é outra. O dragão asiático não é um monstro, e sim um símbolo sagrado associado à sabedoria, poder, justiça, fertilidade, proteção e até mesmo ao próprio nascimento de nações.

A figura do dragão na Ásia é complexa, com múltiplas versões surgindo em diferentes contextos históricos, religiosos e culturais. No entanto, há um fio que os une: o respeito. Em vez de destruir dragões, os asiáticos os reverenciam, eles não são seres que ameaçam a humanidade, são forças que a moldam, que influenciam o clima, abençoam governantes e guardam os portais entre o mundo dos vivos e o espiritual. 

Seja na China, Coreia, Japão ou no Sudeste Asiático, os dragões aparecem em textos antigos, templos, cerimônias imperiais e, mais recentemente, no entretenimento moderno.

A origem mais remota de um dragão asiático pode ser rastreada até aproximadamente 5.000 a.C., na cultura de Hongshan, no Nordeste da atual China. Esculturas de jade com formas serpenteadas e olhos penetrantes, descobertas em tumbas neolíticas, são os primeiros vestígios visuais do que se tornaria o arquétipo do dragão chinês. Daí em diante, ao longo de milênios, a criatura evoluiu e assumiu papéis centrais nas narrativas históricas dos impérios asiáticos, tanto como símbolo dinástico quanto como divindade que vive nos rios e nos céus.

Esses dragões antigos não possuem asas, como os europeus, mas têm corpos longos e ondulantes, com escamas de carpa, chifres de cervo, bigodes flutuantes e garras afiadas. Seu design é um verdadeiro híbrido de animais terrestres e aquáticos, como se condensassem toda a natureza em uma única entidade mitológica. 

Isso não é coincidência: na tradição asiática, os dragões são mediadores entre os elementos terra, ar, fogo e principalmente água. Controlam chuvas, tempestades e colheitas. E, por isso, passaram a habitar um lugar central em religiões locais como o xintoísmo, o budismo e o taoismo.

Mas os dragões asiáticos não são todos iguais. Cada país adaptou a figura do dragão de acordo com seus mitos fundacionais, estruturas de poder e crenças espirituais. Essa diversidade reflete não só as características culturais de cada civilização, mas também os caminhos históricos percorridos. A expansão do budismo e das rotas comerciais, como a Rota da Seda e as redes marítimas do Sudeste Asiático, ajudaram a espalhar e transformar as ideias sobre os dragões. 

Por isso, encontramos ecos da China nos dragões coreanos, traços indianos nos nāgas tailandeses e versões japonesas que mesclam Shinto, budismo e práticas locais animistas. É uma rede simbólica de séculos, onde o dragão é sempre um elo.

E se engana quem acha que os dragões ficaram presos às eras dos mitos e imperadores. Na cultura pop asiática atual, eles continuam presentes; reinventados, sim, mas ainda profundamente conectados às raízes tradicionais. Aparecem em animes, como Dragon Ball, nos jogos, como League of Legends e Genshin Impact, em filmes, como A Viagem de Chihiro, em webtoons, em K-dramas históricos, no cinema wuxia chinês, e até nos nomes artísticos de idols, como G-Dragon. A criatura atravessou o tempo e se adaptou ao digital, sem jamais perder sua aura mítica.

Pensando em toda essa grandiosidade dos dragões, o Entretê preparou um especial onde vamos explorar com profundidade os dragões de cada uma dessas culturas, começando pela civilização que deu origem a tudo: a China.

China: o dragão como símbolo da ordem cósmica, do poder imperial e do espírito ancestral

Na China, os dragões são talvez as criaturas mitológicas mais importantes de toda a civilização. O lóng (龙), como é chamado em mandarim, é muito mais do que uma figura lendária, ele representa uma força vital do universo. 

O dragão chinês não é o vilão a ser derrotado, como no Ocidente, mas uma entidade de sabedoria, poder, proteção e boa sorte. Ele é uma das Quatro Criaturas Sagradas da mitologia chinesa antiga (ao lado do tigre branco, da tartaruga negra e do pássaro vermelho), associada ao leste, à primavera e ao elemento madeira.

