Ela tem 26 anos, um Grammy, uma estética de livro antigo, uma discografia impecável e um fã ilustre chamado Kim Tae-hyung
Se você já se pegou escutando um som suave no fundo de um vídeo do TikTok, com voz doce, cordas cinematográficas e um clima que parece café em tarde de chuva, provavelmente era Laufey. Se nunca ouviu falar, começa aqui: o nome dela se pronuncia Láu-vêi, nasceu em Reykjavík, capital da Islândia, em 1999, é filha de mãe chinesa e pai islandês, cresceu entre piano clássico e fitas de jazz, se formou em Berklee e é, talvez, a artista mais sensível da nossa geração. Com 26 anos, está escrevendo uma nova história para o jazz, e fazendo isso com um sorriso tímido, vestidos vintage e letras que falam de amor como se fosse a primeira vez.
Sua trajetória inclui dois álbuns de estúdio lançados e um terceiro a caminho. O primeiro, Everything I Know About Love (2022), foi a introdução perfeita: melódico, nostálgico, feito para quem gosta de filmes antigos e finais abertos. Em 2023, ela lançou Bewitched, que consolidou seu estilo e rendeu seu primeiro Grammy (na categoria Best Traditional Pop Vocal Album, em 2024). Em 2025, o novo projeto A Matter of Time promete expandir essa linguagem, mas sem pressa. Laufey tem o próprio ritmo.
Ao lado dos álbuns, vieram os clipes, todos com estética consistente, referências clássicas e uma certa simplicidade que parece proposital. Em Valentine, ela canta sobre amar alguém inesperadamente, sozinha num estúdio com fundo rosa. Em From the Start, usa animação 2D para falar de desencontros amorosos. Em Promise, caminha por cenários vazios, como se atravessasse uma saudade.
Da infância musical até a Berklee: como Laufey construiu uma base sólida com afeto e técnica
A mãe, violinista clássica chinesa, foi sua primeira professora. Aos quatro, ela tocava piano. Aos oito, violoncelo. Aos quinze, era solista da Orquestra Sinfônica da Islândia. Mas em segredo, no quarto, escutava Ella Fitzgerald, Chet Baker, Frank Sinatra. Quando foi aceita na Berklee College of Music, já sabia que não queria apenas interpretar obras dos outros. Queria escrever. Queria cantar. E queria fazer tudo isso com a delicadeza que sempre sentiu e que nunca achou espaço para mostrar.
Começou no YouTube e no Instagram, com vídeos caseiros, cabelo ondulado, vestido de brechó, iluminação natural. Foi em 2020, durante a pandemia, que Street by Street viralizou. A faixa virou trilha para vídeos melancólicos e apaixonados, e Laufey encontrou ali seu público, jovens que nunca tinham ouvido jazz, mas que entenderam imediatamente o que ela queria dizer. Porque não é sobre gênero. É sobre sentimento.
O EP Typical of Me veio logo depois, em 2021. Com sete faixas, serviu como um experimento sensível, entre o jazz tradicional e a escrita confessional. Desde o início, Laufey manteve controle criativo sobre tudo: arranjos, composições, estética visual. Esse cuidado virou sua assinatura.
Mesmo com formação técnica e histórico em orquestras, ela escolheu os caminhos pequenos. As canções simples. Os vocais que soam quase sussurrados. É como se, para ela, a força estivesse justamente no que não precisa ser grande.
Bossa nova, jazz e trilhas sonoras imaginárias: o som de Laufey não cabe numa categoria só
O som dela não é fácil de definir, porque é todo sentimento e nenhum rótulo. Tem bossa nova, e não por acaso. Laufey já declarou seu amor por João Gilberto e Tom Jobim em várias entrevistas. A leveza do canto quase falado, os acordes dissonantes, o espaço entre as palavras, o silêncio que vira parte da música. Isso tudo vem da bossa, vem do Brasil, e ela sabe disso. Seu jeito de cantar lembra Astrud Gilberto, mas com a profundidade emocional de Norah Jones e a franqueza lírica de Regina Spektor.
Em From the Start, um de seus maiores hits, a influência brasileira é quase palpável. Os acordes têm aquela leveza tropical. A melodia flui como se estivesse dançando na varanda. Mas a letra é sobre ser amiga de um crush que nunca te enxerga de outro jeito. É triste, mas doce. Como tudo que ela faz.
Também dá para notar a presença do cinema antigo em suas composições. Muitas das músicas de Bewitched parecem feitas para trilhas de filmes franceses dos anos 60. Promise poderia muito bem tocar em uma cena de despedida em um trem. Haunted parece um monólogo sobre um amor que não volta. Laufey gosta de contar histórias que poderiam estar em qualquer lugar do mundo, mas sempre com um sotaque dela.
Mesmo quando ela canta em inglês, há um certo ritmo estrangeiro em tudo. Como se suas referências fossem mais visuais do que verbais. Ela traduz paisagens, estações e gestos em melodia.
Discografia que cresce com quem escuta: três projetos, mil versões de si mesma
O primeiro álbum, Everything I Know About Love, saiu em 2022 e parecia um diário íntimo de alguém que está aprendendo a se apaixonar. Tinha jazz, mas também folk, pop suave e uma sinceridade crua. Faixas como Let You Break my Heart Again e Falling Behind são confissões melódicas, mas com estrutura sofisticada.
Em 2023, veio Bewitched, o disco que levou Laufey a outro patamar. Mais maduro, mais orquestrado, mas ainda muito pessoal. Nele, trabalhou com arranjos maiores, incluindo instrumentos de corda e sopro, e reafirmou seu estilo: jazz moderno com cara de diário. A faixa-título, Bewitched, virou símbolo do disco, ao lado de California and Me, Must Be Love e Promise.
Bewitched teve parte gravada em Londres, com colaborações pontuais e produção coesa. A estética do álbum se refletiu nos clipes e performances, quase sempre filmados com câmera fixa, luz baixa, figurinos vintage e cenários intimistas. Nada exagerado. Nada fora do tom.
Agora, em 2025, ela se prepara para lançar A Matter of Time. Já lançou três singles: Goddess, Lover Girl e Second Best. Todos falam de amor, mas por ângulos diferentes. Um é sobre autoestima, outro sobre saudade, outro sobre aceitar o segundo lugar. Laufey continua explorando o mesmo território, mas com maturidade maior.
Estética, tempo e coerência: Laufey faz tudo com a mesma linguagem visual e sonora
A estética de Laufey é outro capítulo importante da sua arte. Ela nunca parece forçada. Os vestidos com cintura marcada, os saltos baixos, os cachos cuidadosamente arrumados, a maquiagem suave, tudo isso compõe uma imagem coesa, mas nunca caricata. Laufey se veste como quem respeita o tempo. Como quem entende que a moda também pode ser música visual.
Ela já disse que se inspira no guarda-roupa da avó, nas fotos antigas dos anos 40 e 50, e nos ícones do cinema clássico. Em um show, ela pode usar um vestido de cetim bege com luvas curtas e um penteado em ondas. No outro, vem com um terninho branco e batom escuro. Sempre elegante. Nunca gritando. Assim como sua música.

Tudo é coerente, da capa dos álbuns aos palcos, dos clipes ao Instagram. Laufey parece ter definido sua identidade estética cedo, e não se desviou desde então. Ela não está tentando parecer mais nova ou mais descolada. Está apenas sendo ela.
E, talvez por isso, tanta gente se identifique. Porque no meio de artistas que vivem mudando de estilo a cada era, Laufey oferece constância. O tipo de presença que dá conforto.
Aproximação com o K-pop e o mundo asiático: como Laufey chegou a mais pessoas sem mudar quem é
E sim, ela chamou a atenção de ninguém menos que Kim Tae-hyung — o V do BTS — conhecido por seu amor pelo jazz, pelos discos de vinil e por sua estética refinada. Taehyung já interagiu publicamente com conteúdos dela, elogiando sua musicalidade e compartilhando faixas como Bewitched. A conexão entre os dois não é só fandom. É estética. É linguagem emocional. Os dois falam a mesma língua: a do jazz como cura.
Ele não apenas se mostrou fã, como também ajudou a apresentá-la para um público ainda maior: o do K-pop. E a aproximação entre os dois gerou rumores de uma futura colaboração, ainda não confirmada, mas altamente desejada por fãs de ambos os lados. Não seria surpresa ver uma performance acústica dos dois em algum palco intimista no futuro próximo.
Mas além disso, o público asiático tem abraçado Laufey de forma muito orgânica. Seus vídeos acumulam milhões de visualizações na Coreia e no Japão, e já apareceu em programas e revistas da região. Sua conexão com o lado chinês da família também aparece sutilmente em sua arte, como nos toques melódicos mais modais e na forma quase meditativa com que conduz as músicas.
Você não precisa salvar o jazz. Mas Laufey talvez tenha salvado você
Laufey nunca se propôs a salvar um gênero. Mas sem querer, ajudou toda uma geração a entender que jazz não precisa ser difícil. Que bossa nova não é só para quem nasceu nos anos 60. Que vulnerabilidade pode ser uma forma de força. Ela canta sobre saudade, sobre insegurança, sobre não ser correspondida. Mas faz isso com tanta beleza que você até esquece que está doendo.
No mundo barulhento de hoje, Laufey é silêncio bem aproveitado. É carta escrita à mão. É um vinil girando devagar. Uma xícara de chá em vez de uma notificação. É a música que você escuta no fone, com o coração inteiro.
E se você ainda não ouviu Bewitched, Everything I Know About Love ou os novos singles de A Matter of Time, talvez agora seja a hora. Escolhe um, coloca o fone, e deixa ela te contar uma história. Às vezes, é tudo o que a gente precisa.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana










