Ney Matogrosso mescla arte, coragem e liberdade em mais de cinco décadas de história na música brasileira. Um símbolo de resistência como poucos!
Hoje é dia de celebrar a vida de Ney Matogrosso! Presente no cenário artístico brasileiro há mais de três décadas, ele é mais do que um cantor: é arte, forma, luz e poesia. Ney é um exemplo de resistência cultural, artística e de afirmação de identidade; seu trabalho atravessa fronteiras, mobiliza multidões e levanta questões importantes sobre liberdade, presença e enfrentamento contra a opressão, em diferentes períodos da história do Brasil. Dono de uma performance incomparável, transgressora e inovadora, Ney moldou sua carreira rompendo padrões. Pensando nisso, o Entretetizei preparou um especial sobre esse ícone da música brasileira. Estão preparados?
Da infância nômade ao nascimento de um ícone

Ney de Souza Pereira, mais conhecido como Ney Matogrosso, nasceu em Bela Vista, município localizado no sul do Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, no dia 1° de agosto de 1941. É um cantor, intérprete, dançarino, ator e diretor consagrado. Hoje, um dos maiores nomes da música brasileira!
Filho de militar, Ney viveu uma infância nômade, mudando de cidade com bastante frequência, o que o impedia de criar raízes. O nome artístico veio da própria família: seu pai tinha Matogrosso no nome, sendo também uma homenagem ao seu estado de nascimento. Ney só adotou oficialmente esse sobrenome em 1971, quando se mudou de vez para São Paulo. Desde cedo, já demonstrava seus dotes artísticos: cantava, pintava e interpretava. Chamava a atenção de todos e deixava evidente sua veia artística já bastante afiada para a idade. Teve uma infância e adolescência marcadas pela solidão, se sentia incompreendido e diferente dos outros meninos: “sempre fui uma criança solitária. Gostava de ser daquela maneira, como gosto de ser até hoje. Enquanto meus amiguinhos estavam brincando lá fora, eu estava desenhando”, contou o cantor em entrevista ao jornal O Globo.
Aos 18 anos, assumiu sua bissexualidade, deixou a casa da família e ingressou na aeronáutica. Gostava de ler sobre teatro e música, mas estava perdido quanto à profissão. Desistiu da carreira militar e, por um tempo, morou em Brasília, na casa do primo. Anos depois, participou de um festival universitário e chegou a formar uma banda. Concentrou-se então no teatro, decidindo se profissionalizar na área. Deixou Brasília e mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1966, onde passou a viver da confecção e venda de artesanato em couro. Viveu como hippie, criando seus próprios looks, acessórios e artefatos – uma estética que mais tarde marcaria sua identidade artística.
Secos e Molhados: o divisor de águas

O grupo Secos e Molhados, formado em 1973, foi um marco para a história da música brasileira. Com dois discos lançados entre 1973 e 1974 e mais de um milhão e meio de cópias vendidas, a banda conquistou o país com suas performances inovadoras e sonoridades únicas. O visual andrógino, o corpo seminu exposto sem receio algum, o rosto pintado e a presença apoteótica de Ney no palco o transformaram no símbolo do grupo. Foi um fenômeno sem precedentes. Canções como Sangue Latino, O Vira e Rosa de Hiroshima se tornaram clássicos inesquecíveis que são ouvidos até os dias de hoje por diversas gerações. Porém, enquanto o sucesso do grupo aumentava, as tensões e as intrigas entre seus integrantes só aumentavam. A troca de empresário do grupo foi o estopim para que Ney saísse de vez da banda. “Quando fomos para o México, íamos entrar em estúdio para gravar o segundo disco. Chegando lá, nosso empresário simplesmente não apareceu! Cobramos João Ricardo, o líder da banda, e ele deu uma desculpa meio esfarrapada. Depois disseram que não havia mais nada para fazer, e ainda tinha a questão que os compositores ganhavam mais que a gente e era isso e pronto, não aceitei ”, relembrou Ney em entrevista.
Carreira solo e transgressão

Em 1974, começava uma nova fase com o lançamento de seu primeiro disco solo, Água do Céu-Pássaro, também conhecido como O Homem de Neanderthal, cuja capa o mostrava com pintura corporal, vestido com pêlos de macaco, chifres e pulseiras de dentes de boi, apresentando pioneirismo dentro de um movimento social, marca de sua carreira vanguardista, com músicas com sons de floresta, macacos, ventanias, água corrente e pássaros. Uma verdadeira fuga para a natureza, um mergulho na floresta, nada conservador. Em Açúcar Candy, Ney chega até a simular um orgasmo! A faixa América do Sul chegou a ganhar um clipe no programa da Globo, o Fantástico. Com colaborações de nomes como Aldir Blanc, João Bosco, Sueli Costa e Milton Nascimento, o disco era político e poético, profundamente vanguardista. Ele chegou realmente quebrando paradigmas e marcando época.
Em 1976, por fim, veio o reconhecimento popular com o disco Bandido. A canção icônica Bandido Corazón, composta por Rita Lee, tornou-se um grande sucesso atemporal na voz de Ney, mesclando o espanhol caribenho com o português e sua voz única. Outras faixas de destaques foram Trepa no Coqueiro, Gaivota de Gilberto Gil, Mulheres de Atenas de Chico Buarque e Augusto Boal, entre outras. Nessa época, Ney escandalizava o Brasil, parava tudo por meio de sua arte, chocava a sociedade e se tornava um ícone com seu espetáculo ousado e revolucionário e uma performance de tirar o fôlego. Aqui ele mostrou para que veio realmente, não só para chocar e escandalizar com suas performances ousadas, mas também para misturar o popular com o erudito, instigar e seduzir, mesclando gêneros latinos como bolero, mambo e salsa com ritmos brasileiros como o brega. Ney desafiava o machismo, peitava a homofobia e alcançava um público cada vez maior por meio de sua potência. Sua resistência política estava cada vez mais evidente, trazendo um ato de coragem e sedução perigosa jamais vista. Por isso ele se tornou um ícone nacional, não é mesmo?
Nos discos seguintes, como Pecado (1977) e Feitiço (1978), seguiu misturando gêneros com sofisticação. Regravou Sangue Latino, flertou com o rock, tango, bossa nova, frevo e até com a era disco. Não Existe Pecado ao Sul do Equador estourou e foi parar na trilha da novela Pecado Rasgado, da Rede Globo.
Já em Seu Tipo, de 1979, Ney subiu ao palco pela primeira vez sem fantasia, rosto limpo. Aqui ele revelou de vez sua verdadeira essência. O disco transita entre samba, bossa nova, choro, forró e MPB, mesclando cada ritmo em um jeito todo dele de ser, com uma versatilidade única e inovadora. É um álbum humano, emotivo, maduro. Aqui ele se encontra e encontra seu público. O repertório foi puxado pela faixa título, bem como outra regravação de Tom Jobim, Falando de Amor, e canções como Dor Medonha e Ardente. Mais direto e transgressor do que nunca!
Resistência na ditadura

Durante a ditadura militar, sua arte foi afrontada pelo moralismo. Foi ameaçado várias vezes pelo regime por causa de suas performances ousadas e sem medo. Sem camisa, maquiado, com roupas coladas e uma performance andrógina que desafiava a sociedade e o moralismo da época, Ney peitava os padrões e por isso, foi ameaçado, vigiado e censurado. Nesse período, lançou seus maiores sucessos: Homem com H; Vida, Vida; Pro Dia Nascer Feliz; Vereda Tropical; Amor Objeto; Por Debaixo dos Panos; Tanto Amar, entre tantos outros hits que atravessaram gerações. Muitas tentativas de proibição falharam, pois os netos dos generais eram fãs de Ney.Ainda assim, muitas músicas como Pasárgada, Tristeza Militar e Tem Gente com Fome foram proibidas. Ele chegou a ser ameaçado de morte por cartas anônimas e vigiado por agentes do governo. Em Brasília, em 1974, tentaram impedir um show seu por causa de um peito nu. Ele se recusou a vestir a camisa, bateu de frente e o espetáculo seguiu. “Me odiavam por que eu era diferente”, afirmou o cantor em entrevista ao programa Fim de Expediente da Rádio CBN, em 2022. Foi um período turbulento, mas pelo qual passou e enfrentou com braveza, com postura e dignidade, sem perder sua ousadia e alegria. Conseguiu mostrar para todos o seu exemplo de liberdade transgressora, sua arte e música de forma bonita e enriquecedora. Corajoso, insubmisso e autêntico, como sempre foi em toda sua vida.
Vida pessoal e amores

Ney sempre foi uma pessoa reservada e discreta quanto à sua vida pessoal, preferindo exaltar sua carreira em vez de expor seus relacionamentos amorosos. Para ele, idade é apenas um conceito abstrato. Aos 83 anos, segue cheio de energia e entusiasmo, viajando pelo Brasil com sua turnê Homem com H. “Já tive todas as experiências possíveis com drogas e realizei minha sexualidade plenamente”, contou em entrevista à revista Veja. Bem resolvido e ativo, Ney é um exemplo raro de vitalidade e coragem. Nascido em uma família espírita, nunca foi praticante da religião, identificando-se na juventude com o catolicismo. Chegou a fazer a primeira comunhão, mas, atualmente, não segue nenhuma crença. “Não tenho religião, tenho entendimento espiritual. Mesmo o daime (chá de manifestação religiosa), quando tomei, não fui atrás de religião. Queria me conhecer. Respeito todas as religiões, religião é mais que uma igreja.” Afirmou à revista Veja digital, em 2023.
Em sua trajetória, Ney viveu três amores que jamais esqueceu: Zé, o cantor Cazuza e o médico Marco de Maria; todos, infelizmente, morreram vítimas da Aids. “Eles receberam o diagnóstico na mesma época. Cazuza morreu e, dois dias depois, foi a vez de Marco, em 1990. Era um período muito diferente de hoje, as pessoas tinham até medo de encostar em alguém com AIDS. Fui levar Marco ao médico e não queriam que usássemos o elevador. Ia visitar o Cazuza e massageava seus pés quando já não conseguia se levantar.” Relembrou o cantor em entrevista à revista Veja digital sobre todo esse período conturbado de sua vida.
Todos tiveram um significado imenso e marcaram profundamente a sua alma, foram parceiros de vida, alma e coração. A relação com Marco foi a mais duradoura: foram 13 anos de amor, carinho, cuidado e parceria. Mesmo após o término, Ney cuidou dele até a sua morte, em 1990. Marco foi o único parceiro com quem o cantor morou junto. Discretos, os dois evitavam holofotes e raramente era mencionado pelo artista em entrevistas. Ney vive sua vida com intensidade e coragem, carregando consigo a saudade de seus amores. Ainda assim, mostra-se mais ativo, forte e resiliente do que nunca, transformando suas experiências em arte e mantendo viva a chama que o torna um dos artistas mais autênticos e inspiradores do Brasil! Um ícone inspirador dentro e fora dos palcos!
Ney no cinema

Neste ano, Ney teve sua vida retratada na cinebiografia, Homem com H, um tremendo sucesso de público e crítica. O ator Jesuíta Barbosa interpretou Ney com intensidade, força e coragem, dando vida a todas as fases de sua carreira e também a aspectos de sua vida pessoal, incluindo seu relacionamento com Marco: “Eu me descontrolei duas vezes com esse filme. Eles eram tão convincentes que eu tive uma coisa assim…” relatou o artista em entrevista coletiva sobre o filme. Foi uma catarse de emoções. O filme arrebatou os corações dos fãs de todo o Brasil e está disponível para assistir a qualquer momento na plataforma Netflix. Quem não assistiu, não pode perder tempo!
Um patrimônio cultural vivo

Ney Matogrosso construiu uma carreira sólida sendo ele mesmo, com brilho, ousadia, poder e inteligência. Rompeu com o machismo, enfrentou barreiras, não precisou levantar bandeiras.Sempre foi a própria bandeira! Libertário, criativo, sem medo algum de ser quem é, um artista como poucos. Enfrentou a censura com beleza e arte. Tornou-se um símbolo de liberdade, não só sexual ou estética, mas liberdade de ser e criar. Aos mais de 80 anos, Ney segue sendo um ícone vivo da música brasileira, imortal, cantando, performando e reinventando. Não é exagero dizer que ele é um patrimônio cultural do Brasil. Um artista que marcou o passado, vive intensamente o presente e continua inspirando o futuro. Sua trajetória prova que seu corpo, sua música, sua história é arte pura e arte é, acima de tudo, resistência e liberdade!
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Texto revisado por Angela Maziero Santana