Foto: reprodução/amino

As primeiras representações de dragões na China remontam ao período Neolítico, especialmente à cultura de Hongshan (por volta de 4700–2900 a.C.). Esculturas de jade em forma de dragão com corpos espiralados foram encontradas em túmulos dessa época, demonstrando que já havia uma conexão entre a figura do dragão e o mundo dos mortos, dos ancestrais e da espiritualidade. A cultura Liangzhu (3300–2300 a.C.) também apresenta artefatos com padrões de dragões, reforçando sua importância desde os primórdios da sociedade chinesa.

No período da dinastia Xia (2070–1600 a.C.), considerada a primeira dinastia da China (ainda que envolta em lenda), o dragão já estava ligado ao direito divino de governar. Mas foi com a dinastia Zhou (1046–256 a.C.) que essa associação se consolidou: o conceito do Mandato do Céu (天命) justificava o poder do imperador como escolhido dos céus, e o dragão era o animal simbólico dessa autoridade celestial. 

Ele aparece nos estandartes, nas vestimentas e nos palácios imperiais, especialmente a partir da dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.), quando a mitologia chinesa passou a ser registrada com maior sistematização.

Na dinastia Tang (618–907), o império chinês viveu uma era de ouro cultural e artística, e o dragão atingiu um novo patamar simbólico. Já na dinastia Song (960–1279), consolidou-se a tradição de que apenas o imperador podia usar a imagem do dragão com cinco garras, os aristocratas e oficiais usavam versões com quatro garras. 

Esse protocolo visual se tornou ainda mais rígido sob a dinastia Ming (1368–1644) e alcançou sua forma final na dinastia Qing (1644–1912), quando o dragão de cinco garras em amarelo sobre fundo azul se tornou o emblema oficial do trono imperial.

Mitologicamente, o dragão chinês é formado por pedaços de nove animais diferentes: tem chifres de veado, olhos de demônio, focinho de camelo, escamas de carpa, garras de águia, patas de tigre, bigodes longos, orelhas de boi e corpo de serpente. É uma criatura que integra o mundo terrestre e o celestial. 

Muitos mitos contam que os dragões vivem nos oceanos e nos céus, podendo controlar as chuvas, trovões e ventos. Por isso, eles eram adorados em rituais agrícolas e orações por fertilidade. Quando havia secas ou enchentes, os camponeses suplicavam aos deuses-dragões para restabelecer o equilíbrio.

Os dragões também fazem parte dos mitos fundadores da própria civilização chinesa. Um dos mais conhecidos é o do Imperador Amarelo (Huangdi), uma figura semidivina considerada ancestral do povo chinês, que teria ascendido aos céus montado num dragão. 

Outro mito narra que o lendário imperador Yandi, aliado de Huangdi, era filho de um dragão. Essas histórias mostram que, para o povo chinês, o dragão não é só um símbolo de poder político, ele representa uma conexão espiritual direta entre os céus, a terra e a linhagem dos governantes.

No imaginário coletivo, os dragões também estão presentes nos ciclos do tempo e da astrologia. O dragão é o quinto signo do zodíaco chinês e aparece a cada 12 anos. Nas tradições populares, as pessoas nascidas no ano do dragão são vistas como carismáticas, ambiciosas, líderes naturais e afortunadas. O ano do dragão é especialmente auspicioso para nascimentos, casamentos e inícios de projetos. Isso explica por que, por exemplo, em 2012 — o último ano do dragão — houve um aumento significativo na taxa de natalidade em várias regiões da China.

Mesmo após a queda do império em 1912, o dragão não foi abandonado. Ele continua sendo um símbolo de identidade nacional e espiritual. No Festival da Primavera (Ano Novo Chinês), as danças do dragão são um dos eventos mais marcantes: enormes figuras articuladas representando dragões ondulam pelas ruas, acompanhadas de tambores e fogos de artifício. 

No Festival do Barco-Dragão (Duanwu Jie), celebrado no quinto dia do quinto mês do calendário lunar, equipes competem em barcos com cabeças de dragão, numa tradição que remonta ao período dos Reinos Combatentes (475–221 a.C.).

Na cultura pop, o dragão chinês também se transformou. Ele aparece em filmes de artes marciais, como O Tigre e o Dragão (2000), em animações como Mulan (1998), na forma do pequeno Mushu, e em games e RPGs modernos. A presença do dragão é sempre positiva, ligada à proteção, coragem e ancestralidade. Em jogos como Genshin Impact, por exemplo, dragões são entidades que guardam regiões e têm sabedoria milenar. Em séries chinesas de fantasia, como Ashes of Love (2018) e The Untamed (2019), o simbolismo do dragão aparece em clãs, linhagens mágicas e visões de poder.

Foto: reprodução/disney

Hoje, o dragão chinês é um verdadeiro patrimônio cultural. Está presente em logotipos, produtos turísticos, tatuagens, souvenirs, desfiles e identidade visual de empresas. Em 2024, por exemplo, o governo chinês iniciou uma série de exposições internacionais intituladas Dragon’s Spirit para promover o soft power da China por meio de sua mitologia. O dragão é um símbolo que une tradição e modernidade, orgulho e espiritualidade.

Para o povo chinês, o dragão continua sendo muito mais do que uma criatura lendária. Ele é a personificação de seu passado imperial, de sua ligação com o cosmos e da energia vital que continua moldando a identidade cultural da China no século XXI.

Coreia: o yong como símbolo de justiça divina, soberania espiritual e conexão com o povo

Na mitologia coreana, o dragão é chamado de yong (용) e compartilha muitas semelhanças com o lóng chinês, sobretudo no visual (corpo serpenteado, escamas, chifres e ausência de asas). No entanto, o yong coreano carrega significados distintos: ele é associado à justiça, à sabedoria, à proteção do povo e à integridade espiritual. 

Ao contrário do dragão imperial chinês, símbolo exclusivo do trono, o dragão coreano se posiciona como um intermediário entre os céus e o mundo dos mortais, um guardião ético que vigia o destino do reino e age sempre a favor dos virtuosos.

A presença dos dragões na Península Coreana remonta aos tempos dos Três Reinos da Coreia: Goguryeo (37 a.C.–668 d.C.), Baekje (18 a.C.–660 d.C) e Silla (57 a.C.–935 d.C). Um dos episódios mais famosos dessa época está ligado ao rei Munmu de Silla, que pediu — em seu leito de morte, no ano 681 — para ser cremado e ter suas cinzas espalhadas no mar, pois desejava se transformar em um dragão marinho e proteger o país contra invasores. 

Foto: reprodução/amino

Essa história fundacional simboliza a fusão entre realeza e espiritualidade no imaginário coreano, e o próprio túmulo subaquático de Munmu (que existe até hoje na costa de Gyeongju) é um local de reverência nacional.

Outra lenda famosa é a do dragão Imugi (이무기), uma criatura serpenteante que vive nas montanhas ou lagos e almeja se tornar um verdadeiro dragão celeste. Para isso, ele precisa capturar uma esfera mágica chamada yeouiju (여의주) e passar por um julgamento espiritual. Se for digno, ele ascende aos céus. Se não, permanece no limbo. 

Essa narrativa, que aparece desde os textos antigos do reino de Goryeo (918–1392), é uma metáfora clara de transformação espiritual, luta moral e superação. O Imugi se tornou uma figura popular até hoje, aparecendo em webtoons, filmes e séries coreanas.

Na arte e na arquitetura dos reinos antigos, os dragões estão por toda parte. Telhados de templos budistas são adornados com dragões que olham para o céu, como forma de proteger o espaço sagrado de espíritos malignos. Os sinos das dinastias Goryeo e Joseon são tradicionalmente esculpidos com dragões em sua parte superior, simbolizando a voz dos céus que ressoa pela terra. A presença do yong também é constante nas vestimentas reais, nas bandeiras da dinastia Joseon (1392–1897) e até nos documentos oficiais da corte.

É importante destacar que o dragão coreano aparece muitas vezes como aliado do povo, não como seu governante. Enquanto na China o dragão representa o poder central e a supremacia do imperador, na Coreia ele frequentemente surge como uma figura justa que protege aldeões, recompensa os bons e pune os gananciosos. Essa diferença reflete aspectos fundamentais do confucionismo coreano e da tradição budista local, que colocam grande ênfase na moralidade, no bem comum e na harmonia coletiva.

Mesmo após a anexação da Coreia pelo Japão (1910–1945) e o apagamento simbólico de muitos ícones nacionais durante o período colonial, o yong permaneceu como símbolo cultural resistente. Na literatura moderna, ele foi resgatado como arquétipo de renascimento nacional. 

Após a divisão das Coreias, em 1948, a Coreia do Sul manteve o dragão como parte de seu folclore e identidade visual, ainda que com menor presença oficial do que nos tempos monárquicos.

No entretenimento coreano, os dragões continuam em alta. No K-pop, o rapper G-Dragon (do BIGBANG) se apropriou do símbolo como parte de sua persona artística: ousado, criativo, único. Em K-dramas históricos, como The King: Eternal Monarch (2020) ou The Tale of the Nine-Tailed (2020), referências a dragões, portais interdimensionais e justiça espiritual são constantes. 

Nos jogos coreanos, como Lineage e Black Desert, dragões são chefes sagrados ou aliados celestiais. Já no cinema, o Imugi aparece como criatura central no filme D-War (2007), uma produção sul-coreana que mistura mitologia tradicional com efeitos hollywoodianos.

O dragão coreano sobrevive porque é multifacetado: ele é sagrado, mas também próximo; ético, mas poderoso; ancestral, mas adaptável. Ele representa a alma espiritual de um povo que, ao longo dos séculos, enfrentou guerras, ocupações, divisões e reconstruções, e que encontrou, na figura mítica do yong, um símbolo eterno de esperança, força moral e proteção.

Sudeste Asiático: os nāgas como espíritos aquáticos, ancestrais divinos e protetores dos templos e dos povos

No Sudeste Asiático, a figura do dragão se manifesta de maneira distinta, porém igualmente sagrada: na forma das serpentes míticas chamadas nāgas. O termo nāga (derivado do sânscrito नाग) designa entidades espirituais serpentiformes que habitam rios, lagos, montanhas e o submundo. 

Ao contrário do dragão chinês ou japonês, o nāga não tem corpo de vários animais, é uma cobra gigante, muitas vezes com múltiplas cabeças, que assume forma divina ou semidivina. Ele é associado à fertilidade, proteção, sabedoria ancestral, água e realeza, e aparece tanto nas religiões hinduístas quanto budistas, que moldaram a espiritualidade da região ao longo de milênios.

A presença dos nāgas nas mitologias do Sudeste Asiático começou com a expansão da cultura indiana por meio das rotas marítimas e do comércio, entre os séculos I e V d.C. Durante esse período, reinos como Funan (na atual região do Camboja e Vietnã), Srivijaya (Sumatra), e Chenla (predecessor do Império Khmer) incorporaram fortemente os elementos védicos e budistas. O nāga, que na Índia era tanto uma classe de deuses quanto um povo mítico, passou a ser visto como o guardião das águas e das terras férteis, essencial para a agricultura e os ciclos de vida dos povos do Mekong e seus afluentes.

Foto: reprodução/amino

Na Tailândia, o nāga é conhecido como Phaya Naga (พญานาค) e é considerado um espírito poderoso que vive nas profundezas do rio Mekong. De acordo com a lenda mais popular, os nāgas ajudaram Buda a cruzar o rio e o protegeram da chuva durante a meditação. 

Essa devoção ao nāga se reflete em festivais como o Bung Fai Phaya Naga, realizado anualmente na cidade de Nong Khai, na fronteira com o Laos, durante o final da estação chuvosa. Neste festival, acredita-se que os nāgas lançam bolas de fogo do fundo do Mekong para o céu, um fenômeno misterioso que milhares de pessoas tentam testemunhar, considerado milagre pela população local.

 

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Texto revisado por Cristiane Amarante 

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